Lula ataca Dilma ao condenar, na prática, a teoria de Levy

Lula na Argentina, fazendo campanha para Scioli

Pedro do Coutto

No jornalismo e na análise política é essencial confrontar reportagens e artigos publicados e deles extrair uma síntese e interpretá-la, o que conduz e permite uma tradução plena de seus conteúdos, de suas direções. Convém, para atingir esse objetivo, ler mais de um jornal por dia. Foi o que fiz na sexta-feira, apreciando a reportagem de Martha Beck, Catarina Alencastro, Geralda Doca, Danilo Farielo, Cristiane Jungblut, Eliane Oliveira e Washington Luiz, no Globo, e a de Mariana Carneiro na Folha de São Paulo.

A primeira focaliza a exposição feita pelo ministro Joaquim Levy, refletindo, na teoria, as intenções da presidente Dilma Rousseff de elevar impostos e cortar gastos públicos. A segunda destaca os fortes ataques do ex-presidente Lula contra o projeto de ajuste fiscal esboçado pelo titular da Fazenda.

A divergência, através do cotejo inevitável, torna-se absolutamente nítida e vem à superfície de uma análise objetiva, bastando para isso ler-se os textos com serena atenção.

ROTEIROS TEÓRICOS

O ministro Joaquim Levy, mais uma vez, abordou roteiros teóricos para enfrentar as dificuldades atuais do governo e do país, tentando incorporar o ente chamado mercado como forma de retomar os investimentos na economia. E Luiz Inácio da Silva foi agressivo na defesa do ponto de vista exatamente contrário.

Vamos aos fatos. Levy anunciou, sem entrar em detalhes, que a equipe econômica apresentará até o final deste mês as medidas voltadas para os cortes de gastos e aumentos de impostos para reequilibrar as contas públicas e atingir a meta do superavit primário. O ex-presidente Lula, entretanto, afirmou: “Me assusta muito a visão de todos aqueles que, ao primeiro sintoma de uma crise começam a falar em ajuste”.

E acrescentou: “Ajuste significa corte de salário, corte de emprego.”

NÃO HÁ MÁGICA

O pronunciamento de Lula foi feito em Buenos Aires, onde se encontrava participando de agenda política da presidente Cristina Kirchner em favor de seu candidato às eleições de outubro, Daniel Scioli. Disse ainda, em relação ao governo Dilma, que “em economia não existe mágica, existem palavras como confiança e credibilidade”.

Para Joaquim Levy, a solidez fiscal evita turbulência e representa a base do crescimento da economia. E confirmou sua permanência no ministério: “Minha tarefa ainda não terminou”, disse ele.

Atribuir a Joaquim Levy a tarefa de expor o posicionamento do governo sem dúvida foi a forma política adotada por Dilma Rousseff de fortalecê-lo politicamente em meio à tempestade. O caminho adotado por Lula tornou-se a maneira que julgou mais eficaz e oportuna de se colocar na oposição ao projeto, sem se afastar do PT. Até porque tal hipótese é totalmente impossível.

POLÍTICA É ASSIM

Desestabilizou Joaquim Levy, frontalmente. Mas quis preservar o governo. Uma conciliação de propósitos difícil. Mas política é assim.

Aqueles que são capazes de estranhar as contradições a ponto de rejeitar seus efeitos podem estar certos ou não, dependendo das ocasiões e das versões finais dos episódios. Porém a verdade é que, todos nós, que trabalhamos com análises, temos que nos acostumar às dúvidas. São naturais. Se elas (as dúvidas) não existissem e não se incorporassem ao conhecimento humano, simplesmente não haveria progresso.

O progresso e o processo dependem – e sempre dependerão – das dúvidas que abriram caminho a novas descobertas, e novas etapas, a novos avanços no tempo e no espaço.

Espaço? Sem dúvida, agora, Lula contribuiu em diminuí-lo para o Palácio do Planalto.

4 thoughts on “Lula ataca Dilma ao condenar, na prática, a teoria de Levy

  1. Esse senhor, no afã de preservar seus interesses políticos e até quem sabe interesses outros, não mede consequências.
    Não tenho a pretensão de achar que ele está correto ou não, mas que é un tremendo oportunista e traíra, com certeza é.
    Todos eles colaboraram para afundar o país, agora os ratos começam a deixar o navio.

  2. POLÍTICA É ASSIM…

    Mas, não é a POLÍTICA preconizada por PLATÃO, o filósofo que pensou a cidade utopicamente perfeita. Nessa cidade platônica, os políticos trabalhariam para o engrandecimento da vida na cidade, nossos políticos trabalham para seus financiadores de campanha, tanto que não abrem mão desse financiamento. O Senado vetou e a Câmara restabeleceu o financiamento. Aliás, Senado e Câmara não estão falando a mesma linguagem. O confronto existe entre as duas Casas Legislativas.

    Joaquim Levy não precisa ser desestabilizado, sua política econômica neoliberal, conforme preceitua os “gênios” da Escola de Chicago cria automaticamente a desestabilização da economia, quando reduz o consumo das famílias, aumenta os juros aumentando a dívida interna e em consequência gera o desemprego. Para quê? Para nada. Esse é o ajuste fiscal, que onera os trabalhadores, que vivem da renda do trabalho, enquanto preserva os lucros dos bancos. Não pode dar certo.

    Por que então, o ministro continua no cargo? Porque o sistema de poder assim o exige. Política é assim, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

    O ministro foi chamado para executar uma missão, a de consertar os erros cometidos pelo ex-ministro Guido Mantega, que incentivou o consumo e abriu os cofres do governo para financiar os campeões nacionais, o maior desses grupos “campeões” faliu e agora se encontra na segunda divisão.

    Entretanto, a política intervencionista do Estado na Economia deu certo nos oito anos do governo LULA, tanto é, que conseguimos suportar nesse período a tsunami global que afetou EUA e Europa, a partir de 2008, chamado de “bolha imobiliária”. O Tesouro Nacional alavancou as empresas através dos empréstimos com juros baixíssimos e lá nave vá. Tudo ia muito bem, até que o cenário mudou. A China desacelerou brutalmente e deixou de comprar como antes, as commodities brasileiras. A balança comercial desabou a partir de 2010 e hoje está no alambrado, nas cordas.

    O CAPITALISMO não convive bem com retração, com ajustes que impedem a livre circulação de mercadorias, o toma lá dá cá das compras e vendas. Se há desemprego, alguém deixará de comprar pão, o padeiro fecha a padaria e desemprega os seus empregados e quem produz a farinha vai vender para quem? E o transportador da farinha, o caminhoneiro, o vendedor de diesel, etc…

    A POLÍTICA É ASSSIM E O CAPITALISMO TAMBÉM.

  3. Do nosso carnavalesco Rei Lula Primeiro e Único: “Ajuste significa corte de salário, corte de emprego.”

    Só que na realidade acontece exatamente o contrário: DESAJUSTE significa corte de salário e corte de emprego.

    A Dilma deveria demitir o Levy e colocar o Rei Lula Primeiro e Único no Ministério da Fazenda.

    Seria uma oportunidade para o Rei Lula Primeiro e Único mostrar para todos nós o que ele é capaz (ou incapaz). E ele de quebra ganharia foro especial para escapar da Lava Jato.

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