Médicos cubanos – uma outra opinião

Paulo Timm

Meu amigo Jesualdo Correia, filólogo, orientalista, um pouco poeta, ensina-me sobre neologismos:

Petrichor… ou pluvisoloichor… ambos neologismos ( o primeiro inglês, o segundo português, recentissimos ) que significam o aroma que exala da terra com a chuva que advém após longo período de secura. Ichor (???? ) em grego antigo significava o aroma-nectar contido nas veias dos deuses e já em Homero encontra-se numa passagem do Ilíada. Mas o que realmente importa é a coisa em si (Kant que me desculpe a apropriação ôntica), o extasiante e revigorante incenso-aroma que exala fortemente das pedras, folhagens e da terra, imediatamente após o impacto da chuva sobre o solo, após a estiagem. Inebriante, revigorante, pratyakshico.

Ah! Que bom se pudéssemos atravessar os dias sempre embriagados com o néctar das ideias novas, palavras novas, situações inusitadas. O espanto. O encanto. Até a morte, como prova de como vivemos. E nós, em corpo, alma e espírito, reagindo à tudo isso. . Mas o quê…? Não somos apenas corpo e alma? Bem…Há controvérsias. Em algumas culturas o homem tem até sete partes constituintes. Em outras apenas uma, onde se funde inexoravelmente com a natureza.

Na tradição judaico-cristã, apenas corpo e alma embora com sinais trocados. Para os judeus a alma é imoral, o corpo conservador. Nós, cristãos, herdeiros do medievalismo, tememos mais a tentação do corpo do que da alma. E mesmo acreditando-nos feitos “a imagem e semelhança de Deus”, “em si” constituído como Pai, Filho e Espírito Santo, deixamos a terceira dimensão ôntica pelo caminho…

Uma pena! Pois é precisamente na dimensão do espírito que reside a esperança da redenção humana. Mas ainda guardamos do percurso uma expressão interessante: espírito crítico. E é com ele e não com os corpos e almas encharcados de interesses, preconceitos e ilusões que podemos apreciar o caso da vinda de médicos cubanos para exercerem suas funções em áreas carentes destes profissionais.

ERRO DO GOVERNO

O primeiro erro foi do Governo, que colocou uma proposta de solução para a falta de médicos no interior do Brasil, antes de uma prévia discussão do problema. Alguém já disse que uma das principais lacunas da razão é, simplesmente, a falta de jeito. Sabendo do peso da corporação dos médicos na sociedade brasileira o Governo deveria ter tido mais habilidade na proposição da “solução cubana”. Agora procura contornar a controvérsia criada com a vinda dos cubanos com o encaminhamento, junto à OMS, da possível vinda de médicos espanhóis e portugueses, os quais ficariam, por dois anos dispensados da revalidação de seus diplomas. Claro que, o que vale para Dom Pepe e o Senhor Manuel, valerá também para os cubanos.

A alma passionária da esquerda nacional, entretanto, não quer nem saber de tecnalidades. Se são cubanos, que venham A esquerda, sempre que lhe convém, tem um desprezo cabal às menudências legais. Ultimamente, então, generalizou-se um sentimentos de que a Justiça está a serviço do conservadorismo e até mesmo a judicialização da Política, que tem sido um instrumento importante à conquista de direitos sociais e de minorias, está na berlinda.

Eis aí o conflito do Corpo (corporativo) Médico com a Paixão, à espera de que o assunto da carência de médicos no interior, problematizado, seja capaz de ser politicamente encaminhado.

Não é o que estamos vendo. Pelo contrário. As posições estão se exaltando e , do jeito que vão se desenrolando, dificilmente o Governo conseguirá impor sua solução.

SEGUNDO ERRO

E aqui o segundo erro do governo: timing. Também decisivo à falência da “sua” razão. Como de qualquer outro, filósofo ou não, que pretende detê-la, não o tendo. Se a questão, trazida à borda do tempo como problema, deve ter uma solução, ela também, tem seus prazos. O tempo da sociedade, apesar do famoso slogan de JK -” Vamos fazer 50 anos em 5″ – é diferente do tempo dos mandatos políticos. A se ter de trazer médicos do exterior para regiões carentes, isto deve ser feito prevendo-se um período de aclimatação. Ao país, à língua, aos costumes, à Lei.

Neste período de adaptação, uma espécie de residência, a ser feita em Hospitais, obedecendo as regras hoje existentes para os demais residentes, os médicos do exterior poderiam receber um Alvará Provisório, até a aprovação em Exames de Revalidação de seus diplomas. Este Alvará, regulamentado por Lei Federal, com Prazo definido, deverá ser expedido pelos Conselhos de Medicina, afim de se evitar o confronto com a corporação. Este procedimento poderia, inclusive, levar à uma revisão da questão das Residências Médicas no Brasil, visivelmente mal pagas, insuficientes para uma verdadeira especialização médica, inconsistentes com o estatuto vigente dos estudos de Pós-graduação.

Quanto à paixão pela Revolução Cubana, pelas suas realizações no campo da medicina, pela vinda de médicos cubanos: Cuidado! Ela nem sempre é boa conselheira para ações que ultrapassam o campo da Política e invadem o da Administração Pública, toda cheia de regras, regulamentos e exigências. Não basta o ardor da causa para enfrentá-las. Melhor a prudência, que é o olho das virtudes. Nem adianta cantar em verso triste as mazelas da insuficiência da medicina no interior do país. Ela não se coaduna com as imagens de estádios luminosos recém inaugurados. É muito provável que as exigências de melhores serviços médicos em áreas carentes do Brasil dependam muito mais de prioridades governamentais do que da falta de recursos públicos. Ou de médicos.

