Matéria de Memória: Cony lembra JK, contemporâneo do futuro

Pedro do Coutto

Belo artigo, sem dúvida, o de Carlos Heitor Cony, Folha de São Paulo de quinta-feira 24, sobre Juscelino Kubitschek e a preocupação que sempre revelou pelo destino do Brasil, mesmo absurdamente cassado pela ditadura militar, forma de evitar as eleições diretas de 65, quando sua vitória nas urnas seria inevitável. Cony vai ao passado, o qual visita frequentemente, e relembra encontro que teve com o ex-presidente da República em Diamantina, 1974, quando, motivado por amigos, JK escreveu carta ao general Ernesto Geisel pedindo atenção para com a existência de diamantes na cidade onde nasceu.

Agora, 37 anos depois, a presidente Dilma Rousseff dá curso à iniciativa. Os diamantes são eternos, escreveu Ian Fleming, autor de James Bond. Foi a primeira carta de Juscelino a Geisel. Houve uma segunda, esta a respeito do xisto betuminoso de Santa Catarina. Ambas sequer receberam respostas. O poder militar fazia questão de lançar a imagem de JK na sombra do esquecimento. Era uma forma de destruí-lo e, ao mesmo tempo, absolver-se de sua cassação.

Não houve motivo algum, além do interesse de transferir o poder da legítima esfera partidária – o que não acontece hoje – para uma aliança entre o militarismo e a economia tecnocrática. JK foi obrigado a depor perante o coronel Ferdinando de Carvalho, no quartel da Polícia do Exército, no Rio, rua Barão de Mesquita. Vejam só. Era tempo de arbítrio.

Os juristas de sempre, como Francisco Campos, ministro  da Justiça da ditadura de Vargas, e Carlos Medeiros, davam falsa substância legal à ditadura ainda envergonhada, como a definiu Élio Gáspari. Assim como alguém que comete uma violação e se revolta cinicamente contra quem a denunciou. Mas, como em todas as alianças, surgem as divergências.

Ainda em 64, pouco após a suspensão dos direitos políticos de Juscelino, apareceram as contradições. A primeira colocando em confronto o governador Carlos Lacerda, principal figura do movimento de 31 de março, e o ministro Roberto Campos, na realidade o primeiro-ministro do governo presidencialista do general Castelo Branco. Carlos Lacerda queria ser candidato à presidência da República, pois nos bastidores havia influenciado o afastamento de JK do quadro político. Mas a política econômica de Roberto Campos, baseada no eterno símbolo conservador, redução de salários, era totalmente impopular. Lacerda temia essa impopularidade. E rompeu.

Com isso, a revolução de 64 registrou seu primeiro fracionamento. O segmento militar lutando para concentrar e se eternizar no poder, outro em deslocar o equilíbrio institucional para as urnas. Não havia mais o fantasma de JK. Lacerda e Campos, na realidade, eram sustentados e impulsionados por interesses internacionais. Na campanha contra a posse de JK, por exemplo, Lacerda ocupava diariamente o espaço noturno fixo na Rádio Globo. Era, sem dúvida, uma peça publicitária usando um ator extraordinário, mas antidemocrata.

Democrata Roberto Campos também não era. Sabia muito bem da impopularidade de seu esquema econômico social. Outras divisões vieram depois, a principal entre Costa e Silva e Castelo, o primeiro, ministro do Exército, arrebatando nos quartéis o poder do segundo.

Juscelino, contemporâneo do futuro, como definiu Paulo Pinheiro Chagas, morreria dois anos depois de 74, ainda durante a administração Geisel. Não lhe foram, na época, prestadas as homenagens que merecia. Em matéria de memória, título de romance de Cony, o remorso é um sentimento fortíssimo. Ninguém se livra do fantasma da  injustiça. O autor de algo infame nunca se livra de si mesmo.

O artigo de Cony me emocionou e remeteu ao passado. Com o desenvolvimento econômico, JK foi o único governante a tentar fixar um equilíbrio relativo entre o capital e o trabalho. Inclusive, como lembrou o leitor Flávio Bortolotto, legou ao país o maior salário mínimo da história: em 1959, aos preços de hoje, era de 1.707 reais. Os anos dourados deixaram saudade. Não voltam mais.

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