Não dá para apagar o passado (ou Sobre os poderes de Deus)

Carlos Chagas

Voltaire indignou-se com o estudo da História, no seu tempo, para ele nada mais do que um relato de crimes e de infortúnios. E acusou: “transformamos o passado para que fique de acordo com os nossos desígnios para o futuro”.

Tanto tempo depois a lição continua válida. Querem apagar o passado para garantir o futuro, prática, aliás, usual na alegoria do “Grande Irmão” de George Orwell e no reinado de Joseph Stalin e mesmo depois dele, na União Soviética, quando os adversários dos governantes eram simplesmente suprimidos dos livros e da imprensa. Não deixa de ser cômico o desaparecimento de Leon Trotski nas fotografias ao lado de Lênin, bem como o súbito aumento do verbete sobre o Estreito de Bering, na Enciclopédia Russa, por conta da supressão do texto anterior e longo, sobre Beria, caído em desgraça.

Lula sabia?

Fala-se da mentira sobre o mensalão não ter existido e da acusação de que tudo não passa de uma conspiração dos setores conservadores empenhados em apagar a obra do presidente Lula.

Primeiro porque os oito anos de governo do primeiro-companheiro são inapagáveis. O que ele realizou e conquistou, elevando o poder aquisitivo e a honra das massas será sempre lembrado. Como também não dá para esquecer que, à sua volta, executaram uma das maiores lambanças de toda a história da República, com a distribuição de dinheiro sujo em troca de votos nos partidos e na Câmara dos Deputados.

A História segue seu curso, agora por obra e graça do Supremo Tribunal Federal, tornando-se ridículo o manifesto encabeçado pelo PT e acolitado pelos demais partidos da base oficial, no sentido de que as elites querem destruir a obra do Lula.

Se o ex-presidente sabia ou não do escândalo, se o tinha estimulado ou não, é tema para depoimentos e livros de memória, mas apagar o passado em pleno início de Século XXI soa como piada de mau gosto.

Vale terminar o comentário como começamos, ou seja, com Voltaire. Na sua irreverência monumental, certo dia ele questionou um bispo: “ou Deus pode evitar o mal, mas não quer, ou quer evitá-lo, mas não pode”.

Já que Marta Suplicy comparou o Lula a Deus, vale completar: ele não quis evitar o mensalão, podendo, ou se quis, não conseguiu…

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DIA DE DEFINIÇÕES

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado deve sabatinar hoje o novo indicado pela presidente Dilma para ministro do Supremo Tribunal Federal, o jurista Teori Zavascki. Parece impossível que um dos senadores deixe de indagar se uma vez empossado ele pretende participar do julgamento do mensalão e se, em caso positivo, pedirá vistas do extenso processo para inteirar-se dele. Nessa hipótese, o julgamento estaria protelado por meses. Só a simples leitura dos autos tomaria tempo para ninguém botar defeito.

Parece ofensa à presidente da República e ao novo ministro supor que a indicação visava exatamente adiar os trabalhos para não se sabe quando. Pelo regimento do Supremo, no entanto, é possível. A atenção dos advogados dos réus transfere-se do plenário da mais alta corte nacional de justiça para a acanhada sala da CCJ do Senado. A reunião será à tarde.

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A VERDADEIRA PESQUISA

Sucedem-se as pesquisas de opinião a respeito das eleições para a prefeitura de São Paulo, transformadas num confronto nacional. Será sempre bom lembrar que pesquisa não ganha eleição, mas costuma ajudar. Como o mundo e o Brasil andam para a frente, desta vez os institutos de consulta popular não ofereceram seus números como num balcão de secos e molhados, beneficiando os que ofereceram mais. Os percentuais parecem de acordo com as tendências populares, talvez pelo inusitado de uma candidatura inexpressiva no plano partidário, quem sabe pela óbvia rejeição do eleitor aos tradicionais partidos políticos. O saldo, porém, é extremamente positivo, no que diz respeito às previsões. Claro que sempre tendo presente que pesquisa não ganha eleição.

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