Na mesma lata de sardinha

 Carlos Lessa

A qualidade da vida urbana é um ingrediente-chave na vida da maioria das famílias brasileiras. Com 80% de nossa população urbana e 50% metropolitana, são variadas as dimensões definidoras dessa qualidade. Entre essas dimensões, ocupa um lugar-chave a questão da mobilidade. De forma simplificada, podemos dizer que cada integrante da sociedade urbana dedica ao trabalho ou atividade remunerada um terço das suas 24 horas diárias.

Outro terço é usado para dormir. Sobram oito horas diárias para todas as demais atividades que não a obtenção de renda monetária, isto é, para as atividades ligadas à fisiologia individual, à convivência e lazer com amigos e família, a compras e, por vezes, ao aperfeiçoamento cultural e profissional. Ao menos em tese, cada um é soberano em relação a este tempo de existir.

O tempo de existir é essencial e universalmente afetado pelos deslocamentos residência-trabalho-residência. Para quase todos, o tempo gasto nos deslocamentos é monótono, angustiante e, de certa forma, jogado fora, o que aponta para a óbvia importância da malha urbana, dos serviços de transporte público ligados ao deslocamento pela malha e à organização, tipo, quantidade e modalidades de utilização de veículos de transporte de pessoas e mercadorias. Mesmo quando o habitante que se desloca a pé em direção ao trabalho ou atividade, muitas vezes é obrigado a fazer outros deslocamentos que dependem da mobilidade urbana. Se o cidadão urbano, notadamente o pobre, tiver necessidade de horas adicionais no trabalho, é mais punido.

No Brasil, cresceu de forma explosiva a população de veículos automotores. Creio que, no Rio, andou próxima a 10% ao ano; em Brasília, por mais de uma década, cresceu cerca de 15% ao ano. Taxas parecidas foram vivenciadas nas demais cidades, inclusive nas médias. É o resultado de uma política míope que privilegiou, no combate à inflação, o corte do investimento público e, para sustentar a atividade econômica, facilitou e estimulou um intenso endividamento familiar. A opção governamental por estimular a venda de veículos – houve momentos em que a entrada zero foi combinada com o pagamento em 90 prestações – possibilitou à indústria automobilística um céu de brigadeiro nesta última década, porém o “nanismo” e a hipertrofia míope e de curto prazo do investimento na cidade engendrou o caos.

ENDIVIDAMENTO

Muitos festejaram o acesso ao veículo automotor próprio, ignorando o custo do combustível, da manutenção e da fiscalidade associado ao “patrimônio” da posse do veículo. É comum a família endividada, pressionada pelos custos, deixar o veículo próprio estacionado e voltar ao péssimo transporte público. O pior acontece quando quer vender o veículo já usado e descobre que o mercado de segunda mão não paga sequer o correspondente à dívida residual. Por outro lado, o congestionamento tem uma dimensão universal, que incorpora desde o ônibus velho ao BMW. Somente escapa o arquimilionário que tem heliporto na residência e no escritório. Todas as faixas etárias e níveis de renda são incomodados pela degradação da qualidade de vida. Este pano de fundo tem tudo a ver com o início das manifestações.

A GOTA D’ÁGUA

O aumento das tarifas de transporte coletivo urbano foi gota d’água que produziu uma metamorfose espetacular.

Uma novíssima geração de brasileiros foi para as ruas protestar e se situar como sujeito que faz história. O paradigma das antigas mobilizações foi estruturalmente modificado com a rapidez do uso de redes sociais. O tradicional “correio” boca-a-boca e alguma liderança convocatória não explicam a velocidade, intensidade e espacialidade com que o aumento tarifário se transformou num fenômeno político de massa que, rapidamente, preencheu um primeiro ato com uma gigantesca lista de rejeições, reclamações, sugestões e reivindicações. Sem a pretensão de interpretar esse fenômeno, quero colocar algumas questões para reflexão.

A questão urbana inspirou toda uma pauta que se iniciou no transporte e se encaminhou para os serviços de saúde, educação e segurança. A corrupção foi colocada como variável explicativa, e a pauta transbordou, colocando sob acusação o sistema de partidos, as representações políticas e algumas instituições públicas mais visíveis. A pauta cresce e tende a se diversificar. Lendo os cartazes, é possível perceber ânimo, ironia, amor, desinformação etc.

