Militares aliados a Bolsonaro deviam seguir o exemplo do general americano Mark Milley

Mark Milley e Donald Trump

Quando Trump ameaçou a democracia, foi logo enquadrado

Dorrit Harazim
O Globo

O marxista alemão Bertolt Brecht, que usou o teatro para tentar transformar o mundo, também produziu uma série de poemas esperançosos e atípicos para a época. Foi na terceira década do século XX —naquele entreguerras em que os intelectuais e poetas chafurdavam na desilusão, e o militarismo das nações cavalgava para novos confrontos — que Brecht escreveu seu mais célebre poema, dirigido a oficiais:

O vosso tanque, general, é um carro-forte/ Derruba uma floresta, esmaga cem/ Homens/ Mas tem um defeito/ —Precisa de um motorista./ O vosso bombardeiro, general/ É poderoso/ Voa mais depressa que a tempestade/ E transporta mais carga que um elefante/ Mas tem um defeito/ —Precisa de um piloto. / O homem, meu general, é muito útil/ Sabe voar, e sabe matar/ Mas tem um defeito/ —Sabe pensar.

PENSAR LIVRE – Esse chamamento à capacidade humana de um pensar livre não foi ouvido à época, e o mundo se encarniçou na Segunda Guerra Mundial. Algumas lições do conflito foram incorporadas à História, outras nem tanto. Ainda assim, aos trancos e barrancos, conseguiu-se chegar a 2021.

Oitenta anos depois de Brecht, o cenário global vive novo período de negativismo moral (não confundir com negacionismo): o planeta Terra está literalmente derretendo por obra de quem nele habita, a humanidade vive para não morrer na pandemia, a desigualdade entre pobres e ricos virou cancro explícito e obsceno, e as instituições que sustentam os regimes democráticos estão sob assalto por toda parte. Daí a atualidade da esperança brechtiana no homem e da necessidade de um engajamento coletivo. Pensar leva a agir. Só alertar já não basta.

BIDEN FALOU CLARO – Em discurso na Filadélfia, berço da democracia norte-americana, o presidente Joe Biden falou claro, dias atrás. “Estamos enfrentando a prova mais tormentosa à nossa democracia desde a Guerra Civil”, advertiu ele, referindo-se ao conflito interno do século XIX que fez mais de 600 mil mortos e deixou feridas nacionais não cicatrizadas até hoje.

“E não digo isso para alarmá-los. Digo isso porque vocês precisam ficar alarmados.” Motivos não faltam. Desde sua posse, em janeiro, o sucessor de Donald Trump não conseguiu impedir o cerceamento acelerado do direito ao voto no país.

Dados do Centro Brennan de Justiça, citados pelo jornal The Guardian, apontam que, só neste ano de 2021, 17 estados já aprovaram 28 leis que dificultam o ato de votar; 400 outros projetos de lei no mesmo sentido foram apresentados em legislaturas de 48 estados. No conjunto, essas mudanças tendem a afetar grupos eleitorais de tendência democrata (pobres, negros, jovens).

QUAL É O PLANO? -“Precisamos agir”, exortou Biden ao final. Soou bonito, mas oco. Ele ficou devendo seu próprio plano de ação para neutralizar a insidiosa alegação trumpista de que eleições são fraudulentas. Mais de 70% de seus eleitores negam até hoje o resultado das urnas que deu vitória ampla a Biden em 2020 — e voltarão a fazê-lo em 2024.

Este é o legado mais oneroso de Donald Trump ao país: ter conseguido achincalhar e minar a instituição do voto democrático. Jamais um ocupante da Casa Branca havia ameaçado rejeitar um resultado que lhe fosse desfavorável e se recusara a passar o poder.

O desarranjo institucional chegou a tamanha fervura que o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Mark Milley, teve de se posicionar diante da possibilidade de Trump querer recorrer a militares para ganhar na força.

DISSE O GENERAL – “Em caso de disputa sobre qualquer aspecto eleitoral, a lei ordena que as Cortes e o Congresso dos Estados Unidos, não os militares, resolvam essas questões. Não vejo qualquer papel para as Forças Armadas nesse processo. Eu, assim como todos os membros das Forças Armadas, prestamos o juramento de defender a Constituição dos Estados Unidos, respeitando as ordens legais da cadeia de comando”, testemunhou Miller por escrito. E assim foi.

