Neto muito diferente do avô

Carlos Chagas

Saber, a presidente Dilma já sabia, de tudo o que o governador Eduardo Campos vem falando do governo dela. Farpas, diatribes, críticas feitas pelo neto de Miguel Arraes chegam todos os dias ao gabinete da chefe do governo, levadas por ministros, assessores, aliados políticos e até, numa certa proporção, agentes da Abin.

Morde e assopra…

Poucos duvidam, no palácio do Planalto, de que Eduardo Campos está em campanha, dentro daquele raciocínio malandro de que “eu não me decidi, não quero, mas o meu partido quer e me pressiona”. Ora, quem é o presidente e o próprio Partido Socialista Brasileiro senão ele mesmo?

De qualquer forma, Dilma terá viajado ontem à noite para o Vaticano carregada de mau humor, depois de haver lido nos jornais volumosos resumos da palestra de Eduardo Campos a sessenta empresários paulistas, na casa de um deles, esta semana. Porque mesmo em seu estilo sutil o governador desancou o governo. Se como aliado, comporta-se assim, imagine-se quando tornar-se independente e, até, oposicionista.

Ao dizer “dá para fazer muito mais” e acrescentar que “o país não começou ontem, nem com o partido A, B ou C”, o convidado da plutocracia paulista agride o que a administração do PT, desde o Lula, mais se orgulha. No caso, ignorando-se se certo ou errado, que mudaram o Brasil.

Campos foi adiante: as coisas podem piorar e há nas elites uma grande preocupação com o futuro. Claro que há, poderiam os companheiros responder, na medida em que os juros baixaram e o faturamento dos bancos e das empresas caiu um pouquinho. Falou em sobressalto dos que foram atingidos por medidas do governo e os que não foram. A assistência entrou em orgasmo ao ouvir que o estado precisa evoluir, ou seja, tardam as tais reformas em favor do capital e contra o trabalho.

Registraram-se as mesmas contradições de algumas semanas para cá, nas digressões do convidado. De um lado, ele verberou a antecipação do debate eleitoral, que rotulou de maniqueísta porque o Lula lançou Dilma à reeleição, esquecendo-se de que não se passa um dia sem que a bancada do PSB deixe de lançá-lo. Pouco depois, no entanto, acrescentou que a hora do debate chegou, sendo o que ele faz, apesar da ira do Lula. Quer dizer, a ira vale para um lado, não vale para o outro.

Demorou-se a peroração, queixando-se o governador da falta de diálogo com o governo, já que precisa dirigir-se a ele através da imprensa. Pregou a renovação em 2014 e deixou uma janela aberta para o recuo ao acentuar que não se meterá em aventura.

Numa palavra, o candidato socialista utilizou linguagem muito mais a gosto do capitalismo empedernido, mostrando outra vez a distância que o separa do saudoso avô. Nem é preciso dizer que ensaiou passar o chapéu, em tempo oportuno, junto às elites, para enfrentar as despesas de campanha…

É PRECISO PEDIR TEMPO

Foi tão inexpressiva, para não dizer lamentável, a repercussão das três mudanças ministeriais promovidas sexta-feira pela presidente Dilma, que no Congresso muita gente supõe uma parada para reajustamento de dispositivo. O termo é militar e significa que depois de uma progressão, ou mais especialmente de uma retirada, um exército deve aferrar-se ao terreno, interromper as atividades e buscar recompor-se, contando mortos, feridos e desaparecidos, convocando as reservas e elaborando novos planos de ação. Prosseguir na tática anterior pode redundar na derrota definitiva.

Assim deveria agir a chefe do governo diante do início de sua reforma do ministério. As três alterações revelaram apenas fraqueza e fisiologismo. Cedeu às pressões e exigências do PMDB e do PDT sem nenhuma vantagem para a eficiência de sua administração. Melhor seria interromper a manobra e deixar para mais tarde a satisfação dos interesses do PR e do PSD, que não serão menos escandalosas.

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