One thought on “Livre-pensar é só pensar (Millôr Fernandes)

  1. O problema econômico da Índia é muito parecido com o do Brasil que tem infraestrutura precária.

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    O declínio econômico da Índia

    A fabricante de motores Ansons mantém reduzidos os investimentos e o número de funcionário com medo de infringir as leis indianas./Santosh Verma-NYT

    A Índia parecia estar tentadoramente perto de embarcar na mesma arremetida rumo ao crescimento econômico que tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza na China e pelo Extremo Oriente. Agora, sua economia está confusa, com a perspectiva de piorar nos próximos meses. Vinod Vanigota, atacadista de discos rígidos para computador de Mumbai – antiga Bombaim–, afirmou que as vendas caíram 25% nas últimas semanas. A moeda indiana, a rupia, se tornou tão volátil que ele passou a rever as listas de preços a cada meia hora. A atividade comercial na Chip Com Traders, da qual ele é diretor-executivo e cofundador, retraiu tão abruptamente que as transportadoras imploravam negócios. “Uma delas me ligou hoje e perguntou: ‘você não tem qualquer tipo de pacote para entregarmos hoje?'”, contou Vanigota.

    O declínio econômico pôs a nu problemas crônicos, pouco lembrados durante o recente boom econômico. Uma infraestrutura antiquada, um mercado de trabalho esclerosado, custos imobiliários exorbitantes e estatais inchadas nunca deixaram a indústria crescer com força. Em agosto, a rupia caiu mais fundo e rápido contra o dólar do que qualquer uma das 77 moedas do mundo, enquanto investidores em países ricos levavam o dinheiro embora em busca de lucros maiores. A moeda recuou 20% desde maio, período em que o mercado acionário seguiu o exemplo e caiu quase 8%.

    Os artigos ambicionados pela classe média emergente – Chevrolets, iPhones e férias no exterior – sofreram grandes reajustes de preço nas últimas semanas. E tais aumentos ameaçam piorar a inflação ao consumidor – já entre as maiores da Ásia, a uma taxa anual de quase 10% – e ampliar o já enorme déficit da balança comercial e o déficit do orçamento público.

    Inflação

    O governo agora está preparando o país para um aumento rápido no preço do diesel e de outros produtos importados necessários cotados em dólares. O diesel é a força vital da economia indiana que fornece energia a tudo, dos caminhões que se arrastam pelas estradas congestionadas e cheias de buracos aos geradores de fundo de quintal que compensam o alto custo da rede elétrica, pouco confiável.

    Economistas dizem esperar que a Índia apresente uma recuperação em “V”, a partir do começo do ano que vem, com a rupia fraca rejuvenescendo as exportações do país. “A Índia não é a Grécia; em termos de dívida, nunca caímos na farra”, disse Ajay Shah, economista renomado do Instituto Nacional de Finanças e Políticas Públicas, de Nova Déli.

    A origem do problema está no fracasso em criar uma base industrial vibrante com força para exportar. Enquanto os compradores ocidentais vasculham a Ásia em busca de alternativas às fábricas chinesas cada vez mais caras, a Índia é praticamente ignorada.

    Soeb Z. Bandukwala, diretor-executivo da Ansons Electro Mechanical Works, fabricante de bombas d’água e motores elétricos, se pergunta como a recuperação pode chegar, dados os problemas estruturais da Índia. Ele toca uma empresa que é de sua família desde 1967 e passou a ter quatro fábricas. Entretanto, ele deixa cada unidade com menos de 50 trabalhadores e tem mantido maquinário e outros equipamentos em uso desde a década de 1970, sem substituição.

    O diretor teme que, caso passe de 50 funcionários ou ultrapasse determinadas margens de investimento total, se torne sujeito a leis trabalhistas extensas. “Existe um temor: o temor das leis trabalhistas”, afirmou Bandukwala, que também é líder regional da Confederação Industrial.

    Infraestrutura

    A infraestrutura é outro problema. A Ansons fica a menos de 60 quilômetros do porto através do qual exporta máquinas para a Europa. Mesmo assim, os caminhões precisam de quatro a sete horas para chegar ao porto porque as vias expressas prometidas não foram construídas. As velocidades que mal ultrapassam a de uma pessoa caminhando pelo menos ajudam a proteger bombas e motores de danos. “Se a velocidade fosse maior, haveria prejuízos por causa dos buracos na estrada”, garantiu Bandukwala.

    A infraestrutura ruim também estimulou os custos dos imóveis industriais na Índia, considerados altos na comparação com a China. Apenas nos últimos cinco anos, a China abriu mais de 9,3 mil quilômetros de linhas férreas de alta velocidade e quase 650 mil quilômetros de rodovias de duas ou mais pistas. O que permitiu a dezenas de milhares de fábricas se mudarem para o interior onde o custo do terreno é muito menor.

    A Índia não conseguiu abrir o interior da mesma forma. Ao mesmo tempo, o controle do aluguel e outras regras sobre as terras tornam extremamente difícil derrubar e substituir até os prédios mais dilapidados. Por conta disso, cidades como Mumbai terminaram com dezenas de quilômetros quadrados de prédios baixos com marcas verde-claras de bolor, intercalados por arranha-céus ocasionais que foram de alguma maneira construídos. Na periferia mais remota surgiram fábricas e edifícios de escritórios onde antes era terra agrícola.

    A grande escassez de imóveis a menos de um dia de distância dos portos gerou aluguéis e preços salgados. Cinco anos atrás, a Challenge Overseas, fabricante de calças, pagou US$ 1,3 milhão para comprar a cobertura de 1,8 mil metros quadrados de um edifício industrial decrépito de quatro andares com saídas de emergência bloqueadas, em um beco barrento nos arredores de Mumbai, e o vendeu por US$ 2,7 milhões no mês passado. O andar inferior havia sido vendido pela empresa, de 60 funcionários, por US$ 410 mil em 2003 e agora está avaliado em US$ 1,2 milhão.

    Estradas e pontes para cidades no interior não são o único problema de infraestrutura. A Shakti Industries, que reduz a espessura e corta fios de alumínio para fabricantes de joias, paga o equivalente a 15 a 18 centavos de dólar por quilowatt-hora de eletricidade. Na China, paga-se metade desse valor.

    A Shakti tem somente sete empregados. Contudo, é regulamentada por mais de uma dúzia de agências, sendo que cada uma delas manda seu próprio fiscal todo ano antes de conceder licenças para coisas tão diversas quanto o uso da eletricidade e a poluição da água. Segundo a empresa, muitos fiscais pedem propina, acusou Vipul S. Kamani, diretor-geral da Shakti.

    Arun Prajapati, 21 anos, trabalhador migrante da Challenge, contou ganhar US$ 100 mensais, um quinto do que os trabalhadores recebem hoje. Ele paga US$ 9 mensais pelo aluguel e a eletricidade para dormir no chão de um quarto de três por três metros que divide com outros migrantes. Prajapati gasta US$ 38 por mês em uma dieta de subsistência de pão roti, lentilhas e, uma vez por semana, frango ou ovos. Ele envia as economias magras para a mãe viúva em seu vilarejo, no centro da Índia. “Com as despesas subindo a cada dia, as coisas ficam cada vez mais complicadas por aqui”, ele declarou. “Só estou tentando viver.”

    (transcrito do Diário do Comércio)

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