Macunaíma enlouquecido

Sebastião Nery

Em 1979, para ajudar a campanha da heroína da anistia, a brava Terezinha Zerbini, fui a vários paises escrever para a “Isto É” sobre as dores do exílio brasileiro: “O Amargo Caviar do Exílio”. Convidado para a “Iª Conferencia Internacional Sobre o Exílio na America Latina”, em Caracas, com Jorge Amado e Ruth Escobar, desci às seis da manhã no aeroporto Bolívar, nesga de terra entre a montanha e o Atlantico.

Dois rapazes sonolentos carimbavam os passaportes. Não conferiam nada. Faziam sinal com a mão, todos iam passando. Minha maleta gorda, estufada, passou. Mas eu levava na mão revistas e um pacote de livros. Um rapaz moreno, bigodes pretos e olhos desconfiados, acordou de repente:

– O que é isso ai?

– Revistas do Brasil. (Eram “Veja”, “Isto É”, “Status”).

Folheou longamente a “Status”, olhando as curvas das moças nuas.

– E esse embrulho?

– Livros.

Meteu a mão no bolso, tirou um canivete, rasgou o pacote, foi abrindo os livros em cima do balcão: “Portugal, um Salto no Escuro”; “Socialismo com Liberdade”; “As 16 Derrotas que Abalaram o Brasil”.

– De quem são esses livros?

– Meus.

– Claro, senhor, eu sei que são seus. É muito cedo, estamos com pressa. Não vamos brincar. Pergunto os autores, quem escreveu.

– Eu. Eu mesmo. Não tenho cara de autor?

Levanta os olhos, arregala, me confere, devolve o pacote todo aberto:

– Não tem não.

Fui embora, sem cara de autor.

***
CORTAZAR

No hotel Hilton, encontro Julio Cortazar, gênio da literatura argentina exilado em Paris. Alto, 1,90 m, longos cabelos negros, olhos azuis no rosto muito branco e amassado, incrivelmente jovem, apesar de seus mais de 60 anos, um garotão com sorriso de menino. Mas as mãos pareciam de outro: velhas, enrugadas, veias grossas e pintas negras. Contei-lhe a historia do aeroporto. Contou outra. Chegando ao México, mostrou o passaporte.

– Profissão?

– Escritor.

– Sim, escritor. Mas, em que coisa o senhor trabalha?

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URARIQUERA

Macunaíma não é brasileiro, é venezuelano. Quem me ensinou foi o então embaixador do Brasil lá, Renato Prado Guimarães, jovem e competente.

Teodor Koch Grumberg, um alemão aventureiro que se meteu pela floresta amazônica no princípio do século, publicou em Berlim, em 1917, em cinco volumes, a história de suas viagens: “De Roraima ao Orinoco”. Recolheu lendas da região, inclusive a de “Urariquera” e suas peripécias. Nosso Mário de Andrade, culto e gênio, leu Grumberg, mudou “Urariquera” para “Macunaíma”, herói e retrato de nossos povos irmãos.

O brasileiro tem, com o venezuelano, uma marca hereditária fundamental: além de descendentes de europeus e negros, somos filhos de índios da planície, bem diferentes dos índios das montanhas. O índio amazônico não está preso às geleiras dos Andes, amarrado a caminhos ínvios. O indio amazônico é o índio livre, solto, nômade, da planície.

Isso distingue e diferencia brasileiros e venezuelanos dos outros povos da América andina. A jovialidade, a alegria, a musicalidade, a extrema facilidade de comunicação, uma abertura irresistível para o exterior, tudo isso são coisas muito nossas e deles, muito iguais.

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VENEZUELA

Baiano, jornalista, professor de Historia, conhecendo Europa, Americas do Norte e Sul, Cuba, meu filho voltou de um mês de ferias na America Central: Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Guatemala. Quis ver a posse do novo presidente de Honduras, foi barrado na fronteira:

– Brasileiro não entra aqui. Honduras rompeu relações com o Brasil.

Não houve conversa. Voou para Trinidad e Tobago (uma Bahia toda negra falando inglês). E uma semana em Caracas, o caldeirão de Macunaíma.
A Venezuela está dramaticamente dividida ao meio, à beira de um massacre, uma carnificina. Chavez tem a metade das televisões, a oposição a outra metade. Chavez passa dia e noite no ar, desafiando a oposição e pregando a “revolução bolivariana”. A oposição não sai do ar, dia e noite, xingando Chavez. As bancas de jornais têm mais de 25 diários e semanários. A metade é Chavez falando, a outra metade fala mal de Chavez.

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CHAVEZ

Chavez criou o “4 de Fevereiro”, “Dia da Dignidade Nacional”, do golpe que tentou há quase 20 anos, em 4 de fevereiro de 1992 e “dividiu a historia em duas”. Fez 13 anos de governo, diz que vai ficar mais 9, depois mais 8, para completar 30:

“Saibam os Manitos Blancas que começou a era bolivariana. À bala não nos tiram”.

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