Não há corrupção no governo e Dirceu é um santinho, que ficou milionário por acaso. A culpa é mesmo da imprensa.

Carlos Newton

Quando você se dedica à vida pública, uma das primeiras coisas que precisa aprender é tomar cuidado para não cair no ridículo. No caso do PT, o partido já está há oito anos e meio no poder, mas continua tomando decisões tão infantis que chegam a ser constrangedoras. A mais insistente delas é culpar a imprensa por tudo o que acontece.

Para seguir adiante nessa linha de raciocínio, convém conferir alguns trechos da Declaração Final do IV Congresso Nacional do PT, que vale à pena transcrever, para que as coisas fiquem bem claras.

Para o PT e para os movimentos sociais, a democratização dos meios de comunicação é tema relevante e um objetivo comum com os esforços de elaboração do governo Lula e os resultados da I Conferência Nacional de Comunicação, que evidenciou os grandes embates entre agentes políticos, econômicos e sociais de grande peso na sociedade brasileira. É urgente abrir o debate no Congresso Nacional sobre o marco regulador da comunicação social – ordenamento jurídico que amplie as possibilidades de livre expressão de pensamento e assegure o amplo acesso da população a todos os meios – sobretudo os mais modernos como a internet.

Mas o jornalismo marrom de certos veículos, que às vezes chega a práticas ilegais, deve ser responsabilizado toda vez que falsear os fatos ou distorcer as informações para caluniar, injuriar ou difamar. A inexistência de uma Lei de Imprensa, a não regulamentação dos artigos da Constituição que tratam da propriedade cruzada de meios, o desrespeito aos direitos humanos presente na mídia, o domínio midiático por alguns poucos grupos econômicos tolhem a democracia, silenciam vozes, marginalizam multidões, enfim criam um clima de imposição de uma única versão para o Brasil.

E a crescente partidarização, a parcialidade, a afronta aos fatos como sustentação do noticiário preocupam a todos os que lutam por meios de comunicação que sejam efetivamente democráticos. Por tudo isso, o PT luta por um marco regulatório capaz de democratizar a mídia no País.  As reformas institucionais não estarão completas se não forem acompanhadas da mais profunda democratização da comunicação. Além de tudo isso, as mudanças tecnológicas e a convergência de mídias precisam ser acompanhadas de medidas que ampliem o acesso, quebrem monopólios e garantam efetiva pluralidade de conteúdos.

Bem, como todos sabem, essa crítica à imprensa tem dois motivos: 1) as sucessivas denúncias de irregularidades que ocorreram e ocorrem em vários setores da administração pública federal; 2 ) a comprovação de que José Dirceu não desencarnou do poder e continua se reunindo sigilosamente com ministros e membros do segundo escalão do governo, que comparecem a seu gabinete informal, montado em dois quartos de hotel em Brasília.

Essas afirmações da Declaração Final do IV Congresso foram provocadas por esses dois episódios, não há a menor dúvida. Então, sigamos em frente.

O PT fala em “jornalismo marrom de certos veículos”, uma queixa que decididamente não se adapta ao caso. Os múltiplos episódios de corrupção relatados pela imprensa não foram divulgados por “certos veículos”, mas por praticamente toda a chamada grande imprensa, nela incluídos jornais, revistas, rádios, televisões e sites.

Houve denúncias que partiram da “Veja”, outras da “Folha” ou do “Estadão”, assim como da “IstoÉ”, da “Época”, de “O Globo” e do “Correio Braziliense”, que inclusive cobriu com absoluta exclusividade os escândalos nos Ministérios do Esporte e do Trabalho, que o resto da imprensa até desconheceu. No caso do Ministério do Turismo, a imprensa não fez nada. Quem divulgou as irregularidades foi a Polícia Federal.

Somente nos casos dos Ministérios dos Transportes e da Agricultura é que as denúncias partiram da imprensa. Algumas feitas pela Veja, outras pelo Estadão, pela Folha ou pela Istoé, que mostrou a gravação entre o ministro Alfredo Nascimento e dois deputados (Valdemar Costa Neto, que mandava no ministério, e Davi Alves Filho). No caso de Palocci, a denúncia de enriquecimento ilícito partiu da “Folha”, lembram-se.

No episódio insólito e revelador de José Dirceu despachando com ministros e com o presidente da Petrobras, a imprensa é culpada de quê? Foram os jornalistas da Veja que alugaram os quartos no Hotel Naoum? Foram eles que convocaram as autoridades?

É claro que não foi a primeira vez que Dirceu procedeu assim. Se não está trabalhando para o governo e está trabalhando para si, isso é gravíssimo. Significa tráfico de influência. Dirceu é um consultor de empresas, ficou rico nesse métier.

O governo e o PT não podem concordar com essa atividade de Dirceu, é crime. Cometido não só por Dirceu, que se diz advogado, mas também pelos ministros e autoridades que prestam deferências a ele. Perguntem ao ministro da Justiça ou a algum dos oito ministros indicados para o Supremo pelo governo do PT. Eles dirão se é crime ou não. Atribuir a culpa de tudo isso à imprensa marrom (ou a certos veículos da imprensa) é surpreendente, patético e ridículo. Deviam parar com isso e tomar conta do governo com  mais seriedade.

O governo erra, a imprensa erra, todo mundo erra. E que cada um seja responsabilizado por seus erros. Simples assim.

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