Mensalão no STF: a prova de que poder e dinheiro alucinam

Pedro do Coutto

O escândalo do Mensalão, que explodiu em 2005 e cujo julgamento vai se iniciar agora, agosto de 2012, é mais uma prova ao longo da história política do efeito alucinógeno que o poder e o dinheiro exercem sobre alguns tipos de seres humanos. Os que, por impulsos diversos, se dispõem a atravessar o abismo entre os dois lados, perdem a noção de limites, são movidos por delírios de grandeza e até de onipotência. Assim cometem os maiores desatinos.

O esquema montado no primeiro governo Lula é um exemplo. A atuação desenvolta de PC Farias, no curto período de Fernando Collor, outro. A mais que excessiva centralização de poder a que recorreu Jânio Quadros, mais um da série. A disparada dos sindicatos na administração João Goulart acrescenta-se ao processo a que me refiro. As lideranças trabalhistas estavam no governo. Mas agiam como se fossem da oposição. Queriam mais poder, mais espaço. O poder e a moeda, que tem sempre duas faces, são insaciáveis. Deslumbram.

E quando os deslumbrados atingem um patamar, logo em seguida partem em busca de degraus mais altos. Mas há um limite para tudo. Uma questão de sensibilidade, de prática, de visão. Não de ilusão.

Os economistas costumam classificar os erros administrativos em duas escalas: os de concepção e os de execução. O Mensalão foi um desastre duplo. Afinal a que se destinavam originalmente os subornos? À garantia de uma condição plenamente majoritária no Congresso. Não havia necessidade alguma de Mensalão para isso. Um problema de representação partidária.

O governo Dilma Rousseff não proporcionou condições mínimas para qualquer mensalão e alcança plena maioria parlamentar. Este o ângulo da concepção. Quem concebeu tal coisa era um absoluto idiota. Não identificou a desnecessidade. Quanto à execução, quem montou a engrenagem torpe era mais burro ainda. Não há expressão melhor para definir as articulações.

Era mais que evidente que suborno generalizado escaparia de qualquer controle. Dispara o esquema. Cada um quer receber cada vez mais que o outro. E todos ficam sabendo, sobretudo os que se recusaram a colocar-se à venda. Afinal de contas, nem tudo na vida se resolve à base do dinheiro. Há outros valores que resistem à sedução rasteira de interesses ilegítimos.

Se as combinações entre o poder público e as empresas particulares aparecem, como nos casos de Maluf, Cachoeira, Cavendish, Demóstenes Torres, imagine-se um balcão aberto de compra de apoios políticos, um supermercado de votos parlamentares. Algo impossível de ocultar. Tudo o que aconteceu depois provou a falta de necessidade absoluta. Lula, eleito em 2002 por 62 a 38 pontos, reelegeu-se em 2006 por 61 a 39%. Mais quatro anos, deixou o Planalto com apoio total da opinião pública. Tanto assim que assegurou a vitória a Dilma Rousseff por 56 a 44. Para que Mensalão?

Porém, há pessoas que perdem a noção do limite. Especialmente no plano político, em que a linha que separa a realidade da fantasia nem sempre é nítida. Ao longo de 58 anos no jornalismo, desde o tempo do Correio da Manhã, assisti a rematados absurdos cometidos até por pessoas geniais. Por isso, eram supervalorizadas e também se supervalorizavam no espelho do narcisismo. Jânio Quadros foi um, ao renunciar em 61 para que o povo o levasse de volta ao poder. Carlos Lacerda outro. Candidato à presidência da República lançado pela UDN, em 65 voltou-se contra a posse de Negrão de Lima na Guanabara e, com isso, entregou o poder a Costa e Silva. Sua candidatura acabou ali.

Claro que José Dirceu não pode ser comparado a Jânio e Lacerda. Mas, não fosse o Mensalão, teria sido eleito presidente da República em 2010. Dilma Rousseff permaneceria no Ministério de Minas e Energia. Coisas da política. Talvez do destino.

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