Não se fala na desertificação preocupante no Nordeste

Mário Assis
É uma denúncia da maior importância, que está rolando na internet. Há um sem número de órgãos públicos – federais, estaduais e municipais – teoricamente dedicados a cuidar do assunto. Estruturas organizacionais paquidérmicas, chefes, chefetes, muito cacique e pouco índio. Desperdícios de $$$$ e tempo. Resultados pífios ou menos do que pífios. É mais uma vergonha nacional.
Gilbués, no Piauí

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Como se não bastasse a falta de chuvas, o Brasil vê se alastrar no Nordeste um fenômeno ainda mais grave: a desidratação do solo a tal ponto que, em última instância, pode torná-lo imprestável. Um novo mapeamento feito por satélite pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas (Lapis), que cruzou dados de presença de vegetação com índices de precipitação ao longo dos últimos 25 anos, até abril passado, mostra que a região tem hoje 230 mil km² de terras atingidas de forma grave ou muito grave pelo fenômeno.

A área degradada ou em alto risco de degradação é maior do que o estado do Ceará. Hoje, o Ministério do Meio Ambiente reconhece quatro núcleos de desertificação no semiárido brasileiro. Somados, os núcleos de Irauçuba (CE), Gilbués (PI), Seridó (RN e PB) e Cabrobó (PE) atingem 18.177 km² e afetam 399 mil pessoas.

Num artigo assinado por cinco pesquisadores do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), do Ministério da Ciência e Tecnologia, são listados seis núcleos, o que aumenta a área em estado mais avançado de desertificação para 55.236 km², afetando 750 mil brasileiros.  Os dois núcleos identificados pelos pesquisadores do Insa são o do Sertão do São Francisco, na Bahia, e o do Cariris Velhos, na Paraíba, estado que tem 54,88% de seu território classificado em alto nível de desertificação.
Trata-se de um prolongamento que une o núcleo do Seridó à microrregião de Patos, passando pela dos Cariris Velhos. Apenas na microrregião de Patos, 74,99% das terras estão em alto nível de desertificação, segundo dados do Programa Estadual de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca da Paraíba.
“A degradação do solo é um processo silencioso” — afirma Humberto Barbosa, professor do Instituto de Ciências Atmosféricas e coordenador do Lapis, responsável pelo estudo. — “No monitoramento por satélite fica evidente que as áreas onde o solo e a vegetação não respondem mais às chuvas estão mais extensas. Em condições normais, a vegetação da Caatinga brota entre 11 e 15 dias depois da chuva. Nestas áreas, não importa o quanto chova, a vegetação não responde, não brota mais”.
ATÉ PETROLINA…
Estão em áreas mapeadas como críticas de desertificação municípios como Petrolina, em Pernambuco, que tem mais de 290 mil habitantes, e Paulo Afonso, na Bahia, com 108 mil moradores. Barbosa explica que a desertificação é um processo longo e a seca agrava a situação. Segundo ele, em alguns casos, a situação é difícil de reverter.
Na Bahia, numa extensão de 300 mil km² no Sertão do São Francisco, os solos já não conseguem reter água. Na região de Rodelas, no Norte do estado, formou-se, a partir dos anos 80, o deserto de Surubabel.  Numa área de 4 km², ergueram-se dunas de até 5 metros de altura. Segundo pesquisadores, a área foi abandonada depois da criação da barragem da hidrelétrica de Itaparica, usada para o pastoreio indiscriminado de caprinos e, por fim, desmatada. O solo virou areia. O rio, que era estreito, ficou largo, e o grande espelho d’água deixou caminho livre para o vento.
“Não existe dúvida de que o processo de degradação ambiental é grave e continua aumentando” — desabafa Aldrin Martin Perez, coordenador de pesquisas do Insa. — “A população aumentou, o consumo aumentou. Há consequências políticas, sociais e ambientais. Se falassem do problema de um banco, todos estariam unidos para salvá-lo. Como não é, não estão nem aí”.
No Sul do Piauí, onde fica o núcleo de Gilbués, são 15 os municípios atingidos. Nos sete em situação mais grave, segundo dados do governo do estado, a desertificação atinge 45% do território de cada um.  Em Gilbués, uma fazenda modelo implantada pelo governo do estado conseguiu recuperar o solo e fazer florescer milho. Todos os anos se comemora ali a festa do milho, mas a experiência de recuperação é limitada. Hoje, 10,95% das terras do Sul do estado apresentam graus variados de desertificação.
Em Alagoas, estudos apontam que 62% dos municípios apresentam áreas em processo de desertificação, sendo os níveis mais graves registrados nos municípios de Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia.  A cobertura florestal do estado é tão baixa que Francisco Campello, responsável pelo programa de combate à desertificação do Ministério do Meio Ambiente, chegou a dizer que, se fosse uma propriedade, Alagoas não teria os 20% de reserva legal.
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9 thoughts on “Não se fala na desertificação preocupante no Nordeste

