Nada de plebiscito, Dona Dilma

Carlos Chagas

Escorregou a ministra Dilma Rousseff ao enfatizar que a sucesso presidencial ser travada entre as concepes de governo do Lula e de Fernando Henrique. Primeiro, porque se ela pode estar sendo tutelada pelo presidente da Repblica, nem por isso Jos Serra deve receber o rtulo de marionete do socilogo. Muito pelo contrrio.

Depois, e principalmente, porque a equao plebiscitria saiu pelo ralo com a entrada de Marina Silva e Ciro Gomes na disputa. Continuando as coisas como vo, a batalha inicial ser travada entre trs postulantes ao segundo turno das eleies, Dilma, Ciro e Marina, de um lado, e Serra j com lugar garantido para a deciso final, de outro.

Tentar vestir o palet do Lula natural, para a chefe da Casa Civil, mas precisar reparti-lo com os outros dois concorrentes, ao tempo em que o bon de Fernando Henrique no cabe na cabea de Jos Serra. Jamais o candidato do PSDB se apresentar na campanha como um fiel seguidor do ex-presidente. J eram conhecidas suas divergncias no tempo em que foi ministro do Planejamento e da Sade, adversrio do neoliberalismo e da maior parte das privatizaes praticadas no perodo. Confrontar a poltica de FHC com a do Lula, s se ambos fossem candidatos. verdade que Serra anda atrs da marca que o caracterize, algo mais ou menos como a pausa que refresca ou sucedneo. Jamais, porm, subir nos palanques prometendo a volta ao passado. Seria suicdio e desperdcio do potencial por ele apresentado nas pesquisas eleitorais, gerado mais pelo conhecimento despertado na populao pelo seu nome, do que propriamente por uma caracterstica especfica. H tempo para sair do casulo, mas deve cuidar-se em no se apresentar como defensor da moral pblica, caador de marajs ou reformador social. Um bom marqueteiro no ter dificuldades em chegar frmula ideal.

Em suma, plebiscito no haver, no primeiro turno das eleies do prximo ano. No segundo, talvez, mas apenas do lado de Dilma, se ela conseguir chegar ao segundo turno.

O outro Congresso Nacional

Desperta cada vez mais perplexidade a ausncia do Congresso Nacional, mas no se trata da performance de deputados e senadores. Trata-se de outro Congresso, aquele que o PMDB realizaria em novembro se no tivesse sido mandado para o espao. A perplexidade, assim, repousa nas bases do partido, garfadas pelas cpulas decididas a apoiar a candidatura de Dilma Rousseff sem qualquer consulta, debate ou discusso a respeito da candidatura prpria ou da elaborao de um programa mnimo para o prximo governo.

O irnico nessa histria que apenas vozes bissextas levantam-se para protestar.O senador Pedro Simon um deles, cobrando com freqncia a realizao daquilo que os caciques prometeram mas logo abandonaram.

Aconteceria o qu, caso as bases peemedebistas pudessem reunir-se num Congresso Nacional? Provavelmente se ouviria um grito de revolta pelo desprezo a elas dedicado pela direo do partido. Com certeza, manifestaes favorveis ao lanamento de um candidato sado dos quadros do partido, Roberto Requio, Sergio Cabral ou qualquer outro. Atuariam tambm, claro, os partidrios de Dilma Rousseff, e at os ligados a Jos Serra. A deciso final, pelo menos, seria democrtica, jamais imposta de cima para baixo, como a que anunciaro em poucos dias.

A farra nas Naes Unidas

Pouca gente se deu conta, entre escndalos bem maiores, da repetio, este ano, da permanente revoada de grupos de deputados e senadores para Nova York. sempre a a mesma coisa. Com passagem, estadia e rgias ajudas de custo para eles e as respectivas, entre outubro e novembro suas excelncias passam uma semana na capital do mundo. O pretexto de funcionarem como observadores dos trabalhos da Assemblia Geral das Naes Unidas.

A maioria nem passa perto do simblico prdio posto s margens do rio Hudson, quanto mais do plenrio das sesses. E os raros que chegam imbudos da excepcional misso logo se frustram, porque ningum d bola para suas presenas. Caem no ridculo aqueles empenhados em apresentar projetos e sugestes. Na verdade, s do trabalho aos jovens diplomatas escalados para receb-los no aeroporto, lev-los aos hotis e ficar disposio para recomendar lojas de departamentos ou reservar mesas nos restaurantes da moda. De volta, s uns poucos costumam ocupar as tribunas da Cmara e do Senado para prestar contas das viagens. Os outros, como relatrio, apenas poderiam referir as peas assistidas nas proximidades da Times Square.

preciso regulamentar

Quando presidente da Repblica, Fernando Collor extinguiu o Servio Nacional de Informaes, mandando ao Congresso projeto regulamentando o Servio Nacional de Inteligncia, depois denominado Agencia Brasileira de Inteligncia, no governo Fernando Henrique. O problema nem um nem outra foram at hoje regulamentados, quer dizer, sua estrutura carece de atribuies especficas. Como os tempos so outros, desde que o general Golbery do Couto e Silva referiu ao monstro que eu criei, a Abin mais parece um filho enjeitado do governo Lula. Duvida-se, at, que o presidente receba e leia, todos os dias, boletim reservado que a instituio deveria preparar, informando-o sobre fatos nacionais e estrangeiros.

Na semana que passou, na sesso que trocou a interinidade do atual diretor da Abin pela efetivao, Fernando Collor aproveitou para lembrar alguns horrores que conseguiu interromper, como a bisbilhotice do SNI na vida privada dos adversrios do regime militar e o escancarado poder que detinham seus mentores. Cobrou a elaborao de um cdigo de conduta tica para os agentes da Abin e defendeu a necessidade do controle externo de suas atividades, depois do que o sistema de informaes poder funcionar a contento.

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