Não somente na Agricultura, mas em outros Ministérios também vicejam esplendorosos laranjais, plantados pelas ONGs e regados pelo governo.

Carlos Newton

É um nunca-acabar de denúncias envolvendo corrupção no governo federal. Chega a se cansativo. Os jornalistas já estão até enfastiados, cobrem esses assuntos por obrigação profissional, seria muito mais agradável trabalhar no segundo caderno, dedicando-se às artes, à cultura em geral e aos entretenimentos.

Este ano, o Ministério da Agricultura já pagou R$ 6,5 milhões para uma empresa-fantasma, registrada em nome de laranjas e com sede de fachada na cidade de Mogi Mirim, no interior de São Paulo, como divulgou a Folha de S. Paulo, na edição de domingo, que começou a circular no sábado.

Com apenas um ano e dois meses de atividade, a Commerce Comércio de Grãos Ltda. é de fazer inveja à consultoria de Palocci e já está entre as dez empresas que mais receberam dinheiro do ministério em 2011, ficando atrás apenas de gigantes do setor de alimentos como a Bunge, Cargill e Amaggi.

Os pagamentos à empresa foram feitos entre fevereiro e maio como prêmio pela compra de milho de produtores rurais. O mecanismo é um incentivo da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para evitar o acúmulo de estoques quando o preço de mercado está abaixo do mínimo definido pelo governo.

O responsável pela liberação do pagamento foi o superintendente de Operações Comerciais da Conab, João Paulo de Moraes Filho, funcionário de carreira do órgão. Por coincidência,  nomeado para o cargo quando o hoje ministro Wagner Rossi (PMDB) presidia a Conab. Mas é apenas coincidência, é claro.

Moraes Filho alegou que a Commerce Comércio de Grãos executou os serviços. Um dos sócios da Commerce, Ivanilson de Carvalho Rufino, disse que os R$ 6,5 milhões recebidos foram “um achado de Deus”, obtidos pelos méritos da empresa, “com luta, com trabalho”. E desabafou: “Quem dera [ser laranja]. Eles são ricos, eu sou pobre”. Mas Rufino se recusou a dar detalhes sobre a Commerce, sua sede de fachada e os outros sócios-laranjas.

O pior é ver que, mesmo diante dessas novas denúncias, a presidente Dilma Rousseff tenha telefonado neste sábado para Wagner Rossi, única e exclusivamente para reafimar sua confiança no ministro, que está flagrantemente envolvido no cultivo desse laranjal, cujas plantações se expandiram quando esteve na presidência da Conab, antes de ser promovido a titular da Agricultura. Mas foi por coincidência, lógico.

O telefonema presidencial aconteceu depois que Rossi divulgou nota se explicando sobre novas denúncias de suposta cobrança de propina de R$ 2 milhões e suspeita de enriquecimento ilicito. “Wagner está tranquilo e firme. A presidente Dilma ligou para ele, reafirmou seu apoio, disse que a matéria de Veja não se sustenta e que gostou muito de sua resposta” – contou um dos interlocutores do ministro, segundo O Globo.

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LARANJAIS TURISTICOS

Surge agora a informação de que a ONG Ibrasi, principal beneficiária do esquema de desvio de recursos do Ministério do Turismo, operava com a ajuda de um laranjal plantado por um grupo de empresas de fachada, especializadas em emitir notas fiscais falsas e fraudar concorrências. No papel, elas têm sedes e donos diferentes. Na prática, os donos se conheciam e operavam em conjunto.

Uma delas, a Barbalho Reis Comunicação e Consultoria, informa em suas notas ter como sede um endereço em Brasília, numa sala no quinto andar de um movimentado prédio comercial. A reportagem de O Globo visitou sexta-feira a sala 503 do Edifício Corporate Center, e ouviu a atendente informar, sem constrangimento, que na sala funcionam “mais de 200 empresas”. Após verificar uma lista, ela disse que a Barbalho Reis não é uma das “associadas”.

No telefone da empresa-fantasma, ninguém atendeu as ligações. Os sócios são Humberto Silva Gomes e Dalmo Antônio Tavares de Queiroz, dois dos envolvidos na Operação Voucher, da PF, coitados, que foram algemados e sofreram constrangimentos.

A Sinc Recursos Humanos e Automação, também sediada em Brasília, foi outra emissora de notas para o Ibrasi. No endereço indicado, em área comercial, há uma porta branca com grade na frente na mesma cor. Não há letreiro algum. Pelo interfone, uma voz feminina informou ao GLOBO que ali funciona uma empresa de consultoria. E garantiu que nunca ouvira falar na Sinc.

O telefone da empresa informado nas notas é de uma residência, onde nunca ouviram o nome Sinc antes. Os telefones dos sócios, Hugo Leonardo Silva Gomes e Fabiana Lopes Freitas, também não constam da lista da operadora. E endereço da empresa na internet indicado nas notas não existe.

A forma camuflada de operar não é a única semelhança entre a Barbalho Reis e a Sinc. Segundo relatório da Polícia Federal, o sócio Humberto Silva Gomes, da primeira empresa, é irmão de Hugo Leonardo Silva Gomes, da segunda. O documento revela o teor de conversa gravada com autorização judicial em que a diretora do Ibrasi, Maria Helena Necchi, fala a Dalmo Queiroz, da Barbalho Reis, sobre a necessidade de uma reunião com a Sinc para combinar versões sobre qual teria sido o papel da empresa no convênio.

E ainda criticam a Polícia Federal por colocar algemas ao transportar de avião esses criminosos, como é praxe internacional, e por ter divulgado as fotos que eles tiveram de fazer, ao serem autuados. Dos laranjais já conhecidos, faltam ser colhidos os Ministérios do Trabalho e do Esporte, entre outros, é claro, porque a corrupção é endêmica. Espera-se que a Polícia Federal consiga se manter independente e continue a agir com todo o rigor. Porque quem apóia criminoso é cúmplice ou facilitador.

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