  1. Caro Mario Assis,

    -A seca no nordeste brasileiro existe e não é de hoje. Basta ver que as plantas já estão adaptadas a esse tipo de regime pluvial antes mesmo do ser humano inventar a pá, a picareta e a motosserra. Afinal, quando falamos em agricultura em termos de Brasil, o nordeste é insignificante.
    Querer acabar com a seca no nordeste brasileiro é a mesma coisa que querer irrigar o deserto do Saara!
    Não se pode mudar (para melhor) o clima em uma extensão tão grande.
    Deve-se, sim, adaptar-se a ele.

    -Essa região é morada de 870.000 brasileiros porque estes constituem FONTE DE RIQUEZA para os políticos locais. Esses brasileiros pobres, como nada plantam e nada produzem, vivem apenas do dinheiro do Governo Federal. Provavelmente sairia mais barato para os nossos impostos se, ao invés de mantê-los onde atualmente estão, fossem deslocados e assentados em algum outro lugar menos inóspito. Como nada produzem e só vivem do dinheiro público e de cesta básica mesmo, tanto faz terem em casa um roçado, uma horta ou uma cadeira de balanço!

    E essas regiões deveriam ser transformadas em reservas ambientais e os pseudomunicípios dali extintos. Seria economizado, com isso, o pagamento de salários e a manutenção das mordomias dos parasitas que infestam as PREFEITURAS PERDULÁRIAS E INÚTEIS dessas regiões, verdadeiros sorvedouros de dinheiro público e reais beneficiados com o dinheiro ali gasto.

    JÁ PENSOU O QUANTO SERIA POUPADO DO FUNDO DE PARTICIPAÇÃO DOS MUNICÍPIOS, composto de 22,5% da arrecadação do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), SE AS PREFEITURAS DESSES LUGARES NÃO EXISTISSEM?
    Provavelmente daria para pagar cesta básica para todos os nordestinos pobres…

    Abraços.

  2. Eu já tenho 41 anos. E desde criança ouço governos após governos alardearem bilionários investimentos no combate à seca do Nordeste.

    E o resultado concreto que esses governos todos conseguiram foi QUASE NADA!

    Mas no entanto nosso Nordeste funciona muito bem como curral eleitoral, infelizmente. Mal dá para imaginar a quantidade de políticos que se aproveitaram do flagelo da seca nordestina para enriquecerem. Muitos desses estão inclusive hoje no Congresso Nacional, em Ministérios, em milhares de cargos em comissão ou então se tornaram até empresários, lobistas, dentre outras atividades MUITO bem remuneradas.

    E como tudo pode sempre ficar pior, eis que Lula um dia chegou ao poder. E anos depois criou o PAC. Com este programa veio a faraônica obra da transposição do Rio São Francisco.

