Mercadante assume, de fato, o cargo de primeiro-ministro

Mercadante deu entrevista defendendo seu próprio governo

Pedro do Coutto

Em entrevista a Valdo Cruz, Natuza Nery e Marina Dias, Folha de São Paulo, edição de domingo, o chefe da Casa Civil Aloizio Mercadante assumiu de fato o cargo de primeiro-ministro do governo Dilma Rousseff. Ao reconhecer erros na condução da economia e defender as posições de Joaquim Levy e Michel Temer, agiu claramente como um chefe de governo num regime parlamentarista. Chegou a afirmar que o Executivo precisa de tempo para resolver a crise e reconheceu que a gestão de Dilma Rousseff foi além do que podia na política anticíclica. O que é política anticíclica?

Na opinião de Aloizio Mercadante, é aquela que foi adotada no primeiro mandato da atual presidente da república para conter os efeitos negativos de uma retração econômica mundial cujos reflexos se fizeram sentir no Brasil. Nesse ponto, o chefe da Casa Civil critica diretamente a desoneração de impostos no esforço, segundo ele, de manter os investimentos e também os gastos públicos.

Como se vê, Mercadante praticou uma autocrítica na medida em que destacou o que ele considera equívocos da administração da qual fez parte de 2011 a janeiro de 2015 e continua integrando agora no Palácio do Planalto. “Isso – acrescentou – impactou muito as finanças públicas. Fomos além do que podíamos”, recorrendo ao plural, o que dá ensejo a supor que ele se inclui, pela linguagem exposta no esquema do exercício do poder.

PÓLO DESENVOLVIMENTISTA

O ministro admitiu  que existe um debate entre os ministro Joaquim Levy e Nelson Barbosa. Para suavizar a frase,acrescentou outra em sequência: no governo de FHC, talvez o polo desenvolvimentista tenha ficado muito minoritário. A sabedoria é equilibrar. Portanto, referiu-se diretamente a uma posição que atribuiu a Dilma Rousseff no sentido de estabilizar o debate entre os titulares da Fazenda e do Planejamento.

Diante da pergunta de Valdo Cruz, Natuza Nery e Marina Dias sobre o fato do mercado econômico temer a queda de Joaquim Levy, Mercadante afirmou: a presidente deixou claro que Levy faz parte do time e tem dado imensa contribuição. Cuida das finanças com o mesmo rigor com que cuida de suas filhas. A comparação, a meu ver, encontra-se fora do contexto, já que uma coisa é a vida familiar outra a administração pública.

Na administração pública, há que harmonizar fortes divergências impulsionadas pela força natural dos interesses que se voltam constantemente para direções diversas. Por isso é que governar é uma tarefa extremamente difícil e requer uma unidade de ação em torno de objetivos comuns e claros, sobretudo voltados para os interesses do país.

IMPOSTOS PROVISÓRIOS

Mercadante defendeu ainda, na linha assumida por Joaquim Levy a necessidade de aumentar impostos provisoriamente. Mas todos nós sabemos que imposto provisório tende a se tornar permanente, basta lembrar que a CPMF, instituída em 96 somente foi abolida em 2006, durou assim uma década.

O chefe da Casa Civil, assumindo simultaneamente, além da posição econômica também uma posição política, defendeu a afirmação de Michel Temer de que o governo não suporta três anos com uma popularidade tão baixa como na qual se encontra. Foi uma frase fora de seu contexto, disse Mercadante.

Relativamente à iniciativa de Fernando Henrique Cardoso sugerir a renúncia de Dilma Rousseff, o chefe da Casa Civil assumiu um roteiro escapista, afirmando que o ex-presidente não foi bem compreendido. E surpreendentemente disse que tanto Michel Temer quanto FHC são pessoas importantes na crise para manter a governabilidade através da interlocução que por sua vez leva a um clima de estabilidade de que o país precisa. E completou: “FHC afirmou não ser hora de dialogar. Mas isso passa rápido. Pela história dele (FHC) acho que voltaremos a dialogar”.

O ministro-chefe da Casa Civil, ao assumir sua nova posição fixou, para citar a atual novela da globo, a regra do jogo. A regra do jogo segundo sua interpretação.00

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