Mais médicos, menos pacientes, zero política

Eduardo Aquino

Palavra de um ex-médico: nessa confusa história da extrema-unção da saúde no Brasil, vale aquele antigo ditado: “Em casa em que falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão”. A pergunta então, seguindo esse raciocínio, é a seguinte: que “pão” é esse que falta na área da saúde? Seria o pão nosso de cada dia? Ou seja, médicos humanos, atenciosos, bem-formados por faculdades de primeira linha? Profissionais médicos que tenham realmente vocação, desprendimento, que dediquem tempo na escuta de seus pacientes? Ou centros bem-equipados, com funcionários preparados para lidar com o público, onde equipamentos possam complementar um exame clínico bem-conduzido?

Pergunto: num hospital, quem fica 24 horas com o paciente? Os enfermeiros e técnicos de enfermagem. Quem mais ouve um paciente, o médico ou um psicólogo? Quem mais partilha a recuperação de um paciente com AVC, o neurologista ou o fisioterapeuta? Somos um só time, e querer monopólio sobre o paciente é não ver que a sobrecarga que o médico tem deveria levá-lo a interagir com todos os profissionais e querer o melhor para o paciente. Buscar partilhar seus conhecimentos e aprender com outras profissões da saúde. Como então brigar pelo Ato Médico, que nos isola ainda mais da medicina e das outras 13 profissões da área da saúde?

Que tristeza ter visto nas galerias do Congresso uma batalha de classes e entidades médicas contra enfermagem, psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia e outras que na verdade são complementares e deveriam se dar as mãos e lembrar que, quando o corporativismo impera, quem é punido e perde é o paciente!

POLÍTICA E SAÚDE

Política e saúde são duas palavras que nunca combinarão. Onde há política, nunca haverá saúde! Pois política é partidária, significa que um partido briga com outro, um faz, e outro boicota ou desfaz. Política significa que verbas serão desviadas, ou mal-aplicadas, ou profissionais não serão escolhidos por mérito, e sim por indicação ou interesse. Médicos de gabinete nunca frequentam o inferno dos hospitais públicos ou periferias distantes.

Nós, maltratando os médicos estrangeiros, vaiando, boicotando, esquecemos que há muito nossa formação é péssima, a ponto de o Cremesp em São Paulo ter feito, ano passado, uma prova de proficiência: quase 60% perderam, e olha que eram diagnósticos básicos. Ora, no Estado mais evoluído, só quatro em cada dez médicos têm habilidade mínima para exercer a profissão! Mas todos recebem seu carimbo e vão para o mercado. E o dom, e a vocação? Na minha conta, só 30% são realmente médicos. Outros 30% esforçam-se muito. Mas 40% são técnicos em medicina, sem alma, sem talento, com visão mercantilista.

Nossa imagem está no pior momento junto à população e junto aos outros profissionais de saúde, e o governo atual, de forma esperta e desleal, está desviando seus imensos erros e conseguindo jogar a população contra os movimentos da classe médica. E tem conseguido: não é de hoje que piadinhas do tipo metade dos médicos acha que é Deus, a outra metade tem certeza.

RECICLAGEM

Por que não aproveitar o péssimo momento para reciclar? Fiscalizar as péssimas faculdades, obrigar um teste vocacional antes de entrar num curso de medicina, obrigar todo recém-formado a fazer o Revalida (e não dar o CRM até que passem)? Abrir o mercado para todo estrangeiro que passar no Revalida, ou ainda obrigar que residências sejam feitas nas periferias e nas cidades do interior, com professores que ganhariam um belo salário para, uma vez por semana, ir até tais localidades? Colocar, a partir do décimo período do curso médico, um estágio rural ou periférico para atender a atenção primária? Exigir consultas clínicas de, no mínimo, 30 a 40 minutos, e investir na relação médico-paciente?

E o essencial: colocar o estudo de neurociências no curso básico de medicina, pois somos seres em que corpo, cérebro, mente e alma são inseparáveis. Esse cartesianismo de pesquisar exaustivamente o físico, com exames complexos, é fazer uma medicina sintomatológica, americanizada, com baixa resolutividade. Afinal, em medicina, o que é normal é normalíssimo, o que é raro é raríssimo; nunca busque o raríssimo no comuníssimo, pois haverá exames demais, resultado de menos, despesas imensas e pacientes insatisfeitos. Lição de mestres da UFMG dos anos 70. De lá para cá, só piorou…

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