Manuel Bandeira às vezes fazia versos como quem morre

Carlos Newton

Conheci Manuel Bandeira (1886/1968), moramos no mesmo prédio, o  famoso Edifício Zacatecas, onde vivo até hoje. Eu era um moleque e um dia roubei um passarinho dele, com gaiola e tudo. Meu pai logo me obrigou a devolver.

Ele tinha uma namorada francesa, que se vestia admiravelmente bem e andava com saltos altíssimos. Quando Bandeira saía, sempre de terno e gravata, quando chegava na rua ele tirava o lenço do bolso e ficava acenando para a namorada, que ficava na janela do décimo-segundo andar dando adeus a ele. Nós, os meninos, na nossa idiotice precoce, ríamos muito dessas cenas.

Bandeira era essa figura amorosa, mas podia também fazer versos carregados de desalento, como o poema que selecionamos hoje.

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DESENCANTO

Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

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