Livre pensar s pensar (Millr Fernandes)

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One thought on “Livre pensar s pensar (Millr Fernandes)

  1. Prezados
    Submeto o vocs a cronica a seguir para publicar caso de acordo.

    Eram dias incomuns naquela primavera de 1968 no Rio de Janeiro. Nies e muitos jovens estudantes frequentavam diariamente o centro da cidade. Ele se preparava para o vestibular num cursinho que ficava na sobreloja de um prdio da Av. Churchill, no Castelo, bem ali prximo ao Calabouo palco da recente morte de outro estudante, o Edson. Essa morte incendiara o Brasil. Os nervos das pessoas ferviam e a cidade fedia a gs e a sangue.
    Naquele ano ele tinha sido convidado por um meio-primo que cursava a Faculdade de Direito, para participar das manifestaes e da luta contra a ditadura instalada no Pas, mas pediu tempo para fazer um balano dos prs e contras. S sabia que queria entrar para a Faculdade. Logo depois daquele encontro familiar soube que Paulo j estava na luta armada e 4 anos mais tarde estava morto e desaparecido, para sempre.
    Nies era um jovem bem formado e razoavelmente lcido.
    No ano seguinte, depois das muitas passeatas pelo centro do Rio, de algumas borrachadas e muito gs lacrimogneo, enfim Nies estava na UFRJ, cursando o 1 ano no Fundo, onde a porrada continuava a correr solta quase diariamente, no restaurante bandejo e nos estacionamentos de pilotis da Universidade. Viu, estarrecido, muitos estudantes apanharem e serem levados sem destino certo. Presenciou discursos inflamados no Fundo de 69 e 70 que desapareceram lentamente junto com seus lderes desaparecidos.
    Muitos deles morreram e vrios entraram para a poltica apoiados pelo povo pela histria vitoriosa de luta pela democracia. Saram de pores da ditadura e entraram para novos pores. Menos violentos com certeza, mas to danosos quanto os anteriores, transvestidos de democracia.
    Mas se tanta gente morreu por um Pas melhor, como explicar aos jovens filhos que essas mortes foram em vo? Nies s tinha uma certeza, no poderia mais explicar ao Paulo que a lama era geral, pois o infeliz havia morrido sob tortura, deixando somente e por merecimento nome de rua na cidade.
    E afinal, quase 45 anos depois, frustrado com tanta impunidade pde ver com o mesmo brilho nos olhos, novamente, centenas de milhares de jovens pacficos, assim como seus amigos daquele ano de 1968, sarem s ruas nesse pequenssimo ciclo de vida vivido, contra todo o poder corrupto instalado no Pas.
    Hoje Nies aguarda otimista que a verdadeira democracia seja remontada sobre os frangalhos que sobraram e que o povo exija a criao de uma nova Comisso da Verdade para encontrar e julgar os responsveis pelas ilegalidades no Brasil do 3 milnio, para o bem dos futuros brasileiros e para que o Paulo enfim consiga repousar em paz.

    Fernando Leiras – ex-jornalista da Tribuna da Imprensa 72/74

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