Não se aprofundem

Sebastião Nery

Fahd Jamil, chefe do contrabando em Ponta Porã, fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, condenado a 20 anos por narcotráfico em 2005, solto em 2007 por um habeas-corpus concedido pelo ministro trambiqueiro do Superior Tribunal de Justiça, Paulo Medina, e depois foragido, deu uma grande festa, anos atrás, tempos da ditadura, no casamento do irmão.

Estava lá o mundo político, inclusive o general comandante do pedaço. Ficou impressionado com o fausto da festa, chamou o deputado Levi Dias:

– Deputado, me diga uma coisa. Qual é o forte dessa gente? É a pecuária?

– General, se o senhor se aprofundar, sai da festa.

Daí a pouco o general saiu. Tinha se aprofundado só um bocadinho.

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VERISSIMO

Nosso Luis Fernando Verissimo, sempre fino, sibilino e aquilino, às vezes dá uma de mais ingênuo do que a sua Velhinha de Taubaté. Disse ele, em 2007:

“Transcrições de conversas em telefones grampeados têm sido publicadas com tanta freqüência que já merecem ser consideradas um gênero literário… Quem não se lembra de grampos do passado, como os que gravaram as negociações para as privatizações das teles? Mas era mais raro vê-los publicados e eram conversas entre pessoas mais finas do que os grampeados de agora, portanto muito menos divertidas. Especula-se que as gravações do governo anterior circularam tão pouco e tiveram tão pouca conseqüência não porque as maracutaias fossem menores, mas porque eram mais aborrecidas”.

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JORNALÕES

É melhor o Verissimo não se aprofundar. Se ele quiser mesmo saber a razão verdadeira, vai acabar nas direções dos jornalões onde escreve. “As gravações do governo anterior circularam tão pouco e tiveram tão pouca conseqüência”, como ele bem diz, porque os jornalões, grandes revistas, TVs, eram sócios, ou parceiros, ou associados, ou aliados das grandes empresas, nacionais e estrangeiras, que ganharam de graça as bilionárias estatais das telecomunicações e de energia. E daí toda a cobertura que lhes deram.

Verissimo deveria ler a revista Piauí. À época, ela contou essa história muito bem.

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PIAUÍ

A Piauí (na média da praça, mais para boa do que para ruim) é uma revista de banqueiros, por banqueiros, para banqueiros, paga por banqueiros. E quem melhor entende de banqueiro é mesmo banqueiro.

O número 9 (de junho de 2007) trouxe longa, minuciosa, excelente matéria da Consuelo Dieguez sobre o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. Ela contou:

1. “A desestatização das teles contrariou as expectativas de que os negócios entre o Estado e a iniciativa privada inaugurariam uma era de transparência republicana. Foram os Fundos de Pensão das estatais que entraram com grande parte dos recursos para a compra das empresas, enquanto os investidores privados eram financiados pelo BNDES”.

2. “Foi também o Estado, através do Banco do Brasil, que forneceu as garantias, ou seja, o avalista do negócio foi o próprio vendedor. Alguns integrantes do governo de Fernando Henrique se comportaram como manipuladores (sic). Outros agiram como fantoches (sic) de grandes empresas. Empresários, por sua vez, atuaram como gangsteres (sic) trocando golpes baixos e grampeando-se uns aos outros”.

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DANIEL DANTAS

3. “No começo do ano passado (2006), a Procuradoria italiana começou a investigar uma vasta rede de espionagem montada pela Telecom Itália. Os envolvidos na espionagem confessaram que a Telecom Itália pagou gente no Brasil para subornar políticos, juízes, gente da Polícia Federal e do Executivo, com intuito de arregimentá-los para uma ação contra o Oportunity”.

4. “Hoje está claro que a Telecom Itália resolveu corromper o Brasil inteiro. Não sou eu que estou dizendo, é a imprensa italiana”, afirmou Daniel Dantas. Ele acreditava que, “quando a procuradoria italiana divulgar o nome dos brasileiros subornados (sic), a República (brasileira) tremerá”.

É esse “gangsterismo” confesso que Fernando Henrique insiste em chamar de “processo limpo de privatização” e quer que todo o PSDB defenda. Tudo isso foi mil vezes denunciado. E os tucanos defendendo o indefensável.

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