É surpreendente e sintomática a rejeição da ideia do “circo” substituindo o “pão”. O futebol, alegria do povo, foi colocado entre parêntesis. Desde a mutilação do Maracanã, no Rio de Janeiro (a reforma custou 1,2 bilhão de reais para reduzir à metade o número de lugares) passando pelo Mané Garrincha (que, em Brasília, foi iniciado com orçamento de 650 milhões de reais e custou 1,4 bilhão de reais) e com os demais estádios das cidades brasileiras sendo convertidos em “casas de ópera” (onde o povo brasileiro não pode mais torcer em pé e o povão terá que pagar uma entrada cara e proibitiva), cristalizou-se, pela visibilidade e interesse do povo brasileiro pelo futebol, a dimensão de corrupção (provável) e subserviência à FIFA.

O governo brasileiro abriu mão de sua soberania, ao autorizar a venda de bebida alcoólica à minoria que pode pagar ingresso; atropelou o espaço urbano atendendo à exigência da FIFA de uma circunferência de isolamento de três quilômetros em torno de cada estádio utilizado nos jogos da FIFA (essa exclusão foi anunciada pelo Ministério do Planejamento, quando propôs feriado no período dos jogos da FIFA, a partir da pergunta de como ficaria o congestionamento). O povo leu tudo isso como um imenso “conto do vigário”, que macula a paixão pelo futebol com renúncia à soberania e pretexto para processos de corrupção. O povo formou uma grande “torcida” participativa.

 OS CARTAZES

Sei que muitos manifestantes tem uma reflexão própria bastante amadurecida, e é interessante observar os “diálogos” dos cartazes, por exemplo: ao lado de um cartaz que diz; “imposto zero”, está outro outro que diz “mais verbas para a educação e saúde”. Os cartazes, em uma sociedade televisiva, são feitos e empunhados por muitos manifestantes com a óbvia preocupação de serem captados pela lente do fotógrafo e da televisão. Ilustra isso um cartaz em português e inglês, cujo autor afirmou que, assim, tinha maior probabilidade de ser captado pela TV internacional (o “eu”, corporificado no cartaz, está aqui; eu existo!).

Estou certo que haverá o debate e prevalecerá a vontade política da maioria. Estou certo que estas manifestações são apenas a primeira voz que apontará para um projeto nacional. Sei que esta é a provável evolução da novíssima geração de atores políticos brasileiros. A preliminar do “eu” tende a constituir o “nós”. Este resgate da participação pública, desde o início, está acompanhado pelos símbolos da nação: bandeiras, hinos, músicas. A manifestação, no sentido operacional, é majoritariamente, uma “torcida” pelo Brasil, e tem uma componente saudável de festividade, como a linda a manifestação dos pais com seus bebês.

É deslumbrante ver gente espontaneamente  fornecendo comida para os jovens que estavam acampados exigindo o diálogo com o governador Sérgio Cabral, e também para os guardas que ali estavam bloqueando o acesso. Há um simbolismo na vinda de manifestantes da Rocinha com cartazes dizendo “queremos melhor ensino e saúde na comunidade” e “dispensamos o teleférico”.

Como velho professor, estou encantado em ver a novíssima geração representar nossa gente. Sou da geração que abriu os olhos políticos com o suicídio de Vargas e a campanha “O petróleo é nosso”; militei pelo novo Estado de direito desde o exílio e até a Constituição de 1988, e assisti sua mutilação por mais de 50 Emendas Constitucionais. Não aceitei o Consenso de Washington. Vi a ideia da “globalização” ser vendida como ensina um velho provérbio turco: “se quereis vender um corvo, pinte-o rouxinol”.

Tenho confiança na acelerada pedagogia das manifestações. É acelerada a educação política dos manifestantes. Um povo que se manifesta, no limite, tudo pode; transporta, dentro de si, um futuro melhor. Dentro do coração de cada manifestante há a potencialidade da civilização brasileira. Este é um passo decisivo para a periferia do mundo e o início de uma modificação significativa das relações geopolíticas do Brasil com a hispanoamérica e com a África. Um gigantesco passo para a história brasileira foi ensaiado com as manifestações convocadas pela má qualidade da vida urbana. (artigo enviado por Mário Assis)

Carlos Lessa é ex-reitor da UFRJ e ex-presidente do BNDES

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5 thoughts on “Na mesma lata de sardinha

  1. Exmo.Carlos Lessa o senhor tentou ajudar a Varig nos idos de 2006 quando era Presidente do BNDES. Infelizmente os senhores do poder na época que mandavam no dinheiro não permitiram o salvamento desta que foi uma grande empresa aérea brasileira e que tantos serviços prestou a Nação Brasileira e ao Povo Brasileiro.
    E agora Exmo. ex.reitor e ex.presidente do BNDES o Exmo. Ministro Joaquim Barbosa colocou uma pá de cal sobre todos os aposentados e pensionistas do Fundo de Pensão AERUS VARIG E TRANSBRASIL ao indeferir uma Antecipação de Tutela que tiraria todos de uma situação terrivel para não dizer desesperadora.

