Meu partido é o coração partido

Lucas Alvares

Em uma noite de junho, duzentas poltronas do velho Cine Jóia, em Copacabana, pegaram fogo em um debate sobre a ocupação do antigo Museu do Índio por nativos urbanizados. O cineasta Silvio Da-Rin, diretor do premiado documentário “Paralelo 10”, que trata das etnias indígenas alheias ao homem branco, se equilibrava para defender a política indigenista do governo Dilma o qual, naturalmente, o financia como artista via estatais e cujo partido o sustentou na Secretaria do Audiovisual do MinC entre 2008 e 2010.
Era junho também, mas de 2012. Da-Rin, em seus salamaleques à Funai, terminou o debate que sucedeu a exibição de seu filme encurralado por índios de bermuda e camiseta, alguns deles mestrandos e doutorandos do Museu Nacional – tão empoderados intelectualmente quanto qualquer acadêmico – e obrigado a engolir metade de seus argumentos, que relativizavam o morticínio indígena nas regiões norte e centro-oeste em disputas pela terra com latifundiários, produtores ou não, em um sofisticado extermínio que corre às vistas do governo federal.
Naquela noite, foi denunciada por índios da Aldeia Maracanã a “venda do Museu do Índio” para a construção de um estacionamento, que já estaria “apalavrada” pelo governador Sérgio Cabral. Sem mais detalhes, ali se iniciou uma das maiores mobilizações que as lutas sociais conheceram no Rio de Janeiro: o tombamento do prédio do museu, semi-abandonado pelo poder público há décadas, e a posterior categorização como Patrimônio Imaterial da ocupação urbana que o sucedeu, instalada ali em 2006. Luta esta, diga-se de passagem, parcialmente bem sucedida e que contribuiu para a reunificação de movimentos antes dispersos que optaram pela ação organizada e objetiva, em prol de duas causas comuns.
MOBILIZAÇÃO SEM CAUSA
São os moldes desta luta que devem permear cada ação do tecido social: não deve haver mobilização sem causa. Não há espaço permanente para vozes sem donos. Em um dia histórico, em que todo o Brasil saúda a ida de 500 mil às avenidas e a resposta direcionada aos rigores policiais da semana passada, é ponto a se pensar: o que vai ser quando a massa se dispersar?
É preciso capturar novas lideranças e bandeiras mais palpáveis, distantes do irrealismo de um transporte público integralmente subvencionado – alguém duvida que pagaríamos duas vezes por ele? – nos moldes da atual licitação, recentemente celebrada, e que contém uma infinidade de indícios de irregularidades, como uma empresa excluída dos consórcios por seus maus serviços e que se inscreveu no processo licitatório com a razão social “virada ao contrário”.
As sucessivas apresentações de oradores nas últimas passeatas, muitos deles líderes do movimento estudantil desde meus tempos de ensino fundamental, companheiros de lutas fundamentais como a do passe livre para os estudantes da educação pública, têm se mostrado insuficientes. A grande marcha do “coração partido”, que de tudo reclama, clama mesmo é por um líder, uma voz.
Apartidárias, causas niilistas são capazes de colocar a ordem por terra, mas só a tomada de partido – ainda que não meramente institucional, partidária – é capaz de transformar a queda do “tudo que está aí” em uma verdadeira renovação.
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8 thoughts on “Meu partido é o coração partido

  1. 7 / 18

    Cordão de segurança

    Danilo Ramos. RBA

    São Paulo – “Isso dos vinte centavos foi só para enganar o povo”, acredita Ana Martins, de 20 anos, estudante de Arquitetura. “É muito fácil baixar esses vinte centavos, e aí volta todo mundo para casa. A gente quer mais saúde, educação e menos Copa.” Essa é apenas uma das dezenas de exigências que puderam ser vistas e ouvidas ontem (20) na Avenida Paulista, em São Paulo, durante a passeata que pretendia comemorar a redução da tarifa do transporte público na cidade, anunciada na última quarta-feira. A mobilização, que começou a ser puxada no dia 6 de junho pelo Movimento Passe Livre (MPL), movimentos sociais e partidos de esquerda, massificou-se no começo desta semana e ganhou cores que destoam totalmente das organizações que conduziram o processo.

