Minha profisso dizer o que eu penso

Carlos Chagas

Noite de Natal, tempo de boa vontade e tolerncia. Nem por isso devemos deixar de buscar no passado exemplos capazes de demonstrar as contradies do presente.

Voltaire, dos maiores espinhos colocados no caminho da Igreja, escreveu um panfleto intitulado As Perguntas de Zapata, no caso, um jovem candidato a padre. O personagem indagou, entre outras questes, dos bispos que o interpelavam: como vamos fazer para mostrar que os judeus, a quem hoje queimamos s centenas, foram durante quatro mil anos o povo escolhido por Deus?

Em outra novela, Lengenu, conta as desventuras de um ndio Huron, trazido da Amrica Frana e levado s prticas especficas do catolicismo. Indicaram-lhe uma passagem na Epistola de So Tiago que determinava confessai-vos uns aos outros. Numa capela, o aborgene cumpriu risca a determinao, mas quando acabou de dedilhar seus pecados, arrancou o abade do confessionrio, fora, ocupando seu lugar e dizendo que no sairia dali enquanto o outro no confessasse os dele…

S esses dois episdios conduzem-nos mesma contradio que um dia marcou a fundao do PT. Como explicar, no caso dos companheiros, que um dia tenham sido os donos da tica, crticos de todas as lambanas praticadas pelos demais partidos, e agora apaream como mensaleiros, ocupantes de milhares de cargos em comisso, gestores de ONGs fajutas que recebem recursos do tesouro nacional e herdeiros do Ali Bab? Da mesma forma, no d para entender de que maneira os petistas condenam fogueira montes de tucanos responsveis pela dilapidao do patrimnio pblico necessrio preservao da soberania nacional e, de repente, tenham virado neoliberais de carteirinha.

Os dias da fundao do PT lembram cada vez mais os primeiros tempos do cristianismo, quando mrtires viam-se imolados nas arenas da incompreenso, mas logo tornados senhores que acendiam as fogueiras da intolerncia. Hoje, o partido que seria dos trabalhadores transmudou-se em agremiao dos donos do poder e das verdades absolutas, espera de um grito de revolta muito parecido com Ecrasez linfame. A pergunta que se faz, enquanto h tempo, como reagiro quando a turba cercar a Bastilha? Perdero apenas as propriedades, as mordomias, as benesses e a ocupao do poder? Ou as cabeas, tambm?

No dia em que parte da Humanidade comemora o nascimento do maior dos seres vivos jᠠ presentes no planeta, sempre empenhado em demonstrar sermos todos filhos de Deus, sem reivindicar apenas para ele essa condio, seria bom meditar quantas barbaridades tem sido cometidas em seu nome. Assim como, em nome da justia social, verificar quantos companheiros transformaram-se em algozes dos princpios fundamentais da liberdade e da democracia.

Para terminar com o mestre Franois Marie Arouet, o Voltaire, seria bom responder como ele, quando indagado sobre seu modo de vida: minha profisso dizer o que eu penso…

Impunidade acima de tudo

Com o ano aproximando-se do fim, valeria uma enqute que os institutos de pesquisa jamais faro: qual a maior tragdia brasileira de 2009?

Muitos devem optar pelo mensalo do PT. Outros, pelo do DEM. Numa palavra, a corrupo que nos assola. Estes votaro na pasmaceira do Congresso, sem haver aprovado nenhuma iniciativa de vulto entre as necessidades nacionais. Aqueles apontaro as intromisses do Judicirio em temas da exclusiva alada do Executivo ou do Legislativo. Para muitos, ter sido a falta de limites com que o presidente Lula abordou histrinicamente questes de seriedade obrigatria. Ou a facilidade com que utilizou medidas provisrias sem a menos relao com casos de urgncia e relevncia.

Fora da poltica, ento, as hipteses se multiplicam: a desdia do poder pblico diante do crescimento da violncia urbana. A inusitada propaganda oficial que transmite opinio pblica viso distorcida da realidade nacional. A falta de escolas para todas as crianas. O horror que cerca o arcabouo da sade pblica. A falta de obras concretas na infra-estrutura do pas, entregue a rodovias esburacadas, ferrovias inexistentes e portos em decadncia. As facilidades concedidas s elites financeiras e industriais, em detrimento da classe mdia sempre submetida a maiores cargas fiscais.

Pois no meio de tantas abominveis deficincias que nos assolam, uma sobressai altaneira e impvida: a impunidade. Porque todas as demais acontecem em funo de nossa maior tragdia, a falta de punio para quantos praticam a ilicitude. Ningum punido, as cadeias continuam abrigando apenas os ladres de galinha.

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