Na ONU, ao defender imprensa livre, Dilma respondeu ao PT de Dirceu

Pedro do Coutto

Em momentos diversos, nos dois primeiros dias da reunião da ONU 2011, a presidente Dilma Roussef aproveitou o cenário internacional para, ao defender a imprensa livre, responder no plano nacional à corrente do PT de José Dirceu que propõe exatamente o contrário e se transformou, claramente, no principal  foco da oposição a seu governo.

Na terça-feira, 20, ao participar, ao lado de Barack Obama, de mesa redonda sobre transparência política e administrativa, destacou o papel da liberdade de imprensa como instrumento de combate à corrupção. Sobre este tema, reportagem de Cristiane Jungblut e Fernanda Godoy, O Globo de 21, publicou o pronunciamento com exclusividade. O que até surpreende, já que o painel foi aberto aos jornalistas que se encontravam em Nova Iorque.

A impressão que tenho é que Jungblut e Godoy perceberam melhor a exatidão e o endereço do recado. Mensagem, digo eu, ao principal reduto oposicionista que não se encontra hoje em São Paulo, mas no Hotel Naoum, Brasília. Mas esta é outra questão. O fato é que Dilma Roussef, em seu primeiro pronunciamento, por diversas vezes, concentrou-se no impulso de exaltar a importância de uma imprensa livre sem constrangimento governamental.

A corrente do ex-ministro-chefe da Casa Civil propõe controle da mídia, como se isso fosse possível. Não é. É mais viável controlar-se a corrupção do que a informação. Até porque a informação é um direito de todos. A corrupção constitui crime praticado por alguns. Bem, o primeiro pronunciamento ocorreu na terça-feira. O segundo na quarta, quando a presidente abriu a sessão anual.Focalizando o conflito e as contradições do Oriente Médio, Dilma afirmou: O Brasil é pátria de adoção de muitos imigrantes daquela parte do mundo. Os brasileiros se solidarizam com a busca de um ideal que não pertence a nenhuma cultura, porque é universal: a liberdade. É preciso, continuou ela, que as nações aqui reunidas encontrem uma forma legítima e eficaz de ajudar as sociedades que clamam por reforma, sem retirar de seus cidadãos e condução do processo.

Mais adiante, acentuou: O autoritarismo, a xenofobia, a miséria, a pena capital, a discriminação são algozes dos direitos humanos. Há violações em todos os nossos países, sem exceção. Reconheçamos esta realidade e aceitemos, todos, as críticas. Devemos nos beneficiar delas. E criticar, sem meias palavras, os casos flagrantes de violação, onde quer que ocorram.

Mais claro, impossível. E na parte final, criando momento raro na história da ONU, acrescentou: Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da democracia, da justiça, dos direitos humanos e da liberdade. Basta ler o texto inserido apropriadamente no contexto para se ter certeza de que as palavras da presidente não foram lançadas ao vento, mas se dirigiram a alguns endereços certos. Principalmente aos que se opõem à liberdade (dos outros) querendo fazer prevalecer a sua versão, seja falsa ou real.

É o tal negócio: querem a democracia quando precisam dela, tornam-se adeptos da opressão e da supressão da imprensa quando tal perspectiva os ajuda em seus negócios. Negócios de poucos, mas que causam permanentemente prejuízos a milhares de seres humanos. É o caso da corrupção, contra a qual a sociedade brasileira se revolta. E, no fundo, só encontra, para o combate, a imprensa a seu lado.Por estas razões, assinalo ser bastante importante a leitura serena e desapaixonada dos dois primeiros pronunciamentos de Dilma Roussef na ONU. Com eles, traçou para si mesma e para o país um compromisso sem retorno.

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