    Temas como combate à corrupção, fim dos impostos, insígnias antipartidárias e críticas à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 37, que limita o poder de investigação do Ministério Público, tiveram bastante apelo entre a massa. Também foi possível ver uma série de cartazes contra os gastos públicos com a Copa das Confederações e a Copa do Mundo, que beiram os R$ 30 bilhões, e críticas à má qualidade do sistema de saúde e educação no país. A presidenta Dilma Rousseff (PT) também se tornou alvo dos ataques proferidos por faixas e cartazes. Uma jovem que puxava um bloco com o uso de um megafone pedia que as pessoas fossem à rua “contra o governo”, mas não sabia especificar contra qual administração estava protestando. “Não, a gente não é anarquista. A gente é contra esse governo. Todos os governos corruptos, esses governos que aumentam a passagem do ônibus, que roubam, são corruptos.”

    O próprio Movimento Passe Livre (MPL) – organizador dos atos que resultaram na revogação do aumento da passagem de ônibus, trem e metrô na cidade – havia manifestado na manhã de ontem receio de que setores mais conservadores da sociedade tentassem se apropriar das manifestações. Depois da quinta-feira (13), quando houve repressão policial às passeatas de São Paulo e Rio de Janeiro, marchas passaram a ser realizadas em todo o país, mas aos poucos foram surgindo bandeiras e grupos mais heterogêneos, que não tinham a qualidade do transporte público como prioridade.

    A mudança na composição do protesto foi tamanha que a mais recente manifestação na Avenida Paulista contou inclusive com a presença de um tucano: o ex-deputado estadual Milton Flávio. Na primeira semana de mobilizações, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e seus aliados se posicionavam radicalmente contra o movimento pela redução, tendo sido o responsável direto pelo endurecimento da PM. “O movimento acabou permitindo que outras insatisfações viessem à tona: contra a corrupção, contra a péssima qualidade dos serviços públicos em função dos impostos altos que pagamos e a opção incorreta de dar circo pra população, fazendo Copa das Confederações, Copa do Mundo e as Olimpíadas, quando o país tem outros desafios a enfrentar”, avaliou o ex-parlamentar. “Essa insatisfação se faz presente.”

    A estudante Tatyana Cardoso segurava uma bandeira com alguns pedidos: investigação dos gastos públicos na Copa do Mundo de 2014, saída de Renan Calheiros da presidência do Senado, endurecimento da punição a políticos envolvidos em corrupção e não votação da PEC 37 – que demonstrou não saber ao certo de que se trata. “Não sabia até ontem, mas fui me informar. Querem tirar o direito da justiça de investigar.” Outro jovem que não quis se identificar e usava uma máscara do personagem do quadrinhos V de Vingança também protestava contra a PEC 37 sem ter muita certeza do que se tratava. “Para ser bem sincero, tem uns amigos meus que dizem que não é todo esse mal que estão falando por aí”, disse. “Não tenho conhecimento pra julgar. Escrevi aqui no meu cartaz e vou pesquisar mais sobre o assunto pra ter uma opinião formada.”

    Enquanto bandeiras de partidos políticos de esquerda, sindicatos e movimentos sociais eram arrancadas das mãos de militantes e até queimadas, sob urros de alegria da multidão, skinheads passeavam à vontade com a bandeira do estado de São Paulo. Demonstrações do tipo fizeram com que o estudante Luis Felipe Almeida afirmasse que é preciso tomar cuidado para não transformar uma vitória progressista em um avanço conservador. “O que unifica a gente aqui é uma crítica ao neonacionalismo que surgiu nos últimos atos. Há 20 dias ninguém amava o Brasil tanto assim”.

