Mimando os ricos

Sebastião Nery

RIO – 1959. Eisenhower, presidente dos Estados Unidos em visita ao Brasil, foi ao Congresso Nacional. Em nome do Senado, falou Afonso Arinos de Melo Franco, da oposição. Em nome da Câmara Federal, Abelardo Jurema, líder do PSD e da maioria (governo de Juscelino). Citando o poeta Whitman, Jurema disse a Eisenhower:                                        

– Sede bem-vindos, irmãos americanos, para juntarem-se conosco na luta contra os trustes internacionais.                                                                         

O plenário aplaudiu. Eisenhower, perplexo, passou alguns segundos olhando para os lados, sem entender. Mas logo um homem alto, forte, sentado bem atrás dele, lhe falou alguma coisa ao ouvido. Eisenhower voltou-se para tribuna, onde estava Jurema, e lhe sorriu.                             

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EISENHOWER

À noite, no Palácio Laranjeiras, entrou Augusto Frederico Schmidt:               – Presidente, nosso Jurema estragou a festa, provocando o Eisenhower com essa história de trustes.                                                              

Jurema não gostou da observação: “Schmidt, ao que me consta, Eisenhower é presidente dos Estados Unidos e não dos trustes”.                                                                                      

O senhor alto e forte, sentado atrás de Eisenhower, e que lhe traduzia o discurso ao ouvido, era o coronel Vermon Walters, adido militar dos EUA no Brasil, o mesmo que depois apareceu como chefe da espionagem e dos relatórios da CIA americana no golpe militar de 1964.                                                                                           

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COPOM

O Brasil viveu, quarta-feira, um dia de perplexidade. Pela primeira vez, em muitos anos, o Copom, o Comitê Monetario do Banco Central, ousou baixar os juros em míseros 0,5%, meio ponto percentual, desafiando  a matilha financeira nacional que, chefiada pela Febraban (Federação Brasileira dos Bancos) e seus perdigueiros nos gabinetes dos bancos, nas agencias de especulação e nas redações, protestava contra a taxa básica Selic em 12% e exigia no mínimo sua manutenção em 12,5%.                            

Imediatamente, nas TVs, radios, jornais, todos os servos e serviçais do chamado “mercado”, entraram numa patetica crise de menopausa financeira. O “escândalo: o Banco Central perdera sua autonomia, sua independência, e deixara de ser o Sindicatão dos Bancos.

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DILMA

Como o saudoso e bravo Abelardo Jurema sabia, o Brasil não é propriedade dos interesses e da gula dos bancos e seus “trustes”. Mas, infelizmente,bancos e grupos internacionais sempre agiram como se fosse.           

Apareceu uma mulher consciente e valente como a presidente Dilma e, mesmo sem interferir na reunião do Copom, disse que o unico caminho para a diminuição da criminosa divida publica e o crescimento econômico é a gradual queda dos juros para os niveis internacionais.                                   

Isso só acontecerá no dia em que o pais deixar de ser o pantanal dos ricos que vivem da renda e da especulação, à custa da produção dos outros. Esta semana, tivemos nos Estados Unidos uma bela e insuspeita lição.   

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SUPER-RICOS

O multimilionário Warren Buffett, dos mais ricos do mundo, escreveu no  “New York Times”: – “Parem de mimar os super-ricos. Os políticos norte-americanos se recusam a elevar impostos dos milionários. Pago aliquota de impostos menor do que qualquer dos meus funcionários”.             

1. – “Enquanto a classe média e os pobres lutam por nós no Afeganistão, e enquanto a maioria dos americanos luta para fechar as contas do mês, nós mega-ricos continuamos com extraordinárias isenções fiscais. Esta e outras benções nos são concedidas por parlamentares em Washington que se sentem na obrigação de nos proteger, como se fossemos uma espécie em extinção. É bom ter amigos em cargos elevados.”             

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IMPOSTOS

2. “No ano passado a conta dos meus impostos federais, foi de US$ 6.938.744. Parece um bocado de dinheiro. Mas foi apenas 17,4% do meu rendimento tributável. Menor do que aquela paga por qualquer das 20 pessoas que trabalhavam em meu escritório. A carga fiscal delas ficou entre 33% e 41%, numa média de 36%.”                                                                   

3. “É preciso examinar as fontes de receita do governo. No ano passado, cerca de 80% vieram de imposto sobre a renda de pessoas físicas e da contribuição para a Previdência. Os mega-ricos pagam 15% de IR sobre a maior parte dos seus ganhos, mas não pagam quase nada de contribuição previdenciária. Os americanos estão perdendo a fé na capacidade do Congresso em lidar com os problemas fiscais do país.”                                       

O Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil fez um estudo sobre nosso “Sistema Tributário”. Os maiores tributos incidem sobre o assalariado e os consumidores que respondem com a maior carga tributária do país. É preciso estar ao lado de Dilma nessa justa guerra.

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