Na criao de “O brio”, o romantismo exacerbado de Vicente Celestino

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Vicente Celestino interpretando “O brio”, seu papel principal

Paulo Peres
Poemas & Canes

O cantor (tenor), ator e compositor carioca Antnio Vicente Felipe Celestino (1894-1968) lanou um estilo caracterizado pelo romantismo exarcebado, comovendo e arrebatando um grande pblico durante a primeira metade do sculo XX, atravs do teatro, do rdio, de discos e do cinema nacional.

A letra dramtica da msica O brio, repleta de desventuras e imagens beirando a pieguice, era uma perfeita sinopse para o enredo de um filme, desde o prlogo falado parte musical propriamente dita. Nesta, o contraste da primeira parte, no modo menor, com a segunda, no modo maior, contribui para ressaltar a tragdia do protagonista. O brio, lanado em 1946, com Vicente Celestino no papel principal, obteve recordes de bilheteria.

A cano O brio gravada por Vicente Celestino, em 1936, pela RCA Victor, tambm inspirou naquele ano uma pea de teatro e, em 1965, uma novela na TV Paulista.

O BRIO
Vicente Celestino

Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, at chegar aos pncaros da glria. Durante a minha trajetria artstica tive vrios amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legtima esposa. Um dia, quando eu cantava A Fora do Destino, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. No pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar mas s por amor minha filha. Eduquei-a, fez-se moa, bonita E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez A Fora do Destino, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Da pra c eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. At que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, no! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me brio. brio

Tornei-me um brio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer
No tenho lar e nem parentes, tudo terminou
S nas tabernas que encontro meu abrigo
Cada colega de infortnio um grande amigo
Que embora tenham como eu seus sofrimentos
Me aconselham e aliviam os meus tormentos
J fui feliz e recebido com nobreza at
Nadava em ouro e tinha alcova de cetim
E a cada passo um grande amigo que depunha f
E nos parentes confiava, sim!
E hoje ao ver-me na misria tudo vejo ento
O falso lar que amava e que a chorar deixei
Cada parente, cada amigo, era um ladro
Me abandonaram e roubaram o que amei
Falsos amigos, eu vos peo, imploro a chorar
Quando eu morrer, minha campa nenhuma inscrio
Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar
Este brio triste e este triste corao
Quero somente que na campa em que eu repousar
Os brios loucos como eu venham depositar
Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo
E suas lgrimas de dor ao peito amigo

7 thoughts on “Na criao de “O brio”, o romantismo exacerbado de Vicente Celestino

  1. Muito bonito e triste.
    Se fosse essa cano fosse lanada nos dias de hoje, muito provavelmente seria rotulada de msica brega, digna do repertrio de um Reginaldo Rossi. Isso da parte dos nossos intelectuais, que nunca tiveram dificuldades em enxergar mritos no besteirol ertico musical da Ax Music, do Funk, da Anitta, e outras bobagens. A cultura brasileira em geral lida mal com a dor, o fracasso, o trgico, e prefere o riso e o deboche fcil.

  2. Seria Vicente Celestino influenciado pelo Tango Argentino ? O lado ruim dessa histria e dessa msica, que num pas de maria-vai-com-as-outras, em grande medida, Vicente Celestino conseguiu formar geraes e mais geraes, dando assim a sua contribuio para tornar o Brasil um pas de brios. Alis, sentindo o drama, “Volta por cima”, do Noite Ilustrada, deve ser uma resposta ao brio, falecido anos depois do lanamento dessa msica. https://www.youtube.com/watch?v=qFa56zgqQ78

  3. “O brio
    (Vicente Celestino)

    Recitativo – Falado : Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, at chegar aos pncaros da glria. Durante a minha trajetria artstica tive vrios amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legtima esposa. Um dia, quando eu cantava A Fora do Destino, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. No pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar mas s por amor minha filha. Eduquei-a, fez-se moa, bonita… E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez A Fora do Destino, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Da pra c eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. At que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, no! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me brio. brio…”

  4. -Quer saber se a pessoa tua amiga mesmo?
    - simples: diga que ir alugar um imvel por qualquer motivo e que precisar de um… FIADOR.

  5. Gosto de ouvir as msicas de John Denver, especialmente a que ele fez para a sua primeira mulher, Annie. fcil reconhecer na sua poesia a grandeza do artista. Chama-se annie’s song. Sugiro ouvir tambm dele Take me home, country roads. Nessas letras s se v beleza, extrato da mais bela poesia. Quanto ao Vicente Celestino, passo vazado!

  6. VIcente celestino
    (Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1894 So Paulo, 23 de agosto de 1968)

    John Denver

    (Roswell, 31 de dezembro de 1943 Pacific Grove, 12 de outubro de 1997

    Da para deduzir que so de pocas, costumes, pases diferentes?

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