Lupi perdido

Sebastião Nery

ILHEUS (BA) – João Goulart tinha acabado de assumir a Presidência da Republica em setembro de 1961, depois da renúncia de Jânio. Estava exausto uma noite, no Palácio da Alvorada, chamou Raul Ryff, assessor de imprensa e fiel e silencioso amigo de uma vida inteira:

– “Vamos dar uma volta, Ryff. Estou cansado demais”. Pegou um fusca, saiu dirigindo pela estirada e adormecida solidão de Brasília. Deixou o eixo monumental, meteu-se pelas bordas das quadras, às margens do lago, nos caminhos de Taguatinga. O céu todo azul lá em cima e os dois ali, rodando, para aliviar a dura cangalha do poder.

De repente, param diante de um caminhão de faróis acesos, Estavam na contra-mão. Pôs o fusca sobre o meio-fio, deu passagem. O motorista parou bem junto a Jango:

– “O senhor podia me fazer um favor? Eu não sou daqui. Estou chegando de Pedra Azul, lá de Minas. Não conheço Brasília. Como é que eu faço para chegar à última quadra da Asa Norte?”

– “Desculpe, mas eu também não sei. Eu sou novo aqui”. E foi embora na noite, perdido no poder.

***
UM BILHETE

O ex-ministro Lupi tenta reassumir o comando do PDT. Como Jango, perdido.

Recebi bilhete e carta do presidente do PDT do Maranhão: – “Caro jornalista Sebastião Nery, eis uma carta que mostra nossa posição a respeito de nossa situação no PDT. Estamos enfrentando uma fase muito ruim no PDT, pois o partido foi distanciando-se de suas raízes, especialmente nos últimos anos. Agora tem seu presidente licenciado pela crise no Ministério do Trabalho, que resultou em sua demissão. Estou em vias de sofrer uma violência política. Resta-me despertar atenção à difícil questão do Maranhão, mantido periférico no esquecimento nacional pelo homem mais poderoso de nosso país, o senhor José Sarney. Papai (Jakson Lago) deu a sua vida pelo Maranhão. Foi um homem exemplar. Deixou para mim e minhas irmãs a honra e o orgulho da retidão de seu caráter – maior riqueza que um herdeiro possa ter. Agradeço, mais uma vez, vossa atenção. Abraço ao senhor com admiração e afeto, Igor Lago (presidente do PDT do Maranhão)”.

***
UMA CARTA

“Às companheiras e companheiros do PDT do Maranhão: 1. – Como presidente da Comissão Provisória de nosso partido, estamos aguardando o cumprimento do que foi acordado no último encontro entre membros de nosso partido maranhense, o presidente licenciado (ex-ministro Carlos Lupi) e o secretário geral nacional (Manoel Dias), em 21 de outubro em Fortaleza-CE, onde tivemos a oportunidade de apresentar aos dois os resultados de todo um trabalho feito “coletivamente” em prol do desenvolvimento de nosso partido.

2. – Temos plena consciência de que representamos os anseios de sua grande maioria por nos pautarmos pela correção, humildade e sensatez no trato das coisas partidárias que visaram a sua reorganização no Estado. Como ainda não houve a prorrogação de nossa Comissão Provisória pela Executiva Nacional, muitos companheiros e companheiras elaboraram uma carta que está sendo assinada desde a última sexta-feira, por nossos fundadores, militantes históricos, deputados e ex-deputados, prefeitos e ex-prefeitos, vereadores e ex-vereadores, secretários e ex-secretários e presidentes de comissões provisórias e diretórios.

3. – Temos imenso orgulho de estar sendo apoiado pelos fundadores de nosso partido, dentre eles o grande jornalista Neiva Moreira. Tudo o que queremos é que a Executiva Nacional considere a história de nosso partido e reconheça o desejo da maioria de seus membros, que é o de prorrogar a Comissão Provisória Estadual por 90 dias (sem excluir ninguém!) e marcar a realização de uma convenção para a escolha do Diretório Estadual.

4. – Assim, estaremos reforçando a nossa natureza democrática, o que é salutar para qualquer partido que pretenda lutar pela melhora de nossa democracia e realidade social. Igualmente, estaremos cumprindo com as boas práticas partidárias e dando a oportunidade àqueles que discordam da nossa condução formarem sua chapa e disputarem o Diretório.

5. – Estamos ciente de nosso dever, pois aceitamos um desafio não somente de reorganizar o partido, como o de colocá-lo à altura das exigências do momento. O nosso Estado perdeu a sua grande liderança popular que, antes de partir, orientou na formação da última comissão provisória para enfrentar os novos desafios após a cassação e a derrota eleitoral, numa eleição extremamente desigual e desfavorável.

6. – Queria o seu partido coeso e representativo com as suas principais lideranças no comando dessa etapa que se anunciava difícil e que estamos enfrentando sem a sua presença. O Maranhão precisa de um grande partido popular! Hoje, estamos órfãos de um líder à altura desse momento. Mas, se tivermos consideração e reconhecimento de nossos companheiros nacionais, não nos faltarão esforços no sentido de preencher esse vazio com um partido formado por valorosos companheiros e companheiras forjados na luta popular e democrática (e, não menos importante, com experiências administrativas diversas!), que lute por melhores condições de vida para a nossa gente”.

Igor Lago, do Diretório Nacional do PDT”.

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