Na Câmara, o novo ministro Gastão Vieira era um dos maiores críticos do mensalão. Mudou ele? Mudamos nós ou mudou a política?

Carlos Newton

Recordar é viver. Os repórteres Filipe Coutinho e Fernando Mello foram pesquisar os arquivos da “Folha de S. Paulo” e descobriram que o novo ministro do Turismo, Gastão Vieira, considera o esquema do mensalão um “caso de corrupção sem paralelo na história republicana brasileira”, e mesmo assim aceitou fazer parte do governo do PT.

Como se sabe, o caso do mensalão deve ser o maior julgamento da Justiça brasileira. Entre os 38 réus está o ex-ministro José Dirceu, homem forte do governo Lula. A expectativa é que seja julgado em 2012, mas as maiores perspectivas são de que os crimes prescrevam por decurso de tempo, como acaba de acontecer com o ex-jogador Edmundo, que matou três pessoas, dirigindo embriagado, foi condenado, mas o crime prescreveu.

Na pesquisa, os jornalistas constataram que, em 2005, quando estourou o escândalo do mensalão, Gastão Vieira era deputado pelo PMDB do Maranhão e integrou a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que investigou o caso. Enquanto a cúpula petista e o então presidente Lula se esforçavam na tentativa de desqualificar o escândalo, Vieira ia para a tribuna da Câmara dizer que o mensalão era um caso “deliberadamente e estrategicamente” montado para comprar deputados.

Gastão Vieira citou o escândalo do mensalão em pelo menos seis discursos no plenário, entre 2005 e 2009, quando o PMDB já era o principal partido de sustentação do governo do PT. Em nenhum desses discursos Vieira mudou o tom nem aderiu à versão governista sobre o mensalão. “O nível de recursos desviados revela que o desvio era feito de caso pensado”, disse em setembro de 2005. E em 2009 denunciou que o mensalão “envolvia presidentes e líderes de partidos e não aqueles que vagavam na solidão deste plenário”.

À época, Vieira chegou a dizer que Lula corria risco de sofrer impeachment, salientando que o mensalão partiu do Executivo, porque o governo, em vez de aproveitar a popularidade de Lula, preferiu “comprar partidos e cooptar deputados”. E acrescentou: “A crise tem origem no Executivo, que poderia usar a força dos votos que trouxe Lula para a Presidência e fazer as reformas com nossa adesão.”

“Devemos eleger um presidente para a Câmara independentemente do tamanho de bancada, que não provoque o impeachment do presidente Lula, mas esteja pronto para fazê-lo se as circunstâncias assim o determinarem”, sugeriu em discurso no plenário, três meses após o mensalão ser revelado pelo deputado Roberto Jefferson.

Afilhado do presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP), Vieira também já chegou a bater de frente com a ala do PT contrária ao apoio de Sarney: “Alguns deputados do PT querem ser donos da verdade e das obras do governo”, criticou, falando da tribuna da Câmara.

Como diz o ditado, nada como um dia atrás do outro. Depois de tanto denunciar o mensalão, Gastão Vieira agora rasga a biografia em troca de uma nomeação para o Ministério do Turismo, confirmando outro velho ditado: cada homem tem seu preço.

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