Minas era assim

Sebastião Nery

Na ditadura de Vargas, Dom José Gaspar de Afonseca e Silva, de Araxá, arcebispo de São Paulo (morreu em um desastre de avião sobre a Ilha Fiscal, na baia de Guanabara), publicou uma carta pastoral condenando a reforma do Código Civil que ia dar grande abertura para os divorciados.

Era secretário do Interior em Minas o José Maria Alkmim. A ordem do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), que comandava a censura, era que a pastoral de Dom José Gaspar só podia ser publicada na capital de São Paulo. Ninguém mais, nenhum jornal mais podia publicar.

O Alkmim foi visitar Dom José Gaspar, que lhe disse: – “Você não quer levar isso para o Edgar da Mata Machado, que é o redator chefe de “O Diário”, jornal católico? Essa coisa de censura é um absurdo. Eu não posso mandar nem para a cidade mais próxima de São Paulo, Lá o padre não pode receber essa pastoral.” Alkmim disse: – “Eu levo.”

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ALKMIM

Alkmim chegou a Belo Horizonte, telefonou a Mata Machado, que foi à Secretaria do Interior, pegou a Pastoral, de lá foi para o Palácio Cristo Rei e contou a Dom Cabral, arcebispo de Belo Horizonte, que ia publicar.

– “Eu já sei da pastoral, já conversei com Dom José Gaspar, você tem jeito de publicar isso em “O Diário” sem o censor ver?

– “Tenho.”

Naquele tempo, para imprimir o jornal, fazia-se o “flã”. Muitas vezes o censor lia as matérias no “flã”. Mata Machado fez um “flã” todo tranqüilo, com notícias de futebol. E fez outro, com o texto da pastoral.

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MATA MACHADO

Chegou um delegado e falou com Mata Machado :

– “Você sabia que estava proibida a publicação dessa pastoral?”

– ”Sabia”.

– “Pois é, o chefe gostaria de conversar com você”.

– ”Publiquei a pastoral por ordem do chefe”.

– “Ordem do chefe, como?”

– “Do meu chefe. Você tem um e eu tenho outro. Meu chefe é o arcebispo, que autorizou a publicação. O que eu posso fazer é dar um telefonema para o arcebispo e você conversa com ele”.

O delegado percebeu que não dava jeito.

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FRANZEN DE LIMA

João Franzem de Lima dirigia “O Diário”. Procurou Dom Cabral:

– “Vou assinar o Manifesto dos Mineiros,pedindo a redemocratização do país, vai haver represálias. Então, venho pôr o cargo à sua disposição.”

– “O senhor só sai quando a assembléia decidir”.

Apesar de ter assinado o Manifesto dos Mineiros, de 31 de outubro de 43, o professor João Franzen de Lima ficou na direção de “O Diário” até março de 1944, quando a assembléia dos acionistas aceitou sua renuncia.

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JORNALISTAS

Uma comissão de jornalistas, da qual fazia parte o José Aparecido de Oliveira, convidou o redator-chefe de “O Diário”, José Mendonça, para ser candidato a presidente do Sindicato dos Jornalistas. Foi eleito por unanimidade, em chapa única, que tinha Cid Rebello Horta como vice-presidente, José Aparecido como diretor, José Frederico Sobrinho como secretário e o tesoureiro era Wagner Sachetto Gomes, editor de polícia do “Diário da Tarde” e redator da “Rádio Inconfidência”.

Fizeram a comunicação ao delegado do Trabalho, que disse que não podíam tomar posse enquanto não apresentassem atestado de ideologia, dado pela Delegacia de Ordem Politica e Social, afirmando que não participavam de nenhuma corrente totalitária, de direita ou de esquerda.

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SINDICATO

Ney Otaviani Bernis, presidente do sindicato, convocou uma assembléia e decidiram não apresentar o atestado. Uma funcionária do Ministério, dona Virgínia, telefonava quase todo dia pedindo que completassem o processo para tomar posse. Não apresentaram atestado nenhum. Marcaram a posse e até fizeram uma festa na Sociedade Mineira dos Engenheiros, no edifício do Automóvel Clube.

Era o começo do segundo governo Vargas, em 1951. Ministro do Trabalho, Danton Coelho, do PTB gaúcho. O ministro passava telegramas e mais telegramas insistindo na “regularização” do processo eleitoral. Finalmente, nomeou uma junta governativa que tinha José Mendonça como presidente, o Frederico secretário e o Wagner tesoureiro.

A assembléia se reuniu e respondeu que tínham sido eleitos para serem diretores e não interventores. Tomaram posse no sindicato, no edifício Mariana, na Avenida Afonso Pena. A atitude teve repercussão nacional, ficou conhecida como “a rebelião dos jornalistas mineiros”.

(Hoje, temos cinco bovinas Centrais Sindicais puxadas pela venta)

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JOSÉ MENDONÇA

Essas historias, e tantas mais, estão em um livro que é um retrato da imprensa mineira depois dos anos 30: “José Mendonça, a Vida Revelada”, de Flavio Friche, Manoel Marcos Guimarães e Maria Auxiliadora de Faria (Editora da UFMG), contando a vida de um cidadão exemplar e jornalista modelo, culto e brilhante, líder de sua geração e meu mestre de jornal.

Formado no Seminario de Diamantina, professor de português, latim, francês, historia, jornalismo, diretor de “O Diário” e das sucursais de “O Globo” e “Folha”, José Mendonça ainda fez Direito, fundou e dirigiu o Departamento de Comunicação da Universidade Federal. Com 93 anos, continuava um surpreendente jovem dentro da vida cultural de Minas.

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