Meireles, indiretamente, diz que PSD pode entrar no lugar do PDT

Pedro do Coutto

Na entrevista a Bernardo Melo Franco, Daniela Lima e Ricardo Baltazar, Folha de São Paulo de quarta-feira 9, o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meireles, disse que não será candidato a prefeito da cidade de São Paulo em 2012 e que defende o alinhamento de PSD, de Gilberto Kassab, com o governo Dilma Rousseff.

A foto que acompanha a matéria é de Zé Carlos Barretta. À afirmação de Meireles, que se inscreveu no PSD na última semana do prazo eleitoral (um ano antes das eleições) ganhou importância no momento em que, aparentemente, o PDT ameaçou romper com a presidente da República se demitir Carlos Lupi do Ministério do Trabalho.

A entrevista, coincidência ou não, saiu no momento certo. Pois a trajetória política está cheia de insubstituíveis. Não existem. Habitam apenas a mente dos deslumbrados e dos que pensam que o poder que eventualmente ocupam é eterno. Doce ilusão.

Os repórteres fizeram a Henrique Meireles a pergunta lógica: se não era para ser candidato a prefeito, por qual motivo inscreveu-se na legenda no fim do prazo legal? O ex-presidente do BC tentou desconversar. É possível, acho eu, que tivesse essa intenção, absolutamente normal e se deixado levar pelo convite de Gilberto Kassab, atual prefeito, que, reeleito, não pode ser candidato. Mas, depois talvez, tenha lido alguma pesquisa que o desanimou. Concluiu provavelmente que, em São Paulo, sua densidade eleitoral é baixa, ao contrário da que obteve, para deputado, nas urnas de Goiás em 2001.

Seja como for, o fato é que recuou. Do projeto eleitoral. Não do objetivo político. Pois se a desistência fosse em dose dupla, não teria colocado a hipótese, bastante viável, de o novo Partido Social Democrático vir a formar na base de sustentação parlamentar do executivo.

Oportuno o lance, ao qual não está certamente alheio o próprio Gilberto Kassab. Nem deveria, uma vez que a legenda vai disputar o próximo pleito municipal, mas para a sucessão de 2014 terá inevitavelmente de optar entre a coligação PT-PMDB ou a aliança oposicionista PSDB-DEM-PPS, atualmente bem frágil. O espaço disponível situa-se junto ao Palácio do Planalto, portanto ao lado do poder. Afinal de contas, três anos passam rápido. Será tempo de Copa do Mundo, de eleições para os governos dos estados e pela presidência da República.

De um lado, reeleição de Dilma Rousseff ou nova eleição de Lula. De outro apenas Aécio Neves, como ficou claro da primeira reunião do PSDB realizada no sinal da semana passada, no Rio de Janeiro. Mas esta é outra questão. O fato essencial é que a permanência de Carlos Lupi, principalmente em face de principal manchete da edição de O Globo de 9, tornou-se absolutamente insustentável. Sobretudo porque o quase ex-ministro, na hora em que escrevo, imprimiu a suas afirmações um tom de desafio desnecessário e sem sentido. Uma provocação como fosse ele o dono do posto e não o exercesse por escolha de Dilma Rousseff.

Esta, se ainda não o demitiu, demitirá sem a menor dúvida. Não tem outra alternativa. Se não acionar a caneta, terá por omissão, esvaziado seu próprio poder de governar. Aliás, por falar na reportagem de O Globo, nunca, na
história do Brasil, não só na República, mas também no Império, se viu um
comportamento igual por parte de um ministro. Carlos Lupi, de fato, ao
contrário do que afirmou, desistiu de lutar. Perdeu todas as condições política de permanecer. Pois simplesmente o absurdo de sua permanência seria o afundamento total do governo a que conseguiu integrar durante tanto tempo. Tempo demais, vale acrescentar.

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