Louvao carta de Anita Leocdia, e recordaes de seu pai, Luiz Carlos Prestes. Este, desde 1924 at morrer, no centro dos acontecimentos. No sacrificou, por 1 minuto, suas convices

Tendo em vista matria publicada em O Globo de hoje (p.4), intitulada Comisso aprovar novas indenizaes e na qualidade de filha de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, devo esclarecer o seguinte:

Luiz Carlos Prestes sempre se ops sua reintegrao no Exrcito brasileiro, tendo duas vezes se demitido e uma vez sido expulso do mesmo. Tambm nunca aceitou receber qualquer indenizao governamental; assim, recusou penso que lhe fora concedida pelo ento prefeito do Rio de Janeiro, Sr. Saturnino Braga.

A reintegrao do meu pai ao Exrcito no posto de coronel e a concesso de penso famlia constitui, portanto, um desrespeito sua vontade e sua memria. Por essa razo, recusei a parte de sua penso que me caberia.

Da mesma forma, no considerei justo receber a indenizao de cem mil reais que me foi concedida pela Comisso de Anistia, quantia que doei publicamente ao Instituto Nacional do Cncer.

Considerando o direito, que a legislao brasileira me confere, de defesa da memria do meu pai, espero que esta carta seja publicada com o mesmo destaque da matria referida.

Atenciosamente,

Anita Leocdia Prestes

Comentrio de Helio Fernandes
A carta da filha de Prestes foi publicada, o mnimo que poderiam fazer. Luiz Carlos Prestes pode sofrer crticas, mas nada em matria pessoal. Quando liderou a Histrica Coluna Prestes de 1924 a 1926, j havia pedido demisso do Exrcito. Portanto, quando o Exrcito publicou a sua expulso, estava EXPULSANDO algum que no poderia ser EXPULSO, j revertera, voluntariamente, condio de civil.

Era vingana pura, ato torpe, que comprometeu o Exrcito. lgico que no arquivo do Exrcito j constava a demisso a pedido do capito. Que alis foi o mais jovem capito de toda a Histria do Brasil. Pediu DEMISSO e foi tratar da vida, sem PEDIR ou ACEITAR qualquer recompensa. Fato que a filha repetiu SEM ESTARDALHAO, s agora passa a ser do conhecimento pblico.

Prestes errou em todas as posies polticas ou em atos que dependiam exclusivamente de sua vontade, mas errou CONTRA ELE MESMO, no se beneficiou de coisa alguma. Ele sempre disse: Os interesses pessoais no podem prevalecer acima de qualquer coisa, e prejudicar a coletividade E cumpriu na prtica o que pregava na teoria.

Em 1930, os Tenentes Siqueira Campos e Joo Alberto, foram a Montevidu (onde Prestes morava, depois de ficar algum tempo exilado na Bolvia), convid-lo para chefiar a Revoluo de 30, que j estava praticamente vitoriosa.

Prestes perguntou aos companheiros da brava Coluna: A Revoluo comunista?. Siqueira e Joo Alberto, surpreendidssimos, pois a revoluo era burguesa, aristocrtica e reacionria. Mas Prestes poderia ter COMANDADO a Revoluo, assumido o Poder, e nessas condies, mudado os rumos do pas. No admitia, considerava isso, uma traio. Recusou, lanou o Manifesto de fundao do partido, e em 1932 viajava para a Unio Sovitica.

Voltou em 1935 para organizar e desfechar a Revoluo Comunista que no tinha a menor chance de vitria. Sem recursos, desorganizada, praticamente existindo apenas no interior da Paraba e do Rio Grande do Norte. E no Rio, apenas no 3 RI. (Onde hoje existe um monumento, na Praia Vermelha).

Preso logo depois, em 1936, foi levado para a Polcia Central, onde ficou sob as ordens do antigo companheiro de coluna, o torturador Filinto Muller. Foi o brasileiro mais torturado de todos os tempos, ficando num vo de escada, at 1940. (S saa eventualmente para o julgamento no Tribunal de Segurana Nacional).

Em 1940, como o Brasil fazia parte, na Segunda Guerra, das foras Aliadas, o governo sovitico mandou pedir ao ditador Getlio Vargas, a libertao dele. Vargas no atendeu, mas mandou transferir Prestes para a Penitenciria Frei Caneca, onde ficou at 1945.

Nesse ano, a ditadura ameaadssima, Vargas soltou Prestes. E este assombrosamente, passou a defender a CONSTITUINTE COM VARGAS. Um disparate completo, Prestes ERRAVA TOTALMENTE, mas por convico.

Logo depois de solto, outra violenta contradio de Prestes, mas como sempre coerente com suas idias. Foi fazer um comcio no Estdio do Vasco, (ainda no existia o Maracan), uma multido foi ouvi-lo e saiu de l chorando. Prestes criticou o prprio povo, afirmou: Vocs esto se aburguesando, s pensam num rdio novo e mais potente ou em geladeira. (Textual)

* * *

PS Termino por aqui, tudo o que escrevi apenas louvao posio de Anita Leocdia. Apesar dele estar sempre longe, tive sempre boas relaes com Prestes. Na Constituinte de 1945, (meu primeiro grande trabalho para a revista O Cruzeiro) tive timo contato com Prestes e os 15 deputados eleitos pelo Partido. Escrevi: No entendo como que Prestes e Plnio Salgado ficam conversando amistosamente, e depois na tribuna se agridem violentamente.

PS2 No dia 25 de maro de 1981, (vspera do massacre das instalaes da Tribuna, que ocorreu no dia 26), tive debate com Prestes de quase 3 horas no CACO, Faculdade da Moncorvo Filho (deve estar tudo, claro, no arquivo da Faculdade). Lotadssima. Como eram jovens e estudantes estavam visivelmente a favor de Prestes, mas me respeitavam, samos juntos e abraados.

PS3 Meu ltimo contato com Prestes se deu em 1987, em Cuba. Fidel organizou um Seminrio sobre DVIDA EXTERNA, um dos meus assuntos favoritos. Estavam presentes 61 brasileiros, muitos deputados, senadores, jornalistas. S dois discursaram: Prestes, lendo, este reprter, como sempre, de improviso. Lula tambm presente, j candidato a presidente em 1989. No falou, no conhecia nada do assunto.

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