Lupi alega que há um “Carnaval de denuncismo”, mas terá de explicar muitos atos de corrupção no Ministério do Trabalho, para não “sambar” do cargo.

Carlos Newton

Já era de se esperar. O ministro Carlos Lupi (Trabalho) alega que há “Carnaval” nas denúncias de corrupção contra a equipe da presidente Dilma Rousseff. Na opinião do pedetista, a oposição usa a crise política para fazer “denuncismo” uma vez que “perdeu sua bandeira e não tem discurso nem programa” para o país.

“Denúncia fundamentada, tem de se apurar, tem de se investigar. Tem de se prender aqueles que façam qualquer desvio de recurso público. Outra coisa é denuncismo por denuncismo, aqueles para aparecer em manchete de jornais”, afirmou.

Na opinião do ministro, que estava bastante inspirado, tem “Carnaval e fato real”, mas falta “enredo” em certas acusações – principalmente as feitas pela oposição. “Em muitos momentos você tem a denúncia pela denúncia”, alegou, dizendo que as denúncias desgastam o governo, que tem de gastar sua energia em apurações “ao invés de estar produzindo para a população”. “É preciso sempre guardar o direito sagrado e constitucional de defesa de cada um acusado, para verificar qual é o resultado disso”, afirmou, como se estivesse imaculado.

Em depoimento a Comissão de Assuntos Sociais do Senado, respondendo à revista Istoé, Lupi negou que tenha feito intervenções na organização sindical brasileira ou no processo de registro de sindicados. Detalhe: a reportagem o acusou de ter ampliado a criação de sindicatos depois que o governo editou portaria que regulamenta a estrutura das centrais e do imposto sindical, e isso é fato comprovado.

O ministro também negou que tenha autorizado repasse de cerca de R$ 9 milhões do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) para entidades fantasmas. Ele alegou ter sido informado pela Polícia Federal de suspeitas nos repasses e, por esse motivo, determinou a suspensão da liberação de verbas.

“Pode ter erro, pode, mas dolo e má-fé, não. Se tiver, quero que sejam presos, porque quadrilha tem que estar na cadeia. Não temos conivência com ninguém que faz irregularidade, mas parte do dinheiro já tinha sido pago, eles já tinham recebido uma parte, por isso foi pedida a indisponibilidade de bens.”

Lupi disse estar “tranquilo” por ser o “próprio faxineiro” na pasta. “Na minha casa quem cuida da limpeza sou eu. Tenho muita tranquilidade para verificar que podem ter erros, podem. Todo mundo que trabalha erra. Só não erra quem não trabalha. Agora a gente quer agir com muita força em tudo que a gente puder verificar de qualquer irregularidade.”

***
CONHEÇA AS DENÚNCIAS CONTRA LUPI

O ministro Carlos Lupi na verdade está todo enrolado com as denúncias de fraude. Uma dela é o convênio com a Federação Interestadual dos Mototaxistas e Motoboys Autônomos (Fenamoto), sediada em Goiânia e dirigida por um político do PDT.

Uma reportagem de repórter Vinicius Sassine, do Correio Braziliense, mostra que foi incrível a insistência do ministro em beneficiar seis entidades ditas “sem fins lucrativos”, que estão sendo processadas na Justiça Federal de Brasília, sob acusação de favorecimento pelo Ministério do Trabalho, em convênios de R$ 12,2 milhões voltados à capacitação profissional.

Essas instituições, que apesar de processadas continuaram a receber dinheiro do ministério, foram alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF), que, em setembro do ano passado, por considerar que houve direcionamento na seleção dessas entidades, decidiu mover uma ação civil pública contra elas e a União, que repassa as verbas através do Ministério do Trabalho.

Na ação, o MPF pediu a interrupção imediata dos repasses — já tinham sido liberados R$ 9 milhões — e a devolução do dinheiro ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), fonte dos recursos utilizados pelo Ministério.

Mesmo assim, a pasta comandada por Carlos Lupi (presidente licenciado do PDT) continuou a beneficiar as entidades em novos convênios. O valor desses contratos, assinados depois do suposto favorecimento identificado pelo Ministério Público Federal, chegou a R$ 14,5 milhões.

Os seis convênios suspeitos fazem parte do Plano Setorial de Qualificação (Planseq) do Ministério e são voltados especificamente para a capacitação profissional de afrodescendentes. O Planseq é o mesmo programa que beneficiou a Federação Interestadual dos Mototaxistas e Motoboys Autônomos (Fenamoto). Presidida por um aliado político de Carlos Lupi, a Fenamoto firmou convênio de R$ 1,5 milhão para capacitar 2 mil motofretistas no DF.

Os convênios de Lupi se transformaram num Carnaval interestadual. Para qualificar pessoas negras em Minas Gerais, por exemplo, a Associação para Organização e Administração de Eventos, Educação e Capacitação, sediada em Sergipe, firmou um convênio de R$ 2,56 milhões com o Ministério, enquanto uma entidade de Goiás, a Fundação Pró-Cerrado, foi contratada para capacitar profissionais em Brasília.

O Instituto de Pesquisa, Desenvolvimento e Educação, do Distrito Federal, foi contratado para atuar em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Uma entidade de Minas Gerais, o Instituto Mineiro de Desenvolvimento, também foi beneficiada, com R$ 2,22 milhões, e voltou a receber dinheiro público depois da ação civil pública movida pelo MPF. Ainda são citadas na ação o Instituto de Qualidade de Vida, do Rio de Janeiro; e a Associação de Defesa do Meio Ambiente de Reimer, do Paraná. Todas elas, segundo o MPF, foram beneficiadas ilegalmente pelo Ministério.

O mais interessante, porém, é o caso dos motoboys. O Correio Braziliense revelou uma série de irregularidades na execução desse convênio, que praticamente não é fiscalizado pelo Ministério. E sua finalidade desperta atenção. Afinal, como é que se capacita um motoboy (que já entra no curso portando a Carteira Nacional de Habilitação)? Que tipo de curso é ministrado? Quais são as aulas?

Por gentileza, que alguém responda a essas perguntas, para que o ministro Carlos Lupi não caia definitivamente no ridículo, para dizermos o mínimo. Esse Carnaval que ele afirmou está acontecendo na imprensa, na verdade, ocorre justamente na passarela de seu Ministério, onde ele ainda desfila, fantasiado de bom administrador.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *