Não tinha a coragem do valente Tim Lopes

Sebastião Nery

Em 59, quando Celso Furtado estava criando a Sudene, no governo de Juscelino Kubistschek, o jornal “A Tarde”, de Salvador, me mandou percorrer o Nordeste fazendo uma série de reportagens e entrevistas com os governadores, sobre as reivindicações políticas da região (“Chegou a Vez do Nordeste”). Era a primeira vez, desde a fundação em 1912, que saía matéria assinada na primeira página, além dos artigos de Simões Filho.

No fim da viagem, de Sergipe a Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte, saí de Natal, desci aqui em Fortaleza, peguei um táxi direto para o palácio. O melhor repórter urbano é o motorista de táxi. Se é cearense, vale por vários. Puxou logo conversa:

– O senhor vai se encontrar com o governador Parsifal Barroso?

– Tenho uma entrevista marcada com ele.

– O senhor vai ver. O governador Parsifal é um homem muito bom, muito sério, muito culto, fala muitas línguas, inclusive alemão, toca piano, foi ministro, mas, sobre o Ceará, acho que o senhor devia procurar falar também com a mulher dele, dona Olga. Quem manda no Ceará é a mulher de Parsifal.

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A MULHER DE PARSIFAL

A frase bateu como um título já pronto para a matéria. Almocei com o governador e a primeira-dama, conversei longamente com eles, uma conversa agradável e séria sobre os problemas do Estado, da Sudene, do País. Mas, quando se tratava do Ceará, quem falava primeiro era sempre dona Olga.

Passei três dias aqui em Fortaleza, ouvindo políticos e jornalistas e concluí que o motorista tinha razão. Parsifal, do PTB, era um homem honrado, preparado, elegante, bom administrador, mas, na hora da decisão, o que pesava mesmo era a opinião de dona Olga, uma primeira-dama incrivelmente inteligente, competente e participante.

Voltei a Salvador, “A Tarde” publicou na primeira página:

“Quem manda no Ceará é a mulher de Parsifal”.

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OS TELEGRAMAS

Três dias depois, o mais importante jornal do Ceará, “O Povo”, de Paulo Sarasate, da UDN, ex-governador, depois senador, que comandava a oposição no Estado, transcreveu minha matéria na íntegra, com manchete na primeira página, em letras garrafais:

“Jornalista baiano confirma: quem manda no Ceará é a mulher de Parsifal”.

Um escândalo na Praça do Ferreira. O secretário de Imprensa do governador era o jornalista Themístocles de Castro e Silva, meu amigo, depois deputado, que publicou um primoroso livro de memórias, inclusive relembrando esta história. Ficou decepcionado e indignado comigo. No dia seguinte, de Fortaleza chegou à redação de “A Tarde” um telegrama para mim:

“Jornalista Sebastião Nery, venha morrer no Ceará”. Assinado, Themístocles de Castro e Silva.

Saí, fui ao telégrafo, ali perto da Praça Castro Alves, respondi:

“Jornalista Themístocles de Castro e Silva, não vou”. Assinado, Sebastião Nery.

Eu não tinha a coragem do valente Tim Lopes.

 

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