Mensalão: a culpa é dos mortos e do caixa dois

Milton Corrêa da Costa

Até aqui, no julgamento da quadrilha do maior crime político da história-pátria, o denominado mensalão, que envolve, entre os acusados, políticos influentes do partido das vestais (PT), os únicos culpados, pelo visto, são os mortos, como um ex-vice-presidente do Banco Rural, além dos autores de crime de caixa dois, que já se consideram absolvidos pelo decurso de prazo (prescrição). Um crime, portanto, dentro da legalidade.

De fato, os tolos e otários como nós jamais terão a inteligência necessária para compreender a intrigada e inimaginável manobra da criminalidade econômica que beneficiava alguns espertos políticos.

mensalao

Na coluna de opinião de O Globo, na edição de quarta-feira, um jornalista econômico tenta explicar aos leitores o sofisticado emaranhado do ousado esquema denunciado como criminoso pelo Ministério Público.

Seria mais ou menos assim: um banco, em tratativas com o governo para uma concessão de que necessita, empresta uma vultosa quantia a um partido político, no caso o PT, com o argumento de que o citado partido, endividado, possa sanear suas contas. Nada demais. O empréstimo é feito através de uma agência de publicidade que tem negócios com o governo e que vai participar de licitações públicas e é indicada pelo governo para receber o empréstimo. Nada demais. Depois alguns empregados, do empresário-mor, fazem saques escamoteados de altas somas em dinheiro do banco para serem entregues a alguns políticos (espertos) que se beneficiarão do dinheiro ilícito e ainda repassarão parte dele a políticos de outros partidos para que votem com o governo nos projetos de seu interesse. Um samba do crioulo doido.Um crime quase perfeito não fosse o ex-deputado Roberto Jefferson ‘jogar no ventilador’ para não ser a palmatória do mundo.

Entenderam? O esquema ardiloso é de tão difícil compreensão que a estudiosa ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, para poder conhecer em profundidade e ter base na análise julgamental, para condenar ou absolver, precisou contar com a ajuda do juiz federal Sérgio Moro, especialista e estudioso em julgamento de crimes de lavagem de dinheiro e considerado um magistrado rigoroso em suas sentenças.

Não demora muito, o esquema é tão bem feito para não deixar rastros, não será nenhuma surpresa se o próprio procurador-geral da república, Roberto Gurgel que ofereceu a denúncia, em nome da decência na coisa pública, passar a ser réu de crimes de infâmia, injúria, danos morais além de crime contra a honra de alguns mensaleiros.

Vergonha nacional. Imaginem se até aqui nada fosse denunciado e de nada soubéssemos do ardiloso esquema? Com toda certeza o país já estaria na bancarrota, devido à corrpução do partido que pregava a ética e a decência e que por muito menos foi às ruas, com a bandeira da moralidade, para o impeachment do ex-presidente Collor.

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JUSTIÇA SOCIAL?

Alguns dos réus do mensalão são os mesmos, inclusive, que aderiram à luta armada em nome da causa marxista-leninista, sob a bandeira da justiça social, pelo estado máximo e capitalismo mínimo, da inexistência da estratificação de classes sociais, do fim da propriedade privada, da espoliação agrária etc, etc. Ocorre que o poder da grana, da vantagem ilícita e da fraqueza moral muitas vezes fala mais alto. E no caso do mensalão há todas as evidências de crimes de peculato, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva.

O que mais desencoraja é a possibilidade impar do resultado do julgamento decepcionar o povo brasileiro. A aposta é de um ex-ministro do STF: “Para a frustração ser menor, é preciso avisar à população que os réus do mensalão serão condenados, mas ninguém vai ser preso”, disse o ministro aposentado.

Num país de lei mais duras e menos misericordiosas, alguns dos mensaleiros talvez já saíssem do tribunal algemados e encapuzados e direto para o pelotão de fuzilamento por cometerem gravíssimo crime de lesa-pátria. No Brasil, no entanto, ao que tudo indica continuaremos, por muito tempo, com a bunda na janela para que passem a mão nela.

Saudades do Gonzaguinha. O que esperar das futuras gerações com tantos episódios de mau exemplo no alto poder? Somos o país onde o ex-presidente da república nada sabia sobre o mensalão, depois declarou tratar-se de uma farsa, depois se considerou traído pelos companheiros, depois tentou adiar o julgamento ardilosamente (a imprensa denunciou) e que agora diz que tem coisas mais importantes a fazer do que assistir ao julgamento do mensalão.

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