    Mas houve exceções. O bloco encabeçado pelo Passe Livre não foi majoritário, mas manteve o foco na discussão sobre o transporte público de qualidade e com tarifa zero. “Dá para perceber que existem setores conservadores tentando cooptar o movimento”, concluiu o militante do MPL Pedro Brandão, 28 anos. “A pauta da corrupção, que é uma pauta etérea, está sendo colocada como pauta do movimento. Mas a pauta do MPL é o transporte. Lutar pelo transporte é enfrentar uma máfia que existe na cidade, que impede as pessoas de se locomover. O MPL vai continuar enfrentando isso.”

    Um pequeno grupo de punks e anarquistas marchou de cara fechada e sem a alegria como os jovens de cara-pintada, porque – lembravam – a polícia continua matando pobre todos os dias. “Quem está acompanhando o movimento desde o começo sabe que é um movimento pela esquerda”, defendeu William José Sega, de 21 anos, que carregava uma bandeira vermelha e preta. “O MPL tem uma tradição de caminhar pela esquerda, uma tradição anticapitalista. Assistir isso que vem acontecendo hoje é temerário. Sim, temos um avanço, uma vitória. Colocamos as pessoas massivamente nas ruas. Porém, com qual discurso? É a prova concreta de quem está vindo pra cima, e muito bem organizado: é a direita.”

    De acordo com Pablo Capilé, fundador da rede de coletivos culturais Fora do Eixo, responsável por diversas manifestações de rua desde o ano passado e pelo “Existe amor em SP”, a multiplicidade de pautas, algumas conflitantes com outras, representa um aprendizado. “A celebração do povo na rua é uma delícia”, opina. “Cria o hábito de estar na rua para aprofundar os debates. Aqui temos um baile de posicionamentos, todos entendendo juntos o que está acontecendo.”

  2. Causa boa e justa é exatamente o que não está faltando,hoje, no Brasil, a menos que A Mega-Solução, A Revolução Pacífica do Leão (RPL-PNBC-ME), que propõe o Projeto Novo e Alternativo de Nação e de Política-partidária-eleitoral não seja uma boa causa, que para o Leão é a grande causa da sua vida, como declarado no livro ” O Mapa da Mina”. Trata-se de uma Revolução genuinamente brasileira, com começo, meio e fim. Mas a midia luso-tupiniquim, face à maldita cultura colonialista, deseja algo parecido com a “Primavera Arabe”, ou coisa do gênero, que nada tem a ver com a nossa realidade. Aliás, para a mídia luso-tupiniquim, aparelhada, um pum do Lula ou do FHC, ou do Zé Dirceu, é um fato mais importante do que uma Revolução (que o Senador Cristovam pediu hoje no Senado), capaz de mudar de verdade o país. Então causa boa e justa existe, pelo menos na Política, o que falta é espaço na mídia que, por ignorância ou por toupeira mesmo, não se dá nem mesmo ao trabalho de investigar, descobrir, mostrar e ouvir o HoMeM do Novo Brasil de Verdade. O problema é que a importância do fato não é o que interessa à midia, mas, isto sim, o oba-oba, o vandalismo e o quebra-quebra das ruas, consequências da causa que a RPL busca resolver. O tempo passou, o povo brasileiro acordou, mas a midia luso-tupiniquim, apaixonada pelo FHC, Lula, Zé Dirceu, Obama e Cia da mesmice, continua dormindo e sonhando com os mesmos, ao que parece.

  3. ..

    Carta Manifesto da Marcha das Vadias de Rio de Janeiro – Por que marchamos?

    No Rio de Janeiro, marchamos porque apenas nos primeiros três meses desse ano foram 1.246 casos registrados de mulheres e meninas estupradas, uma média de quatorze mulheres e meninas estupradas por dia, e sabemos que ainda há várias mulheres e meninas abusadas cujos casos desconhecemos; marchamos porque muitas de nós dependemos do precário sistema de transporte público do Rio de Janeiro, que nos obriga a andar longas distâncias sem qualquer segurança ou iluminação para proteger as várias mulheres e meninas que são violentadas ao longo desses caminhos; marchamos porque foi preciso a criação de vagões femininos no trem e no metrô para que não fossemos sexualmente assediadas durante o uso desses transportes.

    No Brasil, marchamos porque aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano, e mesmo assim nossa sociedade acha graça quando um humorista faz piada sobre estupro, chegando ao cúmulo de dizer que homens que estupram mulheres feias não merecem cadeia, mas um abraço; marchamos porque nos colocam rebolativas e caladas como mero pano de fundo em programas de TV nas tardes de domingo e utilizam nossa imagem semi-nua para vender cerveja, vendendo a nós mesmas como mero objeto de prazer e consumo dos homens; marchamos porque vivemos em uma cultura patriarcal que aciona diversos dispositivos para reprimir a sexualidade da mulher, nos dividindo em “santas” e “putas”, e muitas mulheres que denunciam estupro são acusadas de terem procurado a violência pela forma como se comportam ou pela forma como estavam vestidas; marchamos porque a mesma sociedade que explora a publicização de nossos corpos voltada ao prazer masculino se escandaliza quando mostramos o seio em público para amamentar nossas filhas e filhos; marchamos porque durante séculos as mulheres negras escravizadas foram estupradas pelos senhores, porque hoje empregadas domésticas são estupradas pelos patrões e porque todas as mulheres, de todas as idades e classes sociais, sofreram ou sofrerão algum tipo de violência ao longo da vida, seja simbólica, psicológica, física ou sexual.

    No mundo, marchamos porque desde muito novas somos ensinadas a sentir culpa e vergonha pela expressão de nossa sexualidade e a temer que homens invadam nossos corpos sem o nosso consentimento; marchamos porque muitas de nós somos responsabilizadas pela possibilidade de sermos estupradas, quando são os homens que deveriam ser ensinados a não estuprar; marchamos porque mulheres lésbicas de vários países sofrem o chamado “estupro corretivo” por parte de homens que se acham no direito de puni-las para corrigir o que consideram um desvio sexual; marchamos porque ontem um pai abusou sexualmente de uma filha, porque hoje um marido violentou a esposa e, nesse momento, várias mulheres e meninas estão tendo seus corpos invadidos por homens aos quais elas não deram permissão para fazê-lo, e todas choramos porque sentimos que não podemos fazer nada por nossas irmãs agredidas e mortas diariamente. Mas podemos.

    Já somos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e curradas durante a Ditadura Militar. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES.

    Mas, hoje, marchamos para dizer que não aceitaremos palavras e ações utilizadas para nos agredir enquanto mulheres. Se, na nossa sociedade machista, algumas são consideradas vadias, TODAS NÓS SOMOS VADIAS. E somos todas santas, e somos todas fortes, e somos todas livres! Somos livres de rótulos, de estereótipos e de qualquer tentativa de opressão masculina à nossa vida, à nossa sexualidade e aos nossos corpos. Estar no comando de nossa vida sexual não significa que estamos nos abrindo para uma expectativa de violência, e por isso somos solidárias a todas as mulheres estupradas em qualquer circunstância, porque tiveram seus corpos invadidos, porque foram agredidas e humilhadas, tiveram sua dignidade destroçada e muitas vezes foram culpadas por isso. O direito a uma vida livre de violência é um dos direitos mais básicos de toda mulher, e é pela garantia desse direito fundamental que marchamos hoje e marcharemos até que todas sejamos livres.

    Somos todas as mulheres do mundo! Mães, filhas, avós, putas, santas, vadias…todas merecemos respeito!

    Créditos à Marcha das Vadias de Brasília

    Marcha das Vadias RJ – SlutWalk

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