Não me comprometa

Sebastião Nery

Orosimbo Nonato, historiador, professor de Direito, desembargador em Minas e consultor-geral da República, era presidente do Supremo Tribunal. Gumercindo Couto, médico, tão feio que o chamavam de “Gilda” (“Nunca houve uma mulher como Gilda”), era prefeito de Belo Horizonte. Raimundo Silva era presidente do Tribunal de Justiça de Minas.

Os sobrenomes, tão diferentes, não diziam nada. Mas, como os três irmãos Andrada, de Minas Gerais e do Império, e os três irmãos Calheiros, de Alagoas e do Congresso, que relembrei aqui, também eles eram irmãos, filhos do mesmo pai e da mesma mãe, Raimundo Nonato da Silva e Lídia Couto Silva.

O pai, lúcido mineiro, registrou os três com sobrenomes diversos, Nonato e Silva dele, e Couto da mãe, com uma sábia justificativa:

– Não quero que um comprometa o outro. Nem no sobrenome. Se algum cometer algum erro ou se houver alguma falência, que cada um pague, quebre e assuma sua falência com o próprio nome, sem envolver os outros.

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NA PONTA DA FACA

Dona Amélia era quem mandava em Bonito de Santa Fé, no sertão da Paraíba. Chamou Manuel Sabugo,  mandou matar Zeca do Riachão. Manuel Sabugo saiu para fazer o serviço. De noite, dona Amélia se arrependeu.

Mas não encontrou mais Manuel Sabugo. Despachou um portador para avisar a Zeca do Riachão. E ainda fez um bilhete para Manuel Sabugo:

“Manuel Sabugo, não puxe o gatilho contra Zeca do Riachão”.

Sabugo saiu atrás de Zeca, encontrou, Zeca mostrou o bilhete:

– Sabugo, leia este recado de dona Amélia.

Manuel Sabugo leu e guardou:

– Zeca, está cumprida a ordem de dona Amélia. Vim para matar você no tiro de meu revólver, não vou mais atirar em você. Mas eu já rezei pela sua alma. Então, você vai morrer de faca, na ponta da faca.

E Manuel Sabugo matou Zeca do Riachão de faca. Não quis se comprometer com o bilhete.

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