Em países como a Austrália, a aproximação entre fardados e política é anátema. Numa entrevista coletiva que adquiriu notoriedade dois anos atrás, a maior autoridade militar do país, general Angus Campbell, comunicou ao então ministro da Defesa, Christopher Pyne, que todo o Alto-Comando presente se retiraria do evento quando o tema da entrevista focasse questões políticas. E assim foi.

OFENSAS À DEMOCRACIA – Recomenda-se aqui mais comedimento ao atirado ministro da Defesa, Walter Braga Netto; ao defenestrado da Casa Civil e empurrado para a Secretaria-Geral da Presidência, general Luiz Eduardo Ramos; ao vice-presidente topa-tudo, general Hamilton Mourão; ao showman chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno; ao indiciado ex-ministro da Saúde, hoje abrigado no Gabinete de Segurança Institucional, general Eduardo Pazuello.

Leiam o artigo de Octavio Guedes “De Prestes a Brizola: por que generais bolsonaristas ofendem a democracia” e contentem-se com seus salários duplos pagos por nós.

Por ora, os únicos militares que o país quer aplaudir alto e saudar são os 91 atletas das Forças Armadas que compõem 30% do Time Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Eles competirão em 21 das 46 modalidades. Na Rio2016, fizeram lindo: conquistaram 13 das 19 medalhas brasileiras, honrando o ótimo Programa Atletas de Alto Rendimento (PAAR) do Ministério da Defesa. Eles honram o uniforme que vestem. Vocês desonraram a patente que conquistaram. Leiam Brecht — o brasileiro também sabe pensar.

4 thoughts on “Militares aliados a Bolsonaro deviam seguir o exemplo do general americano Mark Milley

  1. Fiquei muito emocionado nesta manhã ao ler o artigo da acadêmica da ABL, Dorrit Harazim na terceira página de O Globo. Ela discorreu sobre um poema do teatrologo alemão, Bertolt Brecht.
    Por que Brecht mexe com minha alma? No teatro da (UFRJ) Faculdade de Engenharia, no final da década de 70, assisti a peça ” A Opera dos Três Vinténs”. No final, abriram para o cipoal de perguntas. Como sempre faço nessas ocasiões, fui o primeiro a indagar: qual a mensagem, que Brecht queria passar para a platéia? Na mesa de debates, ouviu-se um silêncio constrangedor. Então, veio a resposta : pensar a relação capital versus trabalho.
    Ninguém mais perguntou, porque engenheiros focam suas preocupações nas cadeiras de Exatas, pelo menos naquela época.
    Fui para o Campus e sentei no banco com o colega Waldir, morador de Nova Iguaçu. Um cidadão bateu nas minhas costas e ordenou: vamos até a Reitoria.
    Acompanhei o senhor e fui recebido pelo Vice Reitor. Somente eu e ele. Começaram as perguntas:
    Você sabe quem é Bertolt Brecht? Nunca ouvi falar dele até poucos instantes.
    Sabe a nacionalidade de Brecht? Também não professor.
    Qual o motivo da pergunta que você fez? Curiosidade senhor Lodi.
    Há meu filho, volte para as aulas, me parece que houve um engano em relação a ti. Me abraçou e bateu carinhosamente no meu ombro.
    Coisas da vida. Anos mais tarde, li tudo sobre esse fenomenal alemão. Assisti também no teatro Ginástico, no Centro do Rio, a fantástica peça, Opera do Malandro de Chico Buarque e Oduvaldo Viana, baseada na Ópera dos Três Vinténs.
    Para fechar com chave de ouro, transcrevo o poema de Brecht dirigido aos oficiais alemães:
    _ O vosso tanque, general, é um carro forte/Derruba uma floresta, esmaga cem/ Homens/Mas, tem um defeito/_Precisa de um motorista./ O vosso bombardeiro, general/É poderoso/ Voa mais depressa que a tempestade/ E transporta mais carga que um elefante/ Mas, tem um defeito/_ Precisa de um piloto./ O homem meu general, é muito útil/Sabe voar, e sabe matar/Mas, tem um defeito/_Sabe pensar.
    Não precisa dizer mais nada, neste domingo, apenas pensar. Tanto naquele dia, da peça na Faculdade, até hoje, o inesperado traz sempre uma surpresa.
    Bom domingo.

