Lula e Mário, duas histórias de operário

Sebastião Nery

Fez 30 anos. O dia 16 de abril de 82 (ainda na ditadura, mas já na anistia), uma sexta-feira, foi um belo dia para os trabalhadores brasileiros. O STM (Superior Tribunal Militar), à tarde, em Brasília, absolveu Lula e seus companheiros do sindicato dos metalúrgicos do ABC, acusados de crime contra a segurança nacional, por liderarem a histórica greve de 80.

Na mesma tarde da mesma sexta-feira do mesmo 16 de abril de 82, também em Brasília, o Tribunal Federal de Recursos (hoje STJ, Superior Tribunal de Justiça) mandou que fosse readmitido, reintegrado e indenizado pela Petrobras o fundador e três vezes presidente do primeiro Sindicato de Trabalhadores do Petróleo do País, o Sindipetro da Bahia, Mário Lima.

No dia seguinte, escrevi uma coluna: – “Lula e Mário, a vitória do operário”, contando a história dos dois.

Vinte anos depois, em 2002, Lula foi candidato a presidente da República e Mário Lima mais uma vez a deputado federal pela Bahia. A história de Lula vocês sabem. A de Mário, a Bahia e o movimento sindical brasileiro também sabem.

###
GERAÇÃO GLAUBER

Os livros que contam a história do novo cinema, da nova música e da nova literatura brasileira falam da “Geração Mapa” de Salvador, nos anos 50 e 60, nascida no Grêmio Estudantil do centenário Colégio Central da Bahia.

Um grupo de inquietos e talentosos jovens que estiveram ou estão por aí até hoje brilhando e fazendo sucesso: Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, Calazans Neto, João Ubaldo Ribeiro, Joca Teixeira Gomes, José Carlos Capinan.

O líder escolar deles todos, o presidente do grêmio estudantil, era um jovem saído do mais profundo e pobre sertão da Bahia, da cidade de Glória, e que logo revelou uma surpreendente capacidade de liderança: Mário Lima.

Em 58, fez concurso para operador da Refinaria de Mataripe, tirou o primeiro lugar. Em 60, fundou com outros o sindicato. Em 62, aos 27 anos, elegeu-se deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (eu, estadual).

###
CASSADOS E PRESOS

Em 64, logos nos primeiros dias do golpe, nos encontramos cassados, presos, apanhados, jogados nus no chão molhado, sem luz e sem sol, ele numa solitária eu em outra, agUentando, resistindo, nos porões do soturno Forte do Barbalho, das coloniais guerras holandesas na Bahia, o forte que nos coube.

Na hora da prisão, no 1o de abril, dentro do palácio do governo baiano, embora deputado federal, mas por ser líder sindical e haver falado no comício da Central do Brasil de 13 de março no Rio, foi agredido, maltratado, ferido, mas não fraquejou, não denunciou, não se desesperou, não fez concessão.

(A tese do ex-ministro Jarbas Passarinho, de que a violência da ditadura só começou depois de as esquerdas fazerem a luta armada, é uma afrontosa fraude histórica. A violência deles começou no dia 31 de março).

###
DUAS VIDAS-SÍMBOLO

Um dia, Mário desapareceu do Forte. Tinha sido desterrado para Fernando de Noronha, com Miguel Arraes, Seixas Dória, Djalma Maranhão, tantos outros (mais tarde, Hélio Fernandes). Voltou, clandestino em São Paulo, sobrevivendo no Paraná e no Rio, mais dois anos de cadeia em Salvador.

Em 82, anistiado, retornou à Petrobras, foi reeleito presidente do seu sindicato e a Bahia lhe devolveu o mandato de deputado federal, pelo PMDB, renovado na Constituinte, onde foi o relator do capítulo social. Morreu em 2009,  ainda na ativa, trabalhando como assessor da presidência da Petrobras, função que desempenhava desade 1992.

Lula e Mário Lima, duas vidas-símbolo do País, são duas belas provas de que a injustiça e a violência não derrotam a História.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *