Na mesa com Getúlio Vargas

Lira Neto, que acaba de lançar o primeiro livro de sua trilogia sobre Getúlio Vargas, conta, em texto escrito a pedido da Folha, sobre a predileção do ex-presidente pelo churrasco e como eram os jantares no antigo palácio e na residência oficial. Para o político gaúcho, só se conhecia bem um interlocutor diante de um bom prato de comida. O texto de Lira Neto nos foi enviado pelo comentarista Mário Assis.

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Lira Neto

No início de 1931, após apenas dois meses da chegada ao poder, Getúlio Vargas recebeu o ministro da aviação italiana, o fascista Italo Balbo, com um banquete no antigo Palácio Itamarati, na rua Marechal Floriano, próximo à estação Central do Brasil, Rio de Janeiro.

O menu primava por apresentar ao visitante estrangeiro os sabores exóticos da cozinha brasileira: caldo de tartaruga, filé de robalo, carneiro ao forno e assado de macuco (ave de grande porte da Mata Atlântica).

À hora do brinde, o ministro Balbo levantou a taça de champanhe e disse que o Duce, Benito Mussolini, pretendia cultivar com o máximo empenho as relações de amizade entre italianos e brasileiros.

Depois dos discursos de praxe e da comilança pantagruélica, a sobremesa ficou por conta das articulações políticas, das compotas de frutas tropicais e do sorvete de bacuri, seguidos do licor de jenipapo, café e charutos na biblioteca do prédio.

Ao longo dos cerca de 18 anos que permaneceria à frente do poder, Getúlio repetiria a dose, recepcionando os muitos representantes estrangeiros com cardápios de marcado acento nativo.

Mas quando estava reunido entre amigos ou com políticos brasileiros, não hesitava. O prato principal servido aos correligionários era sempre um só: o típico churrasco gaúcho.

Dizem os que conheceram o ex-presidente na intimidade que ele tinha um apetite voraz por carne vermelha, ao ponto de impressionar os convidados à mesa pela enorme quantidade de proteína animal que conseguia ingerir, de uma vez só, em ocasiões do gênero.

Isso, sem dúvida, era herança da infância e da juventude vividas nos pampas, onde, desde menino, Getúlio foi iniciado no ritual de abater e carnear o boi, para depois sentar em volta do fogo com os companheiros de estância e observar o lento crepitar das brasas e das chamas conferindo cor, aroma e sabor às fibras sangrentas, sorvidas na forma de nacos fumegantes.

De acordo com o escritor riograndense Pedro Vergara, os antigos e bravos gaúchos faziam desse ato uma cerimônia quase sagrada, em que a necessidade, a morte e a festa andariam juntas. “Não se pode comer sem matar; isso foi autorizado aos homens por uma divindade que se comprazia do cheiro da carne assada.”

Em família, à hora do almoço, Getúlio cultivava deleites mais frugais. O frango cozido ou assado era quase uma instituição no Palácio Guanabara, então residência oficial da Presidência da República. Darcy, a primeira-dama, reservava para o marido o osso em forma de forquilha do peito da galinha. Os filhos já sabiam que saborear a carne branca que envolvia o ossinho era um dos prazeres prediletos do pai à mesa.

Fosse em prosaicos jantares domésticos ou em solenes ágapes oficiais, uma coisa Getúlio jamais dispensava: o robusto havana após a xícara de café quente.

Todas as noites, para fazer o “quilo”,  gostava de sair caminhando a pé pela praia do Flamengo, com seu característico paletó de linho branco e o par de sapatos bicolores, deixando atrás de si um rastro de baforadas no ar.

O hábito de fumar charutos – os de sua predileção eram os da marca Soberano e Mil e Uma Noites – também provinha da mocidade. Nas prateleiras da pequena biblioteca particular do jovem acadêmico de direito Getúlio Vargas, as páginas dos livros de Nietzsche, Darwin, Saint-Simon, Zola, Euclides da Cunha e Aluísio Azevedo, então seus autores favoritos, recendiam a tabaco e, também, a erva-mate moída.

O chimarrão, como não poderia deixar de ser, era outra das paixões do gauchíssimo Getúlio. Por vezes, despachava com ministros e auxiliares de cuia na mão, a bombilha de prata nos lábios.

Exímio observador, dono de invulgar faro político, Getúlio afirmava que só se conhece bem um interlocutor diante de um bom prato de comida. Desconfiava dos que o cercavam cheios de salamaleques e rapapés, mas que em público se diziam desinteressados por cargos, benesses e sinecuras. Considerava que esses eram os mais gulosos de poder.

“Conheço bem esses que se sentam à nossa mesa e fazem de conta que não querem comer. São justamente os de maior apetite.”

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