Mangabeira, o monge baiano

Sebastião Nery

SALVADOR – Otavio Mangabeira era governador da Bahia, o presidente Dutra visitou o Estado. Foram até Barreiras, lá no extremo norte, terra de Antonio Balbino e Vieira de Melo. A comitiva foi saudada pelo agente de Estatística e rábula famoso na região, José Mariano de Sousa.

O orador enumerou as últimas obras públicas que tinham sido inauguradas na cidade: o hospital, o serviço de água, o ginásio “e a nova cadeia, com amplos e confortáveis xadrezes”.

Mangabeira fechou a cara, não disse nada. Acabados os discursos, chamou Orlando de Carvalho, chefe político do Município:

– Seu Orlando, quando formos embora, mande demitir esse orador. Já estive preso várias vezes e nunca vi xadrez amplo e confortável. Esse cretino precisa aprender que não se elogia cadeia nem carcereiro.

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BRIGADEIRO

Chegou à casa do senador José Cândido Ferraz, da UDN do Piauí, encontrou na sala um grande retrato do brigadeiro Eduardo Gomes:

– Você ainda conserva este santo na redoma?

– Claro, doutor Otávio. É uma homenagem a um grande brasileiro e um gesto de gratidão pessoal.

– Ora, seu Zé Cândido, a homenagem eu compreendo. Mas gratidão política a gente guarda seis meses. E faz mais de quatro anos que ele perdeu pela segunda vez. Essa sua gratidão já está prescrita.

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FERRARI

Mangabeira estava na tribuna da Câmara Federal, pedem-lhe um aparte:

– Meu filho, seu nome?

– Fernando Ferrari, líder da bancada do PTB.

– Pobre país de líderes mal saídos das fraldas.

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LUIS VIANA

Uma quinta-feira à tarde, procuraram o deputado Luís Viana Filho no Palácio Tiradentes, a Camara Federal no Rio.

– Está no chá da Academia – disse Mangabeira.

– Doutor Otávio, ele não vai à Academia hoje, porque há reunião de Comissão aqui na Câmara, a que ele não pode faltar.

– O chá da Academia tem jeton. Pelo jeton, o Luís vai ao Méier a pé…

Luís Viana estava mesmo no chá (com jeton) da Academia.

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MANGABEIRA

Nunca teve uma casa, não tinha carro, nunca teve nada. No armário, três ternos. – “E bastam. Só visto um de cada vez”. Em Salvador, morava no Hotel da Bahia. No Rio, no Hotel Glória:

– Vou morrer imune à propriedade. Sou contra. Ela escraviza.

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FILINTO

Nas arruaças aéreas de Aragarças e Jacareacanga, a crise chegou ao Senado. Filinto Muller, líder do governo, denunciou “os conspiradores políticos, insufladores da desordem na Aeronáutica e inimigos da Pátria”.

Mangabeira pediu um aparte:

– Desafio que se levante o único dos representantes do povo nesta Casa que nunca tenha conspirado. Temos sido todos, aqui, uns mais outros menos, conspiradores, De mim, devo declarar que, ao longo de minha já longa vida pública, não tenho feito outra coisa.

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O MONGE

Exilado em 1930, o ex-chanceler Mangabeira encontrou na Bélgica um ex-chanceler da China já vivendo como monge. Mangabeira não se conformava com o exílio e estava surpreso com a tranquilidade do chinês:

– O que se faz quando se perde o poder e o direito de viver na sua terra?

– Rezar.

Quinze anos depois, Mangabeira voltou ao poder. O chinês, nunca.

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CAPANEMA

Ulisses Guimarães admirava muito Gustavo Capanema:

– Doutor Otávio, o senhor não acha que o Capanema é um dos homens mais inteligentes do país?

– Não acho não, Ulisses. O Capanema é muito talentoso, mas muito confuso. E não tem culpa. Repare a cabeça dele: tem três andares. Até a idéia descer lá de cima e chegar na boca, perde-se muito.

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MARIANI

Era governador, o banqueiro Clemente Mariani chegou ao Palácio:

– Pode mandar o cifrão entrar. Quando o Clemente entra aqui, vejo sempre um cifrão na minha frente.

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LUNA FREIRE

Na campanha eleitoral, o deputado Luna Freire recebia os cabos eleitorais no Hotel da Bahia para acertar a compra de votos. Um deles tocou a campainha do apartamento de Mangabeira procurando Luna Freire.

– O senhor está enganado. A baleia eleitoral está no andar de baixo.

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AGRIPINO

O secretario Ernesto de Assis chegou de manhã com os jornais

– Doutor Octavio, o João foi escolhido líder da UDN (na Camara).

– Que João, Assis?

– João Agripino.

– Agripino de quê, Assis?

– Agripino Filho.

– Filho de quem, Assis?

Mangabeira era um monge baiano.

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