Não é, mas será

Carlos Chagas

“Não sou candidato” disse mais uma vez  o ministro Joaquim Barbosa, agora em entrevista a Mirian Leitão, no Globo. Impossível duvidar da sinceridade do presidente do Supremo Tribunal Federal, que entre os motivos para justificar a negativa, elenca o fato de ser negro e de o Brasil não estar preparado para ter um presidente da República negro. Também alega não ser político e não ter laços com qualquer partido político.

Só que tem um problema no tempo do verbo. Não  é, hoje, encerrando a questão no  momento em que fala a uma jornalista. Ninguém garante que amanhã manterá a decisão, correndo por nossa conta e risco a projeção futura: poderá ser. Ou será . Citou as manifestações espontâneas da população, “onde quer que vá”. “Pessoas pedem para que eu me candidate e isso tem  se traduzido em percentual de alguma relevância, nas pesquisas”.

Barbosa deixa em aberto a hipótese pela simples referência a um estado de fato, as manifestações espontâneas e as pesquisas. Em especial quando erra no diagnóstico de o país não estar preparado para um negro no palácio do Planalto. Está sim, até  porque já  o tem na chefia do Poder Judiciário. A cor da pele servirá  mesmo como fator de simpatia eleitoral.

Quanto a não ser político, a correção surge óbvia: é sim, pelo fato de estar onde está. Deixando de filiar-se a um partido, apenas cumpre determinação constitucional, válida para todo juiz, desembargador e ministro. Em certo  momento da trajetória estimulada pela voz das ruas  receberá, como  já tem recebido, montes de convites para filiar-se a uma legenda qualquer, também em cumprimento da lei.  Lei, aliás,  capaz de ser mudada na  reforma política com a  aceitação do princípio das candidaturas avulsas, por ele  defendido.

Em suma, nada haverá que opor à afirmação do presidente do Supremo Tribunal Federal sobre não ser, hoje, candidato. Mas tudo a acrescentar diante da previsão de que, amanhã, poderá ser.

As recentes pesquisas realizadas depois das explosões de junho indicam o descrédito nas candidaturas clássicas já  postas, a começar por Dilma Rousseff. A reeleição deixou de ser uma certeza. Aécio Neves não decola como imaginaram os tucanos. Marina Silva ocupa lugar restrito na disputa, situada à esquerda do PT. Eduardo Campos abriga-se na sombra de um hipotético lançamento do Lula, equação à espera de fatores variados. À exceção da atual presidente, comprometida com a indicação de Michel Temer para seu vice, os demais candidatos gostariam de ter Joaquim Barbosa como companheiro de chapa. Inverta-se a ordem dos fatores  e se terá, ao contrário da aritmética, um produto  capaz de alterar a sucessão.

O restante da entrevista referida mais pareceu uma plataforma de candidato.  Um social-democrata à maneira dos europeus, saber gastar bem porque o Brasil gasta muito mal, racionalizar a máquina publica, falta de  honestidade nas pessoas com responsabilidade, necessidade da exposição da vida privada de pessoas altamente suspeitas da pratica de crimes, insatisfação generalizada no país, relações fraternas com jornalistas, necessidade de os meios de comunicação discutirem questões verdadeiramente nacionais, superação das dificuldades, discriminação racial  evidente – essas e outras questões integram uma entrevista de  candidato. Apesar de hoje não ser…

SÓ MAIS UM MÊS

Aguarda-se para esta semana a definição final da sorte dos mensaleiros. Tudo indica haver o Supremo Tribunal Federal  decidido encerrar a novela que já se arrasta inexplicavelmente. O cumprimento das sentenças de prisão aconteceria nos últimos dias de agosto, desprezados os embargos apresentados pelos advogados dos réus. Pode não haver unanimidade nessa decisão, por parte dos onze ministros da mais alta corte nacional de justiça. Mas maioria, há.

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4 thoughts on “Não é, mas será

  1. Eu queria saber aonde está o racismo evidente que o colunista cita na entrevista. JB está sendo questionado pelos seus atos e não por ser negro, por sua postura arrogante e intolerante e não pela cor da pele.

  2. Como dizem os jovens “esse é o cara” se tem alguem em que o povo brasileiro elegeria (obviamente desde que punidos os mensaleiros)seria o JB, não pela cor da pele, mas sim pela competência e credibilidade que depositamos nele.

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