Nascimento queixa-se de Dilma, mas bloqueia CPI para ouvir Jucá Neto

Pedro do Coutto

O senador Alfredo Nascimento, demitido do Ministério dos Transportes, afirmou que não teve apoio da presidente Dilma Roussef (apoio para quê? Não diz). E, em tom exaltado, ressaltou não ser lixo para ser varrido. Acusou seu sucessor na pasta, Paulo Sérgio Passos, que também o antecedeu quando deixou o cargo para se reeleger pelo Amazonas, de ter elevado as despesas do Dnit de 58 para 72 bilhões de reais em poucos meses, mas negou-se a assinar o requerimento da criação de CPI para apurar acusações de corrupção. Se ele, Nascimento, é inocente e foi traído por Passos, porquê não apoiar o esclarecimento total do processo maldito?

A Comissão Parlamentar de Inquérito teria obrigatoriamente de ouvi-lo, ouvir Sérgio Passos, e receber o depoimento de Oscar Jucá Neto, demitido da diretoria da Conab, que acusou a existência de forte corrupção no governo. Isso pelo fato de a CPI não se restringir aos Transportes e se estender à Agricultura.

Alfredo Nascimento não acusou o Planalto só de não lhe fornecer apoio. Ao contrário. Acusou também de propositalmente vazar informações para os jornais. Mas se ele, Nascimento, estava pronto a denunciar a corrupção na qual submergia, como condena o vazamento  das informações? Deveria elogiar a iniciativa, já que esta, teoricamente, facilitava sua ação no mesmo sentido. E tanto é fato que desceu a sombra da suspeita sobre o atual titular do ministério. Não sou ladrão – afirmou .

No pronunciamento (a melhor reportagem sobre o tema foi de Maria Lima, O Globo de quarta-feira 3), o senador fez a defesa de seu filho Gustavo de ter uma empresa de obras que progrediu de forma extraordinária, e a estendeu a seu partido, o PR. Teve o apoio do senador Blairo Magi, grande produtor rural em Mato Grosso.

Mas o argumento levantado por Blairo é, no mínimo, surpreendente. Como o próprio discurso de Alfredo Nascimento. Apoiando o ex-ministro, o parlamentar reclamou exatamente do seguinte: de a presidente agir com mais rigor contra o PR do que age, em casos semelhantes, divulgados nos jornais, contra diversos órgãos públicos ocupados por representantes de outras legendas. Neste ponto, o argumento chega a ser juvenil. Inclusive porque o governo, ainda sem um projeto político definido, este seu grande problema, atua reflexivamente.

Parte para a ofensiva quando a pressão do processo informativo ganha as manchetes. O Ministério dos Transportes atravessou semanas no alto das primeiras páginas de O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de ao Paulo, os três maiores jornais do país e os de maior influência. Ao lado da Revista Veja, são exatamente os que impactam fortemente a opinião pública.

E contra a opinião pública, impossível governar. Não aconteceu apenas com Dilma Roussef. Ocorreu com Lula. Caso mensalão. O desfecho foi o afastamento de José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil, a demissão do ministro Palocci, na época titular da Fazenda, a demissão de diversos diretores de empresas estatais. Foi também demitida no entardecer da administração a ministra Erenice Guerra.

No período Dilma Roussef, antes de Nascimento fora demitido Antonio Palocci, neste caso da Casa Civil. Por Lula, foram demitidos o presidente da Caixa Econômica federal e o dos Correios. Com Dilma, a presidência da CEF ganhou novo titular. Enfim um vendaval de demissões.

O que está ocorrendo é que as demissões encerram os processos críticos. Os demitidos saem da política, mas não ingressam no plano da polícia. E não são considerados traidores da confiança que receberam. Este aspecto a meu ver, o pior de todos. Inimigos serem tratados como amigos. Porém, como na peça de Pedro Bloch, os inimigos não mandam flores.

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