Morrendo pela goela

Sebastião Nery

Cassado, derrubado do governo de São Paulo por Castelo Branco em junho de 66, praticamente exilado, vivendo na Europa com sua peruca acaju e sem a histórica barriga, já muito magro e triste, Ademar de Barros zanzava, uma tarde, pelo aeroporto de Paris, esperando um avião para a Suíça. Um jornalista brasileiro o reconheceu, foi conversar com ele.

Ademar ficou na maior alegria de poder falar do Brasil e do golpe de 64, que ajudou a dar, longe do País, sem o SNI estar ouvindo. O jornalista lhe perguntou se ele ajudaria novamente militares e empresários a darem o golpe. Ademar passou a mão na barriga já murcha e falou com sua voz anasalada:

– Meu filho, a revolução de 64 foi o maior conto do vigário em que me meti na minha vida.

A história é impecável. Quem faz política com a boca na gamela um dia morre pela goela.

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BARRADO NO BARCO

Quando o presidente Jimmy Carter veio ao Brasil, e de Brasília viria ao Rio, o Itamaraty lembrou-se de que era uma boa levar o presidente a um passeio pela Baía de Guanabara.

O homem já tinha chegado a Brasília, era preciso correr nas providências. Telefonaram para Francisco (Chico) Guise, que tinha um belo barco. O telefone estava quebrado.

Lembraram-se do poderoso barco do empresário imobiliário Sérgio Dourado, que emprestou. Carter chegou. Na hora de o barco sair, aparece apressado um senhor todo elegante e sorridente:

– Com licença.

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SÉRGIO DOURADO

Um segurança de Carter, armário com dois metros de largura, barrou:

– O senhor é convidado? Aqui só entra convidado.

– E o dono, entra?

– Dono de quê?

– Do barco. Sou o dono do barco. Este barco é meu.

O segurança não entendeu nada. Foi lá dentro, conversou. Como é que puseram o presidente em um barco sem o dono saber? Voltou. Carter, pessoalmente, deu ordem para que Sérgio Dourado entrasse.

Daí a pouco, esquema montado, aparece o fotógrafo de Sérgio Dourado, que documentou o longo abraço imobiliário dos dois. Dourado também tinha goela grande.

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