  2. Seguir o exemplo do gen Mark Milley requer mais do que vontade. O general tem como alma matter as instituições abaixo:

    Princeton University (BA)
    Columbia University (MA)
    Naval War College (MA)

    Dá para entender a discrepância entre eles e “nóis”?! Lá na terra do Tio Sam valoriza-se a formação do soldado e costuma-se deixar de lado o que não tem nenhum significado: a vaidade e a presunção. Só pra rimar: que isso nos sirva de lição!

  3. Prezado Christian,

    Abordaste uma questão enigmática, provocativa, que tem sido debatida e discutida ao longo de quase três séculos.

    Apesar de o ser humano justamente ter sido moldado a ser escravo, dependente, usado, roubado, explorado e manipulado pelos governantes, que se tornam ditaduras ou regimes que se assemelham, no entanto tirando direitos do cidadão, o agredido, ofendido, atacado, prejudicado nada fez e nada está fazendo para mudar essa situação!

    Se a intenção de Brecht era o espectador confrontar o que se passava no palco com os acontecimentos fora do teatro, e assim contribuir para uma melhor reflexão sobre a realidade imposta pelos poderes, Chico Buarque apresentou a sua ópera com bases na Ópera do Mendigo, 1728, Os Três Vinténs, de Brecht, usando como pano de fundo a ditadura civil-militar brasileira, e com o mesmo propósito das peças anteriores à reflexão sobre o papel da sociedade nesses tempos.

    Entretanto, meu caro amigo, o pensamento sobre as tais magníficas óperas de cunho nitidamente social, e não os dramas amorosos desta arte denominada de bel canto, tirava o espectador das cadeiras dos teatros para fazê-los sentar-se nas cadeiras de bares ou em suas casas para refletir a respeito do que vira e ouvira.

    Mas, e a ação?
    A reação?
    A contestação?

    Neste particular, e na minha análise muito limitada sobre tais obras de arte, talvez tenha faltado a elas a necessária força motivacional, de modo que não só fizesse o público refletir sobre os acontecimentos, como o impulsionasse a reagir, a dar com a boca no trombone!

    Desta forma, apesar da beleza das composições e muito bem apresentadas por companhias de teatro, igualmente representadas por atores renomados, há uma perda de sequência por parte do próprio público.

    Ele sai dos teatros pensando, discutindo, debatendo … e fica por isso mesmo!

    Ora, a diferença entre as acusações das peças com relação ao capitalismo e depois com as ditaduras, reside na ação!
    Enquanto o povo apenas pensava, refletia, imaginava, projetava … o capitalismo e o autoritarismo agiam, tomavam o espaço que seria do cidadão, e obrigavam-no a seguir as normas impostas pelos que detinham o poder por bem ou por mal!

    Logo, se as mensagens dessas óperas eram para a reflexão, na verdade fizeram exatamente o oposto, e esta é a minha crítica:
    Indiretamente deram a entender que é excelente pensar, meditar, porém muito mais importante e necessário seria a ação, o agir, a concretização de ideias que eram apresentadas aos espectadores, que ficaram apenas no terreno hipotético, teórico, irreal, diante da sua impossibilidade de realização por parte dos desvalidos, aviltados, destituídos até mesmo de suas próprias vidas!

    As mensagens deixaram de fora exatamente o pragmatismo, inexorável e essencial, ou seja, a solução para o povo!!

    A meu ver, esta seria a falha clamorosa de Gay, Brecht e Chico, ou seja, a falta de solução para que nos livrássemos do jugo imposto, pela injustiça, arbítrio, imposição.

    Forte abraço.
    Saúde e paz.

    • Caro Francisco Bendl,

      Sem esgotar qualquer tema, salvo engano, parece que extraordinário articulista pretendia endereçar os comentários sobre a denúncia social realizada em forma de arte ao também extraordinário Roberto Nascimento (08:11).

      Quanto às suas referências à disponibilidade de soluções concretas para os problemas humanos, entendo que está bem colocada a questão da necessária articulação no ciclo ação-pensamento e consequências decorrentes: a arte, como também a religião, a filosofia ou a ciência, isoladamente e, por si mesmas, não são capazes de reduzir o traço humano no cosmos, cada uma tem seu lugar.

      Saúde, Paz e Bem!
      Cordial Abraço,
      Christian.

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