Na terra da Gabriela

Sebastião Nery

ILHEUS (BA) – Em 1934, Juracy Magalhães, interventor, mandava e desmandava na Bahia. J.J.Seabra, Otávio Mangabeira e outros lançaram o “Movimento Autonomista” com o slogan: “A Bahia ainda é a Bahia”. João Mangabeira veio a Ilhéus fazer comício contra Juracy. Gileno Amado, primo de Jorge e irmão de Gilberto, Genolino, os irmãos Amado, preparou uma vaia para Mangabeira. Começou a falar, a vaia urrou. Mangabeira reagiu:

– Essa canalha assalariada de Juracy …

Virou tiroteio. Demóstenes Berbert de Castro, líder dos estudantes contra Juracy, tentou entrar embaixo de um carro, mas já encontrou lá, acoitado, Carlos Pereira Filho. O “coronel” Henrique Alves, chefe político, foi à casa de Gileno:

– O que acontecer ao dr. João Mangabeira, acontece com você.

Mangabeira falou em paz.

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O CORONEL

Henrique Alves, “coronel” de Ilhéus, compadre de João Mangabeira, saltou em Salvador em 1922, de um navio da Navegação Baiana, com seu terno branco de palha de seda, sapato de duas cores, bengala e chapéu panamá. Havia um comício da oposição, em frente ao café Pirangi, na Cidade Baixa. Houve um corre-corre, pisaram no pé do “coronel”. Ele agarrou o homem pelo braço:

– Meu amiguinho, estou chegando de viagem, não venho vendendo valentia nem comprando covardia. Da próxima vez olhe onde anda meu pé.

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LÁ E CÁ

O “coronel” Pedro Longo, líder político de Itacaré, não aguentou mais ser perseguido por Ataíde Setúbal, aliado de Juracy. Foi a Salvador, pediu audiência no Palácio Rio Branco, conversou com o interventor.

Uma hora depois, saía de lá com sua barba branca, bengala, chapéu panamá, encontra, na Rua Chile, João Mangabeira, chefe da oposição:

– Mas até você, Pedro Longo, já aderiu a esse tenentinho cearense?

– Chefe, não se incomode. Estou lá, mas estou cá.

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O PREFEITO

Ariston Cardoso, prefeito de Ilhéus, foi um dos delegados da Arena baiana à eleição de Geisel, pelo colégio eleitoral “biônico”, em 73. Voltou todo feliz, contando as venturas e aventuras de um eleitor presidencial.

Armando Oliveira, dos melhores textos da imprensa baiana, tinha sua coluna no “Diário da Tarde de Ilhéus”. Escreveu a odisséia de Ariston: – O prefeito Ariston Cardoso chegou de Brasília de mãos inchadas de tanto aplaudir tamanho civismo.

Em lugar de um “v” saiu um “n” . Em vez de “civismo”, “cinismo”.

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OS IRMÃOS

Jorge Medauar, baiano, poeta, romancista, publicitário, era diretor da sucursal do Globo em São Paulo. Jorge Medauar, baiano, advogado, deputado, candidato a prefeito de Ilhéus, chefe da Casa Civil do governador Roberto Santos, Secretário de Justiça do Estado, morava em Salvador.

Toca o telefone em casa de Jorge Medauar, o poeta :

– Alô, é o Dr. Medauar? Dr. Medauar, estou lendo na “Folha” que o senhor acaba de ser nomeado Secretário de Justiça da Bahia. Estou telefonando para lhe dar os parabéns. Aqui em casa estamos todos muito felizes. Minha filha gosta muito de seus livros. São poemas lindos. “Histórias de Água Preta” é um livro maravilhoso, dr. Dr. Medauar! Estamos perdendo o senhor mas a Bahia vai ganhar muito.

– Obrigado, mas há um engano. O Jorge Medauar que foi nomeado Secretário de Justiça na Bahia não sou eu não: é meu primo, faz política lá.

– Ah, quer dizer que o senhor não é o secretário? E bateu o telefone.

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SÁ BARRETO

Terra de Gabriela, a menina-gazela, e de João Mangabeira e Adonias Filho, Ilhéus também é a cidade de Raimundo Sá Barreto, o saudoso “senador”, que publicou suas memórias: “Notas de um Tabelião”.

É meio século de política. Quando estourou a Revolução de 30, o tenente José Anselmo, mulato, alto, tocador de clarineta, boêmio, semi- analfabeto, comandante do Tiro de Guerra, primeira autoridade militar de Ilhéus, entendeu que era sua hora. Prendeu o prefeito, genro do coronel Mário Pessoa, prendeu o coronel, prendeu meia cidade. Achou pouco. Criou o “Estado do Sul da Bahia”. E declarou-se governador. Foi preso.

Em 1950, João Mangabeira disputou a Presidência da República pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro), contra Getúlio Vargas e o brigadeiro Eduardo Gomes. Em Ilhéus, tinha sido o grande advogado e líder político dos anos 30, o “Dr. Mundinho” do romance “Gabriela”. As urnas abriram, a decepção: 120 votos. Ninguem é profeta em sua terra. Só ela, Gabriela.

 

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