Mário Filho, Arnaldo Guinle, Roberto Marinho e o Maracanã

Pedro do Coutto

No espaço que brilhantemente ocupa na Folha de São Paulo, edição de sexta-feira 2, Ruy Castro referiu-se ao jornalista Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, nome do Maracanã, por iniciativa do deputado Jamil Haddad. Justa homenagem ao homem que, na imprensa, então proprietário do Jornal dos Sports, liderou em 48 a campanha pela construção do estádio para a Copa de 50, hoje em reforma para a Copa de 2014.

Criador da expressão Fla – Flu, a citação feita pelo escritor que alterna suas crônicas com as de Carlos Heitor Cony me conduziu a lembranças do passado, uma delas contada a mim pelo próprio Nelson Rodrigues. E como elas se entrelaçam no tempo.Mário Filho, autor de O Negro no Futebol Brasileiro, livro clássico de sociologia informal e profunda, trabalhava no Globo, onde era editor de esportes. Dirigia também O Globo Esportivo, um suplemento semanal. Isso na década de 30 para a de 40 quando comecei a assistir futebol.

Além de responsável  pela seção e pelo caderno, Mário Filho cobria o Fluminense, por iniciativa sua, e, nas Laranjeiras, tornou-se amigo do então presidente do clube, Arnaldo Guinle, família símbolo da aristrocacia da época. Certo dia Arnaldo Guinle convidou Mário Rodrigues Filho para almoçar na seda da Álvaro Chaves, e disse: Mário, voce precvisa ter um jornal, mas um jornal que trate apenas de esportes. “Não posso, respondeu, não tenho capital”.

“Daremos um jeito” – afirmou Arnaldo Guinle.  “Entretanto, sou amigo do Roberto Marinho. Para que ele não fique contrariado, antes vou falar com ele. O Rio precisa ter um jornal somente esportivo. Está faltando isso na cidade”.

E foi ao encontro do diretor proprietário de O Globo, então na Rua Bitencourt da Silva. “A ideia é muito boa” – respondeu Roberto Marinho. “De minha parte estou de acordo. Não fico contrariado pela saída de Mário Filho. Tanto assim que vou subscrever 20% das ações. Nascia o Jornal dos Sports. O JS, na Rua Tenente Possolo, decolou para o êxito. Surgia com ele o fascinante Fla-Flu, expressão sua, a campanha pela construção do Maracanã, os Jogos da Primavera, reunindo colégios e clubes. Foram um sucesso.

Mário Filho tornar-se-ia autor da Copa Rio Branco 32, que de dois em dois anos disputávamos no Uruguai. Em biênios alternados, a Copa Roca com a Argentina. Mário Filho era um analista dos mistérios e dos bastidores do futebol. Seu principal repórter Geraldo Romualdo da Silva, cuja coleção de textos merece ser reunida em  livro. Contém inclusive várias entrevistas importantes, como a de Domingos da Guia, maior zagueiro central de todos os tempos, que, ao encerrar a carreira, de volta ao Bangu, depois de brilhar no Flamengo e Corintians, afirmou que a bola, para ele, estava correndo demais. Disse isso em 47, ao não conseguir marcar bem o uruguaio Schiafino, então com 20 de idade. Três anos depois Schiafino faria o gol de empate contra nós, na tragédia de 50, ao receber um cruzamento de Gighia. O mesmo Gighia que decretaria minutos adiante a nossa derrota para o Uruguai. Eu estava na arquibancada.

Mas todos esses fatos que recordo chegam ao presente. Mário Filho dirigiu o Jornal dos Sports até 66, quando faleceu. A ideia, entretanto, de um jornal esportivo ficou. No Rio temos o Lance, de Valter Matos Júnior, jornal que nasceu de O Dia e depois tornou-se independente, continuando vôo próprio. Em alguns estados existem outros. Em cenário nacional, a SportTV, da família Roberto Marinho, que lidera amplamente a audiência da televisão a cabo, recentemente revelou o Ibope. Além da SportTV, há os canais ESPN, o Premier Combat, todos esportivos.

Estão aí hoje e rumam para o futuro, a meu ver a partir da ideia de Arnaldo Guinle que o talento de Mário Rodrigues Filho viabilizou. A SportTV, principalmente ela, deve realizar um programa em memória do jornalista que abriu um caminho e construiu um estádio com suas teclas e páginas. A Copa de 2014 seria uma grande oportunidade.

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