Junto com tudo isso, o aplauso à vinda de mais estrangeiros à Terra da Promissão. Somos um povo que se orgulha de bem receber – e digerir – a todos que aqui chegam.

Bem-vindos ! Na forma da Lei, não como paliativo, sujeito a deixar, na sua saída o mesmo e eterno problema, mas dentro de um Programa de Consolidação do SUS no interior do país. (artigo enviado por Mário Assis)

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6 thoughts on “Médicos cubanos – uma outra opinião

  1. Ha uma miopia na saude.A saude nao e feita so de medicos onde ficam os outros profissionais da area.O inicio de solucao para a saude esta em os gov nas tres esferas elaborarem um plano de carreiras e dar condicoes plenas para que estes profissionais consigam dar um atendimento digno a populacao o resto e conversa fiada.

  2. Os argumentos não são suficientes. Apelam para um blá blá blá de malandros a serviço de gente do mal. Dizer que são bem intencionados é o minimo do ilusionismo do plano absurdo e inconsequente. Tratando-se de PT, não existe meio termo, além de bandidos, estão mais uma vez aplicando um golpe contra o Brasil, onde só a cúpula da “Organização” terá BENEFÍCIOS com essas “santas ações” misericordiosas e redentoras para “o povo necessitado”.
    É inaceitável a vinda desse pequeno exercito de esbirros como se fossem médicos no solo brasileiro. O PT está cumprindo acordos feitos no Foro de São Paulo, são metas estabelecidas para implantarem um regime anti-democrático. Lula é um estelionatário, assim como seu bando de foras da lei.

  3. A contratação de médicos para o interior não é coisa nova: milhares de prefeituras oferecem salários de 5 até 7 ou 8 mil reais para médicos que queiram trabalhar lá. Sem as mínimas condições de trabalho: nem instalações, nem instrumental, nem remédios. E, o que é pior: terminado o mandato do prefeito, vem outro, demite os médicos e nomeia seus apaniguados. É emprego para otário!!!

  4. Coisa para otário!!! Centenas de prefeituras do interior oferecem salários de até 7 ou 8 mil reais para médicos trabalharem lá. Sem as mínimas condições: nem instalações apropriadas, nem instrumental, nem pessoal auxiliar qualificado, nem remédios. Depois, vêm as eleições e um prefeito da oposição é eleito. Aí o médico é demitido e nomeado um apaniguado do novo prefeito. Só um imbecil aceitaria isso !!!

  5. A LEI. A SOCIEDADE. E O DIREITO DE ACESSO A SAUDE BASICA. Diariamente nos defrontamos com nossos PAs superlotados. O discurso medico é de que não ha condições materiais de atendimento a tamanha demanda. Falta medico e material de trabalho. Material – Alguns complexos como UTIs e outros simples como soro para crianças subnutridas. Mas enquanto crianças morrem por falta de soro, e a classe medica fica discutindo, ou faltando aos plantões de atendimento publico, crianças morrem por falta de atendimento. Mas aos que faltam, normalmente nos fins de semana ensolarado, são vistos passeando nas praias e se apresentam na segunda portando um lindo “ATESTADO MEDICO”. Isso acontece nas cidades lotoranias onde, os jornais televisivos, registram o caos da saude publica. E o que acontece no interior. No interior proximo, observamos o desfile de veiculos, adguiridos com recursos da saude, transportando milhares de trabalhdores e suas familias para uma consulta na capital, sem contar a manifestação de prefeituras que não ha medicos para preenche as vagas existentes. Nem nos municipios da região metropolitana. Somaa a essa tragedia existe ainda o fato que muitos dos ocupantes daqueles veiculos são acometidos de acidentes rodoviarios onde são ceifadas suas vidas em busca de um tratamento medico que lhes de maior longevidade. Isso é uma realidade que pode ser observada em qualquer capital estadual no pais. Não falaremos da qualidade sofrível de muitas escolas de formação profissional da área da saúde e da falta de compromisso com o juramento dos profissionais. Mas isso pode esperar, por que eu ainda consigo ser atendido! Essa é a leitura que se faz dos discursos dos conselhos que representam a classe. Que discutir como o faz com as denuncias dos desleixos dos seus. Nunca se teve noticia, dada a quantidade de impericias, de decisões com a celeridade e a presteza esperada pela sociedade. Enquanto se discute através das paginas dos jornais, continuamos a viver ao caus na saúde. Agora o discurso da falta de verbas acabou. Falta tirar os médicos da direção administrativa das instituições publicas, e coloca-los nos ambulatórios e salas de cirurgias. Quanto a iniciativa de autorizar médicos de outras nacionalidades a atender aos nossos, que muitas vezes morrem por falta de orientação para simples procedimentos, acredito que é uma iniciativa bem vinda. O simples olhar para a qualidade da saúde da região onde operam esses profissionais, é uma boa referencia da qualificação de suas escolas de formação. O reconhecimento dos governos de origem também são validos como o são para fazer valer o conteúdo de suas malas diplomáticas, por exemplo. Afinal, a medicina como qualquer ciência não é perfeita nem exata. Mas a falta de atendimento medico a qual a maioria dos brasileiro são submetidos, é um crime de extermínio que não poderemos ficar esperando a classe medica se sensibilizar. Se os profissionais importados evitarem que se morra de febre amarela, parto, desturbios gastrointestinais, será uma grande avanço para a saude brasileira.

  6. Que venham! Sem xenofobia, mas só após o REVALIDA.
    Do contrário estaremos oferecendo uma medicina precária aos brasileiros, apenas ajudando à classe médica, dessa ilha “paradisíaca”, a fugir do seu “Éden”.

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