Nas demissões do Dnit, esqueceram o chefe da quadrilha, José Tiago. Esqueceram também Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann.

Carlos Newton

A edição de segunda-feira do Diário Oficial da União trouxe um fio de esperança para o cidadão-contribuinte-eleitor (como nos define o genial Helio Fernandes), porque publicou a demissão de seis servidores do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), no Paraná.

Devido a IRREGULARIDADES COMPROVADAS em contratos de obras no estado, foram demitidos Ronaldo de Almeida Jares, Marcelo José Leal Gasino, David José de Castro Gouvêa, Omir Mello Ferreira, Emerson Cooper Coelho e José Roberto Bilobran. Segundo o Ministério dos Transportes, a demissão foi fruto de um processo administrativo de 2009 e não tem ligação com as denúncias que geraram a crise no Ministério dos Transportes este ano.

Mas ficou faltando demitir o chefe da quadrilha, o superintendente do Dnit no Paraná, José da Silva Tiago, que é uma figura verdadeiramente lendária em matéria de corrupção. No governo Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, José Tiago chefiava o então DNER no Mato Grosso, quando órgão federal foi extinto pelo ocorrência de corrupção descontrolada, sendo substituído pelo Dnit, vejam só que ironia.

Agora, José Tiago é investigado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pela Corregedoria Geral da União (CGU) por sobrepreço em obras. Em junho, o TCU deu um prazo de 90 dias para que o diligente servidor corrigisse o superfaturamento das obras de duplicação e adequação do Contorno Norte de Maringá, na BR-376/PR. O prejuízo para o erário, segundo o TCU, é de R$ 10,6 milhões. O superintendente, entretanto, alega que as recomendações do TCU foram atendidas e que nenhum dos relatórios de fiscalização resultou em condenação. Então, fica combinado assim.

Ligado ao ex-diretor geral do Dnit Luiz Antonio Pagot e por ele indicado para chefiar a regional do Paraná, José Tiago virou nome de avenida na cidade de Sapesal, fundada no Mato Grosso pelo grupo André Maggi, do senador Blairo Maggi (PR-MT), que sempre foi e continua sendo o protetor de Pagot, tanto na vida pública quanto na privada (epa!).

Isso aconteceu quando José Tiago dirigia o Dnit de Mato Grosso e comandou as obras da BR 364, que passou pelas terras dos Maggi. A avenida paralela à rodovia recebeu o nome de “Avenida Engenheiro José da Silva Tiago”. O projeto original da rodovia foi alterado para passar por Sapesal, roteiro de escoamento da produção agrícola do Grupo Amaggi para o porto de Itacoatiara, no Amazonas. Como se sabe, amigo é para essas coisas.

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E PAULO BERNARDO, COMO FICA?

Fala-se na demissão desses seis servidores, mas o chefe da quadrilha (Jose Tiago) continua em ação e fica faltando ouvir novamente os ministros Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann. Afinal, todos sabem que a consultora Teresinha Nerone, amiga íntima do casal, atuou no governo para obter apoio do Ministério dos Transportes justamente para a construção do anel viário de Maringá, no Paraná. Que coincidência, hein?

A empresa de Teresinha Nerone é contratada desde 2008 pela Prefeitura de Maringá para “assessoramento na montagem e acompanhamento de processos para a captação de recursos”. É exatamente esta a obra investigada pelo TCU, que aponta sobrepreço de R$ 10,6 milhões nos pagamentos do Dnit.

Por coincidência, é claro, Teresinha tem uma antiga e estreita relação com o casal de ministros. Em outubro de 2009, postou em sua página no microblog Twitter que estava “na praia, tomando vinho” com Gleisi e Paulo Bernardo. Questionado sobre isso por um jornalista, Bernardo respondeu: “Isso não é da sua conta”.

Os ministros negaram, por meio de suas assessorias, terem tratado com a consultora sobre a liberação de recursos para a obra do anel viário de Maringá. Ambos reconheceram a amizade com Teresinha, mas negaram saber que ela faça lobby em Brasília. Quer dizer, não sabiam de nada. E alguém esperava algo diferente?

Sobre o financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento para a obra, Bernardo disse que também não conversou com a lobista e que a operação foi legal. “A tramitação pelo [Ministério do] Planejamento passou normalmente pela área técnica, que analisa projetos de empréstimos internacionais. Isso é praxe”. Ou seja, foi apenas coincidência. Assim como foi coincidência o fato de Bernardo ser o ministro do Planejamento naquela época.

Essas relações delicadas com uma lobista, envolvendo obra superfaturada, deixam mal o casal de ministros, não há dúvida. Recorde-se que Bernardo chegou a ser ameaçado pelo então diretor-geral do Dnit, Luiz Antonio Pagot, quando estourou o escândalo que derrubou o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. Pagot afirmou que “cumpria ordens do Planejamento”, chefiado por Bernardo no governo Lula, e que Gleisi era quem acompanhava as obras no Paraná.

Mas o senador Blairo Maggi (PR-MT), um dos empresários mais ricos do país, entrou em cena e Pagot logo mudou de ideia, dando depoimentos apaziguadores na Câmara e no Senado, negando receber ordens do então ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.

Agora, o escândalo de Maringá volta à baila, com a demissão de seis servidores. Mas ficou faltando o chefe da quadrilha, que continua na Superintendência do Dnit no Paraná, assim como ficou faltando fazer a correlação entre a obra, a lobista Teresinha Nerone e o casal de amigos Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann, para essa história ser contada direitinho, com início, meio e fim.

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