Matéria de memória: telegrama de Prestes (da prisão) a Vargas em 1942

Pedro do Coutto

A jornalista Cláudia Antunes publicou um belo artigo na Folha de São Paulo de quinta-feira 5 sobre memórias políticas do século 20, aproveitando a entrega, pela viúva de Luiz Carlos Prestes, Maria Prestes, do acervo do líder comunista ao Arquivo Nacional. Agiu bem. Foi a melhor forma de preservar e incorporar à história brasileira episódios intensos e dramáticos vividos pelo comandante da coluna revolucionária que atravessou o país na década de 20 e se elegeu senador pelo Rio em 1945.

Por uma coincidência do destino, Cláudia Antunes escreveu exatamente no espaço de Carlos Heitor Cony, autor do romance “Matéria da Memória”, título que uso neste artigo. Quanto à coluna rebelde, deve-se assinalar que ela não possui apenas uma figura central e sim duas: era a coluna Prestes-Miguel Costa.

Os documentos produzidos ou que envolveram a vida de Prestes são múltiplos. O Partido Comunista foi fundado no Brasil em 1922 por Astrogildo Pereira, um velho, alto, grisalho e magro professor, que conheci em 64 na redação do Correio da Manhã, pouco antes de sua morte Foi ele quem levou Prestes para o PCB, na sequência de seu exílio na Bolívia, 1924, fracassado o projeto de insurreição. Ingressou no final da década, e convidado por Oswaldo Aranha para integrar a revolução de 30, recusou. Achou o movimento conservador.Tão conservador que articulou, em Moscou, com apoio apenas de parentes de Stalin, o que terminou se chamando a intentona de 35. Novo fracasso.

Preso e condenado pelo Tribunal de Segurança, que funcionava na Av. Oswaldo Cruz, onde hoje está a Escola Municipal Barthes. Na capital russa, recebeu recursos e a indicação de três comunistas alemães para desencadearem a insurreição a seu lado: Artur Evert, Elise Evert, Olga Benário. Todos três alemães. Não é possível que em Moscou não houvesse um ativista soviético.

O apoio de Stalin está bem documentado no livro, “Olga”, de Fernando de Moraes, e também em relato de William Waak, publicado no antigo Jornal do Brasil. O governo de Hitler, através de Goebels, só pediu a extradição de Olga Benário, acusada da morte de dois guardas em Berlim, quando livrou de forma cinematográfica de um tribunal seu marido Oto Braun. Esqueceu Artur Evert e Elise Evert. Por qual motivo? Não se sabe.

Olga Benário estava grávida de Anita Leocádia, filha de Prestes. Vargas a entregou aos alemães da Gestapo. Olga morreu num campo de concentração. Ela viajou à força em 1936. Mas em 42, da prisão, Prestes envia telegrama a Getúlio Vargas apoiando sua decisão de declarar guerra à Alemanha Nazista, à Itália Fascista, além de ao Japão.

Anistiado em 45, libertado da Lemos de Brito, meses depois inicia-se a campanha eleitoral, tempo da redemocratização. Pouco antes de ser deposto em 29 de outubro, Vargas encontra-se com Prestes no estádio do Vasco da Gama, São Januário, onde se realizava um comício. Apertam-se as mãos. Em matéria de memória, espero que Maria Prestes tenha entregue ao Arquivo Nacional o telegrama de 42 e a foto do aperto de mãos em 45.

Prestes teve o mandato de senador cassado, num processo que começou em 47 e terminou em 48. Porque, de forma juvenil, aceitou uma provocação do senador Juraci Magalhães: se houvesse uma guerra entre o Brasil e a URSS de que lado ficaria? Prestes perdeu o prumo e o rumo: se fosse uma guerra justa, ao lado do Brasil. Ingenuamente desencadeou a tempestade sobre si e seu partido. O século 20 deixou muitos episódios na política brasileira. Na última entrevista que deu na vida, duas horas na Rádio Carioca, a Marcello Alencar e a mim, ele os relembrou.

Delicadamente, recusou-se a falar de Olga Benário e de Osvaldo Gioldi, apontado como delator da intentona de 35. Mas ficou assinalado que o atentado integralista (braço do nazismo no Brasil) a Vargas, 1938, Palácio Guanabara, foi muito mais grave que a investida comunista de 35.

O presidente Vargas esteve na iminência de morrer, não fosse a substituição, no comando da guarda, do tenente Julio Nascimento pelo capitão Kits. Este episódio fica, quando for oportuno, para um outro artigo.

O telegrama e a foto são fundamentais para a memória nacional.

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