‘Não mandei, mas aceitei’, admitiu o goleiro Bruno, sobre o trucidamento de Eliza

João Gualberto Jr.

Uma sentença simples que diz tanto: uma negativa somada a uma admissão. Dois verbos: uma ação que se refuta e outra em que se assume, sendo que, quanto à primeira, o sujeito é o autor do que ocorre, ele “manda”, enquanto, sobre a segunda, é figura passiva, já que “aceita” que outros façam (seja lá o que for).

A frase foi proferida pelo (ex) goleiro Bruno Fernandes diante do júri, no Fórum de Contagem. Assegurou em juízo que tinha conhecimento do que fora feito com a ex-amante Eliza Samudio: sequestrada, assassinada, esquartejada e, num requinte final da crueldade, feita, em partes, comida de cachorro na tentativa de se ocultar o cadáver.

Desde que se viu alvo da acusação, aquela foi a primeira vez em que o agora condenado reconheceu ter ciência do triste destino da moça. Dizer que aceitou significa muito para sobre quem pesam graves denúncias. É o primeiro passo para o chamado domínio do fato. Segundo essa tese jurídica, o réu, apesar de não ter executado o ato e de não haver provas claras contra ele, teria conhecimento e controle daquilo que fora praticado.

Aceitar é admitir conhecimento. Assim, quem cala consente, e, justamente por se omitir, o acusado tem parcela de responsabilidade. Entretanto, permitir o malfeito pode ser pouco para quem é o beneficiado maior das consequências do crime. Daí que o “não mandei” pode soar um tanto falso e o “aceitei” seria o mínimo a se esperar de alguém bastante encrencado.

A FRASE DA SEMANA

Derivando esse debate semântico para a política, tema-fim deste caderno, a tal “frase da semana” pronuncia-se na área por aí há muitos anos. As palavras e a construção podem variar, mas o objetivo do emprego é o mesmo. Qual seja? Imputar ao lacaio a responsabilidade e mostrar as mãos limpas. A culpa sempre é do mordomo, que, pelo bem do patrão e em nome da fidelidade, desconhece os limites do ético e do legal.

Também, “quem nunca fez caixa 2”? Ou, então, “tomamos conhecimento por meio da sindicância interna e já estamos tomando a providência para desligar os envolvidos”. Os senhores da política são pródigos em funcionários, subordinados, faz-tudo, amarra-cachorros e afins. O poder respinga nestes – pelo menos assim devem pensar – na convivência diária com o chefe, e, então, acabam metendo os pés pelas mãos por uma causa que consideram maior. Maquiavel explica.

A declaração do Bruno remete a muitas reminiscências políticas. Basta um esforço de memória sobre os escândalos de gabinete. Tal como o (ex) arqueiro, primeiro, nega-se até a alma. Depois, quando fatos novos colocam contra o muro a veracidade das negativas, o interessado-mor até reconhece ter “ouvido falar”. Se o caso chega à Justiça e o garrote aperta, o “não mandei, mas aceitei” pode até ser uma ferramenta útil na busca por atenuantes.

É que, de Macarrões, os cargos públicos estão cercados, e todos ao redor dele podem acabar muito enrolados.

(transcrito do jornal o Tempo)

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