    E hoje, em pleno Governo Dilma, a tal transposição se transformou em: – canteiros de obras abandonados, na maioria dos lotes, com canais de concreto sofrendo rachaduras devido à inutilidade sob o sol, dentre outras centenas de problemas e desafios talvez até mesmo intransponíveis. Ou seja, bilhões de reais estão indo para o ralo, mais uma vez.

    Ao invés de serem realizados projetos factíveis e também compatíveis com as características da região, o nosso Nordeste só tem recebido intervenções desastrosas por parte dos nossos governantes.

    Enquanto isso o processo de desertificação segue, em seu passo lento, porém contínuo. E num provável caminho sem volta.

  3. O problema da seca no Nordeste é multicausal:
    SOCIAIS – Falta de educação do homem para conviver com esse fenômeno atávico a exemplo do Canadá que todo ano é coberto de gelo e não se houve noticia de flagelados.
    POLITICAS – Faltam políticas públicas orientadas para a exploração das potencialidades da região. O Nordeste possui a maior floresta de plantas xerófilas do mundo, infelizmente não explorada racionalmente, pelo contrário, depredada irracionalmente;
    RELIGIOSAS – Se o número de horas gastas em procissão para “fazer chover” fosse dedicado à educação ambiental não haveria tanta estiagem. Agora surgiu novo tipo de aproveitador, o evangélico, que explora o povo no dízimo e no voto;
    AGRICOLAS – Vão desde as técnicas erradas de exploração do solo até o desconhecimento do potencial das plantas xerófilas;
    POLITIQUEIRAS – A classe política nordestina em vez de ter o desenvolvimento da região como principal preocupação, usa o cargo para enriquecer a custa da miséria do povo, deveriam ser fuzilados.
    Finalmente a falta de chuvas não é desculpa para o atraso do Nordeste, a Califórnia tem uma pluviosidade que chega a 60% da nordestina e no entanto é responsável por grande parcela no abastecimento do mercado americano de gêneros alimentícios.

  4. Quem já estudou academicamente ou realizou estudo de campo sobre o bioma Caatinga sabe que o mesmo está comprometido quase que em sua totalidade, infelizmente. É até possível estabelecer medidas de irrigação e reversão relativa do quadro a fim de melhorias tópicas, mas de uma forma geral não tem volta. Houve muito descaso por muito tempo. A natureza já deu o seu veredicto.

  5. Discordo frontalmente da afirmação catastrófica de Leonardo Maia sobre a irreversibilidade de recuperação do bioma caatinga. O segredo está em entender, proteger e diversificar a cultura das xerófilas que, inclusive dispensam irrigação.
    Temos uma propriedade de 300ha na região com a qual nosso pai nos educou, hoje a preservamos sem cultivo, mas coberta de plantas nativas. Ao entrar na mata percebi um solo protegido que até minava água com a simples pressão do pé.

  6. Pingback: Não se fala na desertificação preocupante no Nordeste | Debates Culturais – Liberdade de Idéias e Opiniões

  7. Os programas políticos destinados a ajuda ao Nordeste para sobrevivência e [Recuperação???] tem sido um fracasso há mais de um Século… Vide o engodo recente da construção do canal das águas do rio São Francisco para irrigar o Nordeste, pelo ex-presidente Lula e continuado com Dilma. Só serviu para o desvio de muito dinheiro roubado, sem prestação de contas da irresponsabilidade.
    Com menos da metade dessa verba desperdiçada, deveriam ter contratado técnicos experientes de Israel, Alemanha, Japão, para elaborar um programa sério sem baboseira politiqueira incoerente.
    A principal diferença do primeiro para o terceiro mundo é a ATITUDE do seu povo. Enquanto estivermos elegendo aventureiros para ocupar o governo deste País, não haverá esperança. Cada povo tem o governo que merece!

  8. Pingback: Informativo ÁGUA – Desertificação do Nordeste | Padrão @mbiental

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