    Infelizmente o Exmo Presidente do STF, Ministro Joaquim Barbosa indeferiu uma Antecipação de Tutela que poderia em muito resolver o grave problema dos aposentados e pensionistas do AERUS VARIG E TRANSBRASIL. Esta decisão tomada no dia 13 de julho de 2012 pelo Exmo.Dr.Juiz Jamil Rosa de Jesus Oliveira vai fazer um ano no próximo dia 13 de julho de 2013 e até agora os milhares de aposentados que pertencem a este Fundo de Pensão nada tem a comemorar com esta importante decisão tomada lá atrás. O pior disto tudo é que os aposentados e pensionistas do AERUS VARIG E TRANSBRASIL só tem mais 1 mês de pagamento do já pequeno benefício. Joaquim Barbosa manteve sua decisão de 3 anos atrás ( março de 2010 a Antecipação de Tuleta foi ao plenário do STF ) quando votaria pela Antecipação de Tulela mas em 2ª instancia. Aproximadamente 838 aposentados e pensionistas já faleceram sem terem os seus direitos e a sua dignidade de volta. Uma pena Exmo. Ministro Joaquim Barbosa. O porque de vossa decisão atual? Já não bastou o governo federal nos virar as costas desde 2006?
    A Justiça para o trabalhador brasileiro é sempre demorada e lerda.

  2. Sr. Carlos Lessa, ótimos esclarecimentos, grato; mas pergunto: para o pão e circo, onde estão os Tribunais de Contas\? os Ministérios Públicos, para estes foram honrados com a passeata de milhões para defender os CIDADÃOS(ÃS, COM A SAFADEZA QUE OS POLITIQUEIROS DO CONGRESSO CORRUPTOS, COM A PEC 37.
    Quantos aumentaram suas fortunas com esse pão e circo!?; o “Zé e Maria Povinho” morrendo ou ficando aleijado nas Unidades de Saúde, e recebendo ensino de 5ª categoria nas Escolas, que recebem migalhas, como favor dos governos!?
    Lembro-me que o Sr. foi defenestrado do BNDS, por não compactuar com “safadezas”, do S na sigla.
    Consciência tranquila PELO dever digno cumprido, é o que levamos dessa VIDA.
    RUI atualíssimo, e De Gaulle, certo!.

  3. GOVERNO JOÃO GOULART

    Parlamentarismo
    – Chefe de Estado: Presidente

    – Chefe de Governo: Primeiro-ministro:
    — Tancredo Neves – set-1961/jul-1962
    — Francisco Brochado da Rocha
    ————————– jul-1962/set-1962
    – Hermes Lima —— set/1962-jan/1963

    Presidencialismo: jan-1963/mar-1964
    Chefe de Estado e Chefe de Governo:
    —————–Presidente João Goulart

    ————————————————–
    Gabinete Tancredo Neves –
    AERONÁUTICA – Clóvis Travassos;
    AGRICULTURA – Armando Monteiro Filho;
    CASA CIVIL – Hermes Lima;
    CASA MILITAR – Amaury Kruel;
    EDUCAÇÃO – Oliveira Brito;
    EXTERIOR – Santhiago Dantas;
    FAZENDA – Walter Moreira Salles;
    GUERRA – João Segadas Viana;
    IND E COMÉRCIO – Ulisses Guimarães;
    JUSTIÇA – Alfredo Nasser;
    MARINHA – Ângelo Nolasco;
    MINAS E ENERGIA – Gabriel Passos;
    SAÚDE – Estácio Souto Maior;
    TRABALHO – Franco Montoro;
    VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS – Virgílio Távora.

    Gabinete Francisco Brochado da Rocha
    ——————————— (jul-set/1962)
    AERONÁUTICA – Reinaldo de Carvalho Filho;
    AGRICULTURA – Renato Costa Lima;
    CASA CIVIL – Hermes Lima;
    CASA MILITAR – Aurèlio de Lira Tavares;
    EDUCAÇÃO E CULTURA – Roberto Tavares de Lira ;
    EXTERIOR – Afonso Arinos;
    FAZENDA – Walter Moreira Salles;
    GUERRA – Machado Lopes e Nelson de Melo;
    IND E COMÉRCIO – José Ermírio de Morais;
    JUSTIÇA – Cândido de Oliveira Neto;
    MARINHA – Pedro Paulo de Araújo Suzano;
    MINAS E ENERGIA – João Mangabeira;
    SAÚDE – Manoel Cordeiro Vilaça
    TRABALHO – Hermes Lima;
    VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS – Hélio de Almeida.

    Gabinete Hermes Lima – set/1962-jan/1963
    AERONÁUTICA – Reinaldo de Carvalho Filho;
    AGRICULTURA – Renato Costa Lima;
    CASA CIVIL – Amaury Kruel, Albino, Assis Brasil;
    CASA MILITAR – Aurério de Lira Tavaes;
    EDUCAÇÃO E CULTURA – Darcy Ribeiro;
    EXTERIOR – Hermes Lima;
    FAZENDA – Miguel Calmon;
    GUERRA – Amauri Kruel;
    IND E COMÉRCIO – Otávio Dias Carneiro;
    JUSTIÇA – João Mangabeira;
    MARINHA – Pedro Paulo de Araújo Suzano;
    MINAS E ENERGIA – Eliezer Batista da Silva;
    SAÚDE – Elizeu Paglooli;
    TRABALHO – Hermes Lima;
    VIAÇÃO e O. PÚBLICAS – Hélio de Almeida;
    SEM PASTA – Celso Furtado.

    Presidencialismo: jan-1963/mar-1964
    Chefe de Estado e Chefe de Governo:
    —————–Presidente João Goulart

    AERONÁUTICA – Reinaldo de Carvalho Filho e
    Anízio Botelho;
    AGRICULTURA – José Ermírio de Morais e
    Oswaldo Lima Filho;
    CASA CIVIL – Evandro Lins e Silva e
    Darcy Ribeiro;
    CASA MILITAR – Argemiro de Assis Brasil;
    EDUCAÇÃO – Teotônio Monteiro de Barros,
    Paulo de Tarso Santos e Júlio Tambaqui;
    EXTERIOR – João Augusto de Araújo Castro,
    Evandro Lins e Silva e Araújo Castro(bis);
    FAZENDA – Carvalho Pinto e Ney Galvão;
    GUERRA – Amauri Kruel e Jair Dantas Ribeiro;
    IND E COMÉRCIO – Antôni Balbino;
    JUSTIÇA – Abelardo Jurema;
    MARINHA – Paulo Bozísio e Sílvio Mota;
    MINAS E ENERGIA – Eliezer Batista da Silva e
    Oliveira Brito;
    SAÚDE – Paulo Pinheiro Chagas e Wilson Fadul;
    TRABALHO – Almino Afonso e Amaury Silva;
    VIAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS – Hélio de Almeida
    e Expedito Machado Pontes;
    *Min Extraordinário para Assuntos de
    Desenvolvimento Econômico
    – CELSO FURTADO;
    *Min Extraordinário para a Reforma
    Administrativa – AMARAL PEIXOTO.

  4. Professor, em tempo, se não me falha a memória os jatos da Embraer (EMB-135 e 145) foram devolvidos ao BNDES pela Rio-Sul e doados à FAB durante sua gestão.

  5. Sensacional artigo do mais conceituado presidente do BNDES de todos os tempos.

    As manifestações dos jovens brasileiros demonstram que há vida inteligente no seio da sociedade brasileira. E como não poderia deixar de ser, a reação ao status quo veio da juventude, da classe média esclarecida, dos meninos e meninas que miram um futuro melhor para suas vidas. Assim foi na Revolução Francesa e em todas as Revoluções Sociais.

    A eclosão da Primavera Árabe, primeiro na Tunísia, depois no Iêmen, no Egito, na Líbia, na atual guerra civil na Síria, nas manifestações na Turquia do autoritário Erdogan, no Ocupe dos Estados Unidos, nas manifestantes da Grécia, da Espanha, de Portugal e aqui no nosso Brasil refletem uma chama de mudança no ar.

    A Economia não vai bem nos quatros cantos do planeta. A reação é sinérgica, como um ataque contra o perigo de uma hecatombe global. A luz vermelha acendeu nas consciências, não dá mais para segurar, o grito de alerta foi dado, nas palavras do saudoso Gonzaguinha.

    Uma nova ordem social se tornará fundamental para impedir a explosão das sociedades, combustível de alta periculosidade manifestado pela ojeriza às desigualdades entre ricos e pobres crescendo sem parar. Agora, o sistema de poder internacional liderado pelos EUA estará preparado para entregar os anéis ou insistirão na política suicida do colonialismo econômico e militar sem precedentes, principalmente depois do fim do Império Soviético e a derrubada do Muro de Berlim?

    Definitivamente o momento é de mudanças e não se trata daquelas mudanças para tudo continuar o mesmo de sempre.

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