Livro sobre o cofre do Ademar exagera a participação de Dilma no assalto

Bruno Leal

Ele não sai das vitrines das principais livrarias do Brasil e está próximo
de figurar na lista dos títulos mais vendidos do país. Se você pensou em
algum livro sobre a saga de um vampiro adolescente ou em mais um manual de autoajuda, errou. O livro em questão se chama “O Cofre do Dr.Rui”, do
jornalista Tom Cardoso, e conta a história de um dos acontecimentos mais
emblemáticos da história contemporânea do Brasil: como a Var-Palmares de Dilma Rousseff realizou o maior assalto da luta armada brasileira.

O episódio narrado de forma romanceada por Cardoso começa em 1969, quando a esquerda brasileira tentava se organizar após o baque sofrido pela
promulgação do Ato Institucional N°5 (1968), que radicalizou a repressão no Brasil ao permitir ao regime militar cassar e suspender direitos políticos,
intervir nos estados e municípios e exacerbar a censura à imprensa. Em
pouco menos de um ano, várias lideranças da esquerda estavam presas, mortas ou no exílio. As que ainda se encontravam livres no Brasil, passavam toda a sorte de privações e perigos.

Não havia dinheiro para sustentar a compra de armas ou mesmo assegurar a sobrevivência dos militantes, sobretudo aqueles que foram obrigados a viver no exterior.

Durante os anos de chumbo”, boa parte dos recursos das organizações de
esquerda vinham de assaltos a bancos, chamados pelos militantes destas
organizações de “expropriações”. No início de julho de 1969, a recém
formada Vanguarda Armada Revolucionária, a VAR-Palmares, adepta da luta armada, foi informada de um cofre repleto de dólares mantido em segredo absoluto em uma casa no bairro de Santa Tereza, Rio de Janeiro.

O cofre estaria localizado na mansão onde morava o cardiologista Aarão Burlamaqui Benchimol, irmão de Ana Guimol Benchimol Capriglione, que fora amante de Adhemar de Barros, ex-governador de São Paulo, famoso pelo bordão “rouba, mas faz”, falecido quatro meses antes.

Ana, que mantinha em segredo a fortuna de Adhemar, dinheiro supostamente desviado durante sua gestão, era conhecida nos meios políticos pelo pseudônimo de Dr.Rui, criado pelo próprio Adhemar para não levantar suspeitas publicas de seu envolvimento extraconjugal.

O tal “Cofre do Dr.Rui” teria aproximadamente 200 mil dólares, valor que tiraria os militantes da dificuldade e ainda financiaria uma série de ações contra a repressão. Carlos Lamarca, ex-militar que passara para o lado dos guerrilheiros, soube da história e logo a batizou de “A Grande Ação”.

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O ASSALTO

O assalto foi planejado nos mínimos detalhes. Ocorreu em uma sexta-feira,
dia 18 de julho de 1969, quando apenas alguns poucos moradores da casa e
outros poucos funcionários encontravam-se no local. No total, participaram diretamente da operação onze militantes da VAR-Palmares, entre eles o atual deputado estadual do Rio de Janeiro, Carlos Minc.

Tratou-se de megaoperação, envolvendo pessoas de várias regiões do Brasil, calculada sob medida para retirar o pesado cofre da casa, colocá-lo em um carro e levá-lo para um lugar seguro. O assalto e o transporte foram feitos sem sobressaltos. A grande surpresa, no entanto, estava na abertura do objeto.

Ao invés de 200 mil dólares, os guerrilheiros encontraram um montante de 2 milhões e 598 mil dólares, que hoje equivalem a pouco mais de 20 milhões de dólares. A sorte parecia estar do lado da VAR-Palmares. O que o livro de Tom Cardoso mostra, porém, é que o dinheiro trouxe tudo, exceto boa sorte para os envolvidos na “Grande Ação”.

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A MALDIÇÃO

Ao lado dos preparativos e da execução do assalto, a essência do livro está
no destino dos onze militantes que participaram da “expropriação” e de
outros personagens que participaram de outra forma no episódio. A história
de cada um mostra uma espécie de “maldição” que o dinheiro de Adhemar
parecia carregar. No fundo, entretanto, o que o dinheiro realmente fez foi
provocar fissuras e discordâncias já latentes entre pessoas e organizações.

A primeira das fissuras ocorreu logo nos momentos seguintes a abertura do
cofre. Os guerrilheiros distribuíram entre si uma nota de um dólar para
comemorar a ação, embora o “manual do guerrilheiro, que deveriam seguir,
condenasse esse tipo de prática. Outros, achavam que era preciso celebrar
em grande estilo, com camarão e vinho branco em um badalado bar do bairro do Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro. Houve discordâncias nos dias e meses seguintes, discussões acirradas, quase um motim no seio da organização. O dinheiro acabou repartido, após uma confusa e tensa reunião entre lideranças da esquerda clandestina.

Com o avançar das investigações, a polícia prendeu vários guerrilheiros,
que foram torturados e, por sua vez, deletaram outros companheiros. Um dos envolvidos sumiu com parte do dinheiro. Outro caiu em um golpe no exterior e perdeu boa parte do valor. Um grupo propôs uma nunca realizada redistribuição, no sentido de ajudar exilados em dificuldade no exterior.

Outro grupo esbanjou de uma qualidade de vida invejável. Em suma, o
dinheiro catalisou diferenças e acelerou a fragmentação dos guerrilheiros
em fações cada vez mais frágeis e efêmeras.

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ATUAÇÃO DE DILMA

A única coisa que soa desajustada no livro é o peso que se confere a
participação da atual presidente Dilma Rousseff no assalto. Embora sua foto
esteja na capa do livro e no subtítulo da obra, Dilma não participou
diretamente da operação. Sua função na VAR-Palmares foi realizar a troca de parte do montante por cruzeiros, no Rio de Janeiro, e em outras ações
secundárias, decorrentes do assalto.

Embora tenha sido presa por seu envolvimento na organização, Dilma foi uma coadjuvante na “Grande Ação”. Portanto, seu destaque, não só na capa do livro como na maior parte das resenhas da obra, chega a ser um exagero, talvez uma estratégia para atrair mais leitores. O que nem seria preciso, uma vez que o livro é consistente e conta com um ótimo acabamento, não só no plano da narrativa quanto também no design editorial: boa arte, bom papel e índice onomástico.

Fonte: http://cafehistoria.ning.com/o-cofre-do-dr-rui

 

 

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