Não tem sentido liberar antecedentes para compra de armas

Pedro do Coutto

É absolutamente justa a indignação do presidente Barack Obama diante de decisão do Senado que, por falta de seis votos, não aprovou o projeto do governo que propunha maior rigidez na verificação dos antecedentes dos compradores de armas nos Estados Unidos. De fato não faz sentido. O projeto de lei não restringia a comercialização. Somente exigia maior controle sobre os que adquirem armamentos, cujos efeitos, todos sabem, produziram tragédias coletivas na história recente. Barack Obama precisava de 60 sufrágios. Conseguiu apenas o apoio de 54 senadores. A contradição é flagrante.

Pois se para alguém ingressar, por exemplo, no Serviço Público são exigidos antecedentes compatíveis com a responsabilidade atribuída, porque não devem ser exigidos para a compra de revólveres, pistolas, e, com maior razão para que se adquira armas de maior alcance, como as de caça, mas frequentemente utilizadas contra a vida humana? Não faz sentido. Ficou nítida a força do lobby da indústria especializada do setor. Pois se os bancos baseiam-se no seu cadastro para conceder créditos, não há explicação para que se deixe de examinar o comportamento individual dos que têm o impulso de se armar.

Sobretudo no momento em que acabou de acontecer o atentado na maratona de Boston que, até o momento, matou pelo menos três pessoas e feriu 170. Entre os quais se incluem os que permanecem internados em estado grave. A tragédia da capital de Massachussets chocou pela brutalidade, despropósito, violação de direitos humanos básicos. Deu margem, não há um, mas a centenas de crimes hediondos em série num só espaço de tempo.

OPINIÃO PÚBLICA

O maior controle em torno do incrível comércio livre de armas, lembrou o presidente Obama, tem o apoio de praticamente 90% da população. Indagou então: como foi possível o Senado, no fundo da questão, opor-se assim à opinião pública? A pergunta é totalmente procedente, uma vez que não são as leis, por si, que mudam a realidade, mas sim a realidade que leva às leis de um país. Há ao longo da história uma série de exemplos marcantes. Desnecessário citá-los em massa. Fiquemos só na escravidão negra.

Quantas tragédias, e a partir de Columbine, serão necessárias para que a legalização norteamericana reconheça concretamente ser indispensável um maior controle? Vale sempre ressaltar que, no caso de anteontem em Washington, não se tratava de proibição alguma, mas unicamente de maior controle, contra o qual ninguém deve se insurgir. Não deve. Mas de fato número expressivo de senadores se insurgiu. Tanto assim que a votação terminou, como revelou a Folha de São Paulo na edição de 18, apontando o resultado de 54 a 46 votos. Margem de diferença pequena, sobretudo para um assunto tão amplo refletido nas pesquisas de opinião pública.

Vejam só. No Senado, 54% a favor do maior controle defendido pelo presidente Obama. Junto à população, o apoio de 90%. O Senado encontrou-se dessa forma em oposição à opinião pública. A falta de rigidez maior na venda de armamentos é o fator que provavelmente mais está dificultando a ação do FBI em descobrir os autores e a motivação do atentado de Boston. Pois quanto menos informação for exigida para quem adquire armas e artefatos letais, melhor para os assassinos no rastro imundo e desumano de seus crimes.

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