Não é verdade que Dilma Rousseff pretendesse nomear Celso Amorim. Trata-se de mais uma intervenção direta de Lula, que continua se comportando como se ainda fosse presidente.

Carlos Newton

O mais importante jornal de Brasília, o “Correio Braziliense” publicou uma reportagem informando que a indicação de Amorim para a Defesa foi idealizada logo após Dilma Rousseff ter sido eleita. Afirma que a presidente queria nomear o então chanceler Celso Amorim desde os tempos do governo de transição no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, no fim do ano passado. Mas acabou cedendo à pressão do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e manteve Nelson Jobim no cargo.

A informação do Correio, porém, está completamente incorreta a esse respeito. Antes mesmo de ser eleita, Dilma Rousseff já tinha se decidido pelo nome que considerava ideal para comandar o Ministério da Defesa e que teria apoio integral e entusiástico das Forças Armadas. Conforme já revelamos aqui no blog, com absoluta exclusividade, trata-se de um ex-dirigente da Escola Superior de Guerra, que inclusive é amigo pessoal da presidente, mas teve que declinar do convite, por estar envolvido com importantes projetos na iniciativa privada, que dependem diretamente dele.

Dilma Rousseff, a contragosto, então aceitou a indicação de Nelson Jobim, feita diretamente pelo ex-presidente Lula. Mas assim que Jobim passou a dar trabalho, com suas declarações inconvenientes, a presidente voltou à carga e insistiu no convite ao ex-dirigente da ESG, que tem trânsito livre e amplo apoio das Forças Armadas, sendo amigo pessoal do general Oliva Mercadante, pai do atual ministro, e de grande número de oficiais superiores das três Armas.

Portanto, o “Correio Braziliense” se equivocou ao afirmar que Celso Amorim eram o nome preferido de Dilma Rousseff para a Defesa, mas acertou em cheio quando assinalou que a presidente sempre quis imprimir à pasta um perfil “mais estratégico e menos força bruta, semelhante a um batalhão de engenharia e logística”, segundo uma fonte palaciana ouvida pelo jornal.

Também não procede a informação divulgada pelo “Correio” de que Amorim tem a seu favor o fato de comungar da mesma noção de soberania nacional tão cara às Forças Armadas. Muito pelo contrário, conforme já divulgamos aqui no blog da Tribuna, os militares têm desprezo pelo ex-ministro das Relações Exteriores, por considerarem desastrada sua passagem pelo Itamaraty, em relação aos interesses nacionais, especialmente no tocante à estratégica questão da Amazônia.

Foi justamente essa gestão desastrada que impediu Amorim de permanecer no Ministério das Relações Exteriores. Amorim tentou continuar no Itamaraty, pediu pessoalmente a Lula para que interferisse na nomeação, mas a presidente Dilma Rousseff fez pé firme e optou por Antonio Patriota, ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana. A escolha já rendeu frutos: depois de tantas derrotas, o Brasil finalmente venceu uma eleição internacional, com a escolha de José Graziano para a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).

É sabido que Dilma Rousseff queria imprimir uma nova política externa, mais próxima dos Estados Unidos — eleito como grande inimigo na reta final do governo Lula — e menos ligada aos países que violavam os direitos humanos sob o argumento de “interesses comerciais”, como é o caso do Irã, que estranhamente contava com entusiástico apoio de Lula e de seu chanceler Celso Amorim.

Mas o “Correio” volta a acertar na mosca quando informa que, após eleita, Dilma manteve Jobim na pasta, mas foi, aos poucos, esvaziando suas atribuições. Primeiro, adiou a compra de caças para a Força Aérea Brasileira indefinidamente. Depois, escanteou o ainda ministro das articulações com o Judiciário. Por fim, empurrou para a frente os debates sobre os submarinos militares de propulsão nuclear. Por diversas vezes, Jobim pensou em pedir demissão, e era justamente o que Dilma queria, mas isso não significa, de forma alguma, que pretendesse optar por Amorim.

Na verdade, a nomeação do ex-chanceler é mais uma invenção do ex-presidente Lula, que decididamente ainda não desencarnou do poder, continua interferindo junto à presidente Dilma, e pelo visto não vai desencarnar nunca, pelo menos enquanto a chefe do governo não perder a paciência e colocá-lo no seu devido lugar. Mas será que algum dia isso irá acontecer?

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