Nível político cai abaixo de zero: país é saqueado todo dia

Pedro do Coutto

Reportagens de Roberto Maltchik e Gerson Camaroti, no Globo, e de Cristiane Samarco e Marta Salomon, O Estado de São Paulo, manchetes principais das duas edições de quarta-feira 4, revelam que o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, destinou 90% das verbas de prevenção de calamidades para o estado de Pernambuco onde exerce atividades políticas. Os recursos reservados deveriam ser aplicados em 56 municípios listados. Nenhum pernambucano.

O contraste é total e, em diversos casos, tornou-se fatal. Eram 30 milhões de reais carimbados. São Paulo recebeu 0,16%. O Rio de Janeiro zero por cento. O Globo e O Estado de São Paulo afirmaram que a presidente Dilma Rousseff teve que intervir. O titular da pasta, responsável pela desintegração das verbas, balança. Poderá se tornar mais um a ser demitido. Ou, ao menos, ter de pedir exoneração. No Globo, a foto que acompanha a matéria é de Carlos Rienck. No Estado de São Paulo de Beto Barata.

Mais um triste episódio administrativo, cujo conteúdo foi deslocado para o plano da política por ela mesma. O nível político, confrontando-se o presente com o passado, não há como negar, caiu assustadoramente. Aliás desabou. A incompetência aliou-se à corrupção. Galopante. O país, na realidade, é saqueado diariamente. Não transcorre uma semana sem que os jornais e revistas denunciem etapas seguidas de uma avalanche de irregularidades e ilegitimidades.

Demissões em série. No governo Lula, começaram com o ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, e se encerraram com Erenice Guerra. No período inicial de Dilma, seis escândalos, agora o sétimo. Ocupantes de cargos importantes, em vez de se empenharem em ações construtivas, pois este é o verdadeiro sentido da sua atividade, deslocam sua visão para situações pessoais e de grupos. Não para a ótica coletiva. Como se o povo, não existisse.

O ser humano deveria ser o sujeito e o objeto direto da atuação de ministros, governadores e prefeitos. Mas não. É remetido para uma esfera maias que secundária do panorama.Em consequência, os problemas se agravam e eternizam, a concentração de renda segue seu ciclo ampliando a falta de solução para tudo e todas as coisas.

Neste caso do Ministério da Integração Nacional até a prevenção em áreas de extremo risco foi suplantada na consciência de Fernando Bezerra. Se não sair do cargo, como poderá ele sentar-se à mesa das reuniões ministeriais e se dirigir, sem constrangimento, à opinião pública? Não poderá. Ninguém escapa de si mesmo. Mas isso não serve de consolo aos desabrigados, vítimas diretas da omissão e da divisão absolutamente desigual dos recursos previstos.Para Pernambuco, 90%. Para São Paulo 0,16. Para o Rio de Janeiro apenas zero.

No passado, anos dourados de JK, nenhum fato desse tipo ocorreu. Ao contrário. O presidente da República criou, por exemplo, a Sudene, e para ela nomeou Celso Furtado exatamente para que as secas não continuassem a ser uma indústria das oligarquias regionais. O Nordeste iniciou um processo de industrialização, o coronelismo entrou em declínio. Porém, impressionantemente, reviveu de parte daqueles que o combatiam como uma vergonha para o país, emblema do atraso brasileiro.

Os interesses político partidários ressurgiram e nessa onda de ressurgimento apareceu o ministro Fernando Bezerra, alguém que representa a face do passado. A utilização de recursos públicos de prevenção transformou-se em instrumento de edificação eleitoral. Noventa por cento das verbas para as urnas. Os dez por cento restantes para as ruas de mais de 50 cidades arriscadas a submergir. Como no ano passado, submergiram Friburgo e Teresópolis. Este ano Friburgo voltou a sentir o peso da catástrofe que, em Minas inundou uma série de cidades, entre elas a histórica Ouro Preto.

Francamente é não ter consciência do que seja, de fato, integração nacional. As decisões de Fernando Bezerra não o desintegram somente como administrador, mas também a própria estrutura política que, de instrumento de realização coletiva,  passou à categoria de mera ilusão pelo voto.

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