Metas impossíveis de alcançar

Carlos Chagas

A presidente Dilma reúne pela primeira vez o ministério, na parte da tarde. Depois de encontros setoriais preparatórios, no fim de semana, e sob a proibição de cada ministro dizer o que fez em 2011, a proposta é para todos apresentarem o que pretendem fazer, em 2012. Pelo jeito, broncas homéricas foram distribuídas em todas as direções, de acordo com o tradicional espírito da chefe do governo.

Hoje seria para uma espécie de injeção de ânimo, dolorosa e ardida, mas destinada a despertar esperanças na opinião pública. Quem sabe um PAC-3, ou, pelo menos, a definição do que precisa ser completado no PAC-1 e no PAC-2. O difícil, nessa história, é acoplar o que o governo imagina como necessário, claro que alinhando muita coisa essencial, e aquilo que a população reivindicaria, se pudesse.

Metas inalcançáveis. A primeira delas seria uma revolução completa no sistema de saúde pública, de forma ao país dispor de hospitais e postos de saúde eficientes e em número suficiente, com médicos recebendo salários dignos e pessoal auxiliar competente para atender as carências da imensa maioria incapaz de arcar com despesas de qualquer espécie.

Sem esquecer a imediata intervenção nos planos de saúde, que deveriam servir à classe média mas transformaram-se em verdadeiras arapucas destinadas a enriquecer vigaristas sem prestar um mínimo de atendimento compatível com as necessidades de quantos pagam muito para receber pouco.

Refere-se aos transportes públicos outra reivindicação que 200 milhões de brasileiros apontariam, caso realizada inviável consulta a respeito. Em vez da ilusão criada pela propaganda das montadoras em torno de carros zero quilômetro, sumidouro da poupança dos ingênuos e embaraço permanente ao tráfego nas cidades, por que não direcionar recursos e obrigar as fábricas a produzir veículos coletivos de qualidade, ônibus, composições de metrô e trens? Claro que com a contrapartida de rodovias e ferrovias em número e qualidade suficientes para atender a demanda global, jamais para servir a minorias tão privilegiadas quanto iludidas.

Uma passagem crítica pelos aeroportos insuficientes e os abomináveis serviços das empresas aéreas constituiria complemento obrigatório. No rol das propostas que o povo faria e o governo não fará, inclui-se a extirpação integral da prevalência de interesses partidários escusos sobre a administração da coisa pública.

Traduzindo: por que retaliar governos municipais, estaduais e federal por partidos políticos, tornados proprietários de ministérios, secretarias e empresas estatais? A solução seria desvincular votos parlamentares e ação governamental. Punir sem complacência corruptos e corruptores por práticas de tráfico de influência, superfaturamento de obras e serviços, distribuição de comissões e propinas às custas de recursos públicos e de eficiência administrativa, assim como a nomeação de incompetentes.

De tabela, agilizar o Poder Judiciário, passando o rodo em suas mazelas. Cobrar do Poder Legislativo um mínimo de trabalho e de eficiência, com o automático, legítimo e legal desligamento de quantos não cumprissem suas obrigações. Tudo dentro de um regime de liberdade e democracia sem adjetivações nem condicionantes, tendo em vista ser o totalitarismo a mais ampla e direta avenida para a desagregação das instituições.

Firmeza, até rude, sempre constituiu o contraponto da licenciosidade. Vale a constatação para determinados aspectos da comunicação social, já que modernidade nada tem a ver com a dissolução dos costumes. A grande maioria do eleitorado, se consultada, repudiaria programações que ainda não deixaram de ser concessões do serviço público, hoje transformadas em chamariz para faturamento a qualquer título.

Em suma, aguarda-se hoje as propostas do governo para o ano em curso, sabendo-se que só por milagre elas se aproximarão da totalidade dos reais anseios da sociedade, na hipótese de um dia ela ser consultada.

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A REFORMA NÃO PAROU

Tomando-se como provável que não tenha caído mais nenhum ministro, de ontem para hoje, nem por isso deverá dar-se por completada a reforma do ministério. Titulares de pastas poderão ser atingidos nos próximos meses, de acordo com o grau de sua incapacidade ou de malfeitos descobertos ou por descobrir. Se algum dia imaginou, a presidente Dilma acabou optando por não balançar a canoa, que nem por isso iria virar. Mas preferiu mudanças apenas pontuais, sem aquela limpeza que muitos chegaram a prever para este começo de ano.

Não estão livres de ser dispensados a conta-gotas ministros daqueles que raras vezes, ou nunca, entraram para despachos isolados no gabinete da chefe do governo. É bom aguardar, sem esquecer que os resultados das eleições municipais de outubro poderão desarrumar parte do quadro partidário.

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