Mais duas tragédias no trânsito: somos impotentes

Milton Corrêa da Costa

Mais duas tragédias, dentre as muitas que ocorrem rotineiramente na guerra do trânsito brasileiro se deram, no âmbito do Estado do Rio de Janeiro, na semana em que justamente se comemorava a Semana Nacional Educativa de Trânsito (18 a 25 de setembro).

Na primeira delas, um adolescente de 16 anos, que conduzia um Chevette em alta velocidade, perdeu o controle do veículo e colidiu contra uma van, matando um bebê de apenas seis meses – o segundo caso de morte de bebê no trânsito em menos de vinte dias no Rio- na noite de sexta-feira (23/09), na Zona Oeste da capital.

A menina estava sendo carregada pela mãe, num carrinho, na calçada da Rua Tunísia, próximo ao cruzamento com a Rua Marrocos, no bairro de Vila Kennedy. Depois de bater na van, o carro ainda colidiu num poste.

O motorista, que não tinha carteira de habilitação, fugiu do local e escapou de ser linchado por moradores, revoltados com o acidente. A mãe, uma mulher de 20 anos, fraturou as duas pernas. As vítimas foram socorridas por policiais militares do 14º BPM, em Bangu. O acidente ocorreu por volta das 19 horas.

No segundo caso, às 6,30 horas da manhã de sábado (24/09), na altura de Parada Modelo, na Rodovia Rio- Teresópolis, um acidente matou dois jovens, de 24 e 19 anos deixando ainda ferido, gravemente, mais dois. O veículo capotou e o velocímetro trancou a 175 km/h. Vejam o tamanho da imprudência e o desafio ao perigo.

Fica muito claro que o perfil do motorista brasileiro, em sua maioria, é de imprudência, desrespeito às leis de trânsito e acentuado grau de estresse e deseducação. Não há disciplina consciente no trânsito. É problema cultural e de carência de rigorosa punição. Precisamos frear o ímpeto dos imprudentes e assassinos em potencial do volante antes que sejamos a próxima vítima. Estudiosos do tema dizem que não basta educar. É preciso também vigiar e punir com rigor.

O trânsito é a principal causa de morte de jovens no país, numa faixa etária de 15 a 24 anos. Mais de 70% são do sexo masculino. Segundo a ONU, o Brasil é o quinto país em acidentes de trânsito no mundo. O trânsito brasileiro mata 2,5 vezes mais que nos Estados Unidos e 3,7 vezes mais que na Europa. Em média, 100 pessoas por dia perdem a vida na barbárie do trânsito brasileiro, que ceifa a vida de 36 mil/ano (quase a capacidade total do Estádio do Engenhão no Rio), sem falar nos que adquirem graves sequelas e permanecem nos leitos ou atrelados à cadeira de rodas o restante de sua existências.

Portanto, os acidentes de trajeto são uma grave e permanente doença social e até aqui fomos impotentes – permanecemos em estado letárgico – na tentativa de minimização do quadro de verdadeira barbárie. Apesar do advento da Lei Seca, muitos motoristas continuam bebendo e dirigindo. Matando, morrendo e mutilando, e as leis protegendo os homicidas do volante.

Até quando carros retorcidos, vítimas ensanguentadas, dor, sofrimento e impunidade continuarão fazendo parte do cotidiano do trânsito brasileiro? É o que os motoristas que cumprem as normas de trânsito desejam saber.

(Milton Corrêa da Costa é coronel da reserva da